Exposição Paulo Leminski e os Antigos

Olá, gente! Esperamos que todos estejam bem. No último mês fizemos uma série de posts sobre recepção e hoje anunciamos a exposição virtual Paulo Leminski e os antigos; pensando no contexto atual e na importância dos estudos de recepção, mostramos a presença dos gregos e romanos na contracultura paranaense através da obra do poeta curitibano.  

Para conferir acessem o link:

Made with Padlet

As paredes da cidade: entre o muralismo e o grafite

Arte temática de Paulo Leminski com vários de seus haikais no centro de Curitiba, rua Doutor Faivre esquina com XV de Novembro. Imagem: divulgação.

Em preparação para a exposição sobre Paulo Leminski, o tema do post desta semana será sobre um elemento importante das cidades: suas paredes, muros e murais.

Em Curitiba, principalmente no centro da cidade, é possível observar diversos murais com temáticas que refletem uma visão bem tradicional do Paraná: muitos pinheiros, pinhões, gralhas-azuis e figuras realizando trabalhos braçais. Desde a primeira república, esse tipo de obra, encomendada pelos governos de estados e municípios, são reconhecidas pela historiografia da arte como uma maneira de tentar estabelecer uma identidade específica para a cidade. Os temas já anteriormente mencionados que se encontram nos murais “oficiais” presentes em Curitiba fazem referência ao Paranismo, movimento artístico que floresceu na cidade justamente com o objetivo de construir uma identidade para o Paraná, que se tornou estado independente de São Paulo em 1853. Esse movimento artístico, por mais que tenha seu momento de maior produção na primeira metade do século XX, teve um impacto permanente na arquitetura cidade. Mesmo em períodos posteriores, é possível observar elementos de origem paranista em edifícios e calçadas, além de em murais de artistas como Ida Hannemann de Campos e Poty Lazzarotto.

Entretanto, não apenas de murais encomendados pelo poder público que se constitui uma cidade. É nesse aspecto que Paulo Leminski entra na nossa discussão. Segundo o historiador Everton de Oliveira Moraes, Leminski foi uma voz contrária à visão tradicional de Curitiba – de um povo trabalhador, conservador, com muita influência de seu passado imigrante –, buscando sempre trazer à tona tensões e disputas presentes na cidade. Ainda segundo esse historiador, o artista teceu diversos esforços para incitar o experimentalismo na cidade, colocando-se como uma espécie de “herói nacional” que negava não apenas a visão tradicionalista da cidade, mas também sua construção como cidade moderna modelo. Atualmente, Leminski continua inspirando e contribuindo para a imagem de Curitiba, homenageado em diversas paredes, construções, ruas, bares e localizações turísticas.

Banner pela artista Anita Ferreira para a Casa da Memória, em celebração ao que seria o aniversário de Leminski em 2017. Imagem: divulgação.

Para conhecer um pouco mais sobre Paulo Leminski e o seu trabalho, fique de olho no blog e aguarde a exposição!

  • Letícia Schevisbisky de Souza

Em Defesa dos Estudos de Recepção

Com a ideia de criar uma exposição sobre a obra de Paulo Leminski e sua relação com os antigos, o blog agora tem feito uma série de textos sobre passado e presente que envolvem de alguma forma temas tratados pelo poeta. A partir disso, optei para trazer aqui uma abordagem não muito usual: sabendo que Leminski conhecia a antiga cultura oriental e escrevia Haicai e, também era tradutor de textos romanos, escrevi uma reflexão sobre a relação entre literatura e cinema. Mesmo que Leminski não seja o foco da reflexão aqui, ele a inspira, na medida em que o autor refletia sobre as formas de trazer as múltiplas antiguidades para o presente.

É fato que adaptação de uma obra literária ao cinema é um assunto que gera polêmica e discussão sobre os cuidados com a história representada. Há vários tipos de adaptações do mundo antigo às telas. Há raras ocasiões em que se adapta uma obra da antiguidade como, por exemplo, o filme Satyricon (1969) de Frederico Fellini, baseado na Magnum opus homônima escrita no século I pelo autor romano Petrônio. O mais comum é o que ocorre com o filme Gladiador (2000) de Ridley Scott, que tem um roteiro baseado em diferentes obras produzidas no século XIX (literárias e pinturas) gerando situações de adaptação inverossímil para o período histórico narrado, mas remete a experiência moderna do público. Salta aos os olhos o fato de que, quando o protagonista Maximus (Russell Crowe) é escravizado, ele é apresentado ao personagem Juba (Djimon Hounsou). Juba não só é um dos unicos personagens negros do filme, como também informa a audiencia que Maximus agora é um escravo. Ora tal medida, imbuída de um visível racismo, naturaliza a condição de escravo das populações africanas, o que não só não é verdadeiro, como é profundamente problemático. Essa relação complexa entre verossimilhança, adaptação para às telas e as ideias que o filme com temática focada no mundo antigo não se restringe aos épicos sobre o mundo greco-romano. Vejamos o caso de Mulan (2020).

Em 2020 a Disney lançou um re-make life-action do filme Mulan uma animação produzida em 1998 pela mesma empresa. Desde o início da produção a diretora Niki Caro defendeu que o realismo e rigor histórico seriam os nortes para o roteiro do filme e, por essa razão, as icônicas cenas do original são retiradas. Assim, quando a protagonista Fa (Hua) Mulan foge de casa para assumir o lugar de seu pai na guerra, a personagem na versão de 1998 corta seu cabelo com uma espada, o que não ocorre na edição de 2020, pois nenhuma espada da época apresenta o corte afiado o bastante para cortar cabelo em um único corte limpo e, também, seria culturalmente incorreto, pois entra em conflito com o confucionismo contemporâneo a balada de Hua Mulan, obra em que se baseiam ambos os filmes. Considerando que homens e mulheres eram instruídos a não cortar o cabelo e as representações da época demonstram homens com cabelos longos, no live-action, Mulan (Liu Yifei) apenas coloca a armadura do pai e foge de casa sem cortar o cabelo. Se o realismo foi um ponto central do filme, como esse foi recebido pelas audiências?

Chamo atenção para a personagem Xianniang (Gong Li) que no filme é uma feiticeira capaz de mudar de forma e é a principal responsável pelas vitórias do antagonista do filme Bori Khan (Jason Scott Lee). Apesar de ser muito poderosa, a personagem é tratada com desprezo mesmo por seus aliados que constantemente a chamam de “Bruxa” com o comentário obviamente tendo a intenção de ser tomado como um insulto. Esse é um dos principais pontos levantados pelos críticos ao analisar o filme, o conceito de uma mulher que tem poderes mágicos e é marginalizada se pauta em uma concepção católica européia e faz pouco ou nenhum sentido no contexto da obra original. O argumento central de que o filme é respeitoso as audiências chineses, em uma mais cuidadosa versão, indica uma visão pré concebida a partir da perspectiva ocidental dos temas na balada de Hua Mulan, além de discursos problemáticos como a noção que uma mulher apenas pode se destacar se ela nascer com alguma qualidade inerente que a faça igual a um homem.

As críticas de Mulan demonstram que mesmos filmes que não tem nenhuma intenção de se instruir a partir da história ainda possuem discursos dentro de si além que demonstram visões de passado e construções sobre o passado. Se Mulan 2020 foi capaz de alguma coisa, apontou que o grande público possui expectativas e ansiedades sobre as representações do passado, que questões de raça e gênero despontam em seus detalhes, tal como o comentado sobre Gladiador. Assim, entendo que é tarefa da academia estar envolvida nas análises de recepção e atenta para como essas questões apareceram entre o público jovem, principal alvo desses filmes.

Juntei nessa reflexão três filmes produzidos em momentos distintos, mas que tratam de temas em comum: o mundo antigo e a relação que estabelecem com a juventude. Todos articulam raça e gênero em perspectivas próprias, o primeiro de forma mais progressista, por estar no contexto contracultural, os demais optam por narrativas mais conservadoras. Enotea, a feiticeira de Satyricon tem papel de destaque na trama, o que não necessariamente ocorre com Xianniang que é tratada na maior parte do filme como uma mera lacaia do antagonista Bori Khan mesmo sendo muito mais poderosa que ele. Assim, para entender Satyricon, Gladiador ou mesmo Mulan é necessário olhar para além de apenas o que a obra tem apresentado a audiência, mas também nos diversos filtros que elas passam. Os estudos de recepção, portanto, são fundamentais para entender como esses filmes falam tanto sobre o passado como sobre o presente e, também, sobre os discursos inseridos nesse presente. Se a academia se recusar a tomar essas obras como fontes de pesquisa, perderá uma excelente oportunidade de reflexão sobre a produção e a formação de visões do passado na cultura de massa.

  • Vitor Gabriel Maidl

Conhecendo Paulo Leminski

Oi, gente! No post de hoje buscamos apresentar um pouco sobre Paulo Leminski, sua vida, obra e sua relação com os antigos gregos e romanos.

Claudio Daniel: Paulo Leminski, 30 anos de saudades - Vermelho
Paulo Leminski. Imagem: divulgação.

O poeta, nasceu em Curitiba no dia 24 de agosto de 1944, viveu o início da infância no interior de Santa Catarina e parte da adolescência em São Paulo, quando iniciou os estudos com os monges beneditinos, lá teve contato com as línguas antigas, grego e latim, e também onde se deu a base de sua educação. Após sair do mosteiro aos 14 anos, voltou para Curitiba, e quando mais velho ingressou no curso de direito na Universidade Federal do Paraná, porém não concluiu os estudos na área. Seu início na arte foi cedo, começou a fazer poesia ainda quando criança, e teve uma grande influência da música, tendo sido autodidata. Além do grego e do latim ele conhecia diversos idiomas, como o inglês, japonês, polonês e entre outros.

No ramo profissional Leminski foi além de poeta, professor, publicitário, jornalista, tradutor, compositor e etc. Ele possuía uma exímia capacidade de trabalhar com a linguagem. Sua obra literária vai além de poesia, engloba ensaios, romances, biografias e prosas experimentais. Teve grande influência dos poetas concretistas, do zen budismo e dos clássicos. No quesito das influências antigas ele traduziu o Satyricon de Petrônio e produziu uma releitura das Metamorfoses de Ovídio. Além do mais, sua obra poética é repleta de diversas referências as línguas antigas e aos clássicos, indico aqui o texto de Guilherme Gontijo Flores, sobre a relação do poeta com o latim (você pode ler a resenha dessa obra aqui mesmo no blog).

Mesmo tendo um vasto referencial teórico, a escrita de Leminski é acessível, pois sua poesia é para todos. Ainda, sua produção de biografias também é marcante: ele escreveu quatro biografias, de personalidades como Jesus, Bashô, Trotsky e Cruz e Souza.

O poeta tinha uma relação muito estreita com a cidade de Curitiba, sendo uma das figuras mais lembradas quando pensamos a produção literária no Paraná. Foi leitor de Emiliano Perneta e principalmente de Dário Vellozo, mas também frequentou a cidade, seus bares, suas ruas, como um verdadeiro Flâneur. Leminski também contribuiu muito para a produção musical nacional, tendo suas composições tocadas por diversos músicos como Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e outros.

Em uma passagem ele define a arte como “a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade”. Paulo Leminski viveu da arte e produzi uma vasta obra, infelizmente morreu cedo, aos 44 anos. Entretanto, sem dúvidas experienciou este mundo de liberdade e sua obra ainda vive.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

Novos temas e pesquisas!

Oi gente! Esperamos que todos estejam bem!

Nosso post de hoje é para comunicar que haverá uma mudança nas postagens do blog. Agora elas serão tematizadas a partir das questões de Recepção dos Clássicos, principalmente na cidade de Curitiba.

Como primeiro eixo temático, estamos preparando uma exposição virtual sobre os antigos na obra do poeta Paulo Leminski. Já na próxima semana iniciaremos as publicações e trabalharemos a vida de Leminski, sua relação com a contracultura e as suas traduções, bem como a da obra Satyricon.

A exposição completa será lançada em dezembro! Acompanhem o blog, pois as próximas publicações prometem.

Paulo Leminski. Imagem: divulgação.

Entrevista com Maria Regina Cândido

Oi gente! A entrevistada dessa semana é a Maria Regina Cândido, Professora Associada do Departamento de História da UERJ.

Profa. Dra. Maria Regina Cândido. Foto: arquivo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Pertenço a uma família mineira que adora contar histórias. Narrar fatos, acontecimentos sempre chamou a minha atenção e me levou a cursar jornalismo. Sou formada em Jornalismo e Editoração pela Faculdade Estácio de Sá. Durante esta período, eu descobri a História e decidi que, ao terminar a formação em jornalismo iria ingressar no curso de História. Ao término do curso, ingressei no curso de História na UFRJ.
Durante o primeiro período do curso tive a grata satisfação de conhecer a professora Neyde Theml. A aproximação foi bizarra, pois ela chegou na sala de aula e perguntou quem tinha carteira de motorista e sabia dirigir. Eu, inocentemente, levantei o dedo. Resultado: ela me entregou a chave de seu carro e pediu para eu buscar o Prof. Jean Pierre Vernant no aeroporto Santos Dumont. Imaginem Neyde Theml e Jean Pierre Vernant juntos, foram palestras maravilhosas e sedutoras. Fui convidada para entregar o grupo de pesquisa em sociedades antigas coordenado pela professora Neyde. Entretanto, havia um grande problema, o grupo de estudo não tinha conhecimento de grego antigo (ático). O problema foi superado com as aulas ministradas pela Profa Silvia Damasceno, docente de Grego Antigo da UFF. Na pós-graduação (mestrado e doutorado), a Prof Neyde detinha a prática de enviar os seus orientados para realizar estágio na EFA (Escola Francesa de Atenas) confesso que foi a minha primeira viagem ao exterior. Depois ingressei como professora de História Antiga na UERJ, fundei o NEA/Núcleo de Estudos da Antiguidade e a Revista Eletrônica NEARCO. E foi assim que a História Antiga entrou em minha vida e permanece até a presente data.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Adoro livros sobre História Antiga, devido a influência da orientadora, tive contatos com a historiografia francesa através dos livros de Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal Naquet e Marcel Detienne. Les origines de la pensée grecque, La cuisine de sacrifice en pays grec, L’individu, la mort, l’amour: soi-même et l’autre en Grèce ancienne, Entre mythe et politiqueL’univers, les dieux, les hommes: récits grecs des origines Paris.  A leitura destes livros e outros, ajudou na compreensão da complexidade da sociedade grega em torno de temas sobre teatro, religião e morte.  
O interesse sobre teatro grego acabou predominando, especificamente, as obras do poeta Eurípides. O universo dos trágicos e do teatro me levou ao ter contato com as obras de Jacqueline de Romilly, La Tragédie grecque, La Modernité d’Euripide.Les Grands Sophistes dans l’Athènes de Périclès. Alcibiade ou les dangers de l’ambition. La Grèce antique contre la violence.
Devo acrescentar também as obras de Claude Mossé com os livros Les Institutions grecques, La Tyrannie dans la Grèce antique,La Colonisation dans l’Antiquité, La Fin de la démocratie athénienne. Aspects sociaux et politiques du déclin de la cité grecque au ive siècle av. J.-C.. Como se pode notar, os livros fazem parte dos clássicos da literatura grega contendo ideias, debates e questionamentos assaz interessantes. Eles foram vitais para minha formação como helenista.
Não posso deixar de mencionar a participação, em minha formação, do eminente Prof. Ciro Flamarion Cardoso que sempre me incentivou a criar métodos que dessem conta da minha documentação (os defixiones) fragmentada. Através de sua supervisão que foram criadas as grades metodológicas de análise especificas para textos e de imagens que hoje aplicamos nas pesquisas sob a minha coordenação. Informações sobre as grades de analise metodológicas foram publicadas pela Profa Claudia Beltão/UniRio no livro A Busca do Antigo.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Atualmente, desenvolvo a pesquisa sobre Gregos e Persas sob a ótica do Ritual da Xênia e da rede de conectividade e hospitalidade nos séculos V e IV a.C.: o caso dos atenienses ( esta pesquisa foi aprovada no processo de seleção de bolsista de Produtividade do CNPq e no Prociência FAPERJ/2020.).  O tema sobre a relação entre os gregos e persas parte da personagem Medeia como fio condutor da pesquisa devido a sua origem oriental demarcado pelos seus trajes persas.
Tenho um profundo apreço por imagens de vasos gregos e as uso como suporte de informação. Considero que a indumentária grega associada à vestimenta dos persas em Medeia funciona como um indício e uma forma de comunicação não verbal de parte da elite de Atenas.
O tema desta pesquisa foi o resultado da viagem que fiz ao Irã, para participar do curso de Arqueologia Antiga a convite da Profa Katia Pozzer/UFRGS. As aulas do curso foram ministradas in loco nos sítios arqueológicos do chamado Império Persa no Irã (Teerã, Shiraz, Yazd, Persepolis, Pasargada, Espharan, Firuzabad) sob a supervisão do arqueólogo Prof. Dr. François Desset da Univeridade de Teerã.
A partir de contatos e informações acabei me aproximado de autores ingleses e russos (que publicam em língua inglesa) que analisam o contato dos atenienses com as regiões do Mar Negro.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Os temas de interesse são vastos como a alimentação no mundo grego e romano, a relação entre magia e religião, conhecer melhor a presença dos gregos no Mar Negro.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo?

Sim, as estruturas físicas do teatro grego em diferentes regiões da Grécia: fiquei impressionada com a acústica do Teatro de Epidauro.
Em Roma, a estrutura do Coliseu é de uma das maravilhas do mundo

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Confesso que sou apaixonada por Medeia. O tema sobre a sacerdotisa de Hécate nos permite refletir sobre o lugar social da mulher migrante, estrangeira e considerada bárbara no mundo grego. Medeia detém muitas imagens magnificas que impulsionara a sua difusão iconográfica nos vasos de cerâmica ática. Considero Medeia uma mulher bárbara que detém o domínio de ervas e drogas mágicas, mulher ativa que não se cala diante do poder masculino, esposa e mãe corajosa que mata os filhos em sacrifício visando transforma-los em deuses.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Seria uma honra receber o poeta Eurípides para passar uma tarde com café, chá e bolo de chocolate, já pensou!!! Gostaria de conversar sobre a situação da mulher em Atenas, tanto a mulher grega quanto a mulher estrangeira assim como a relação entre magia, religião e a circulação das práticas da magia dos katadesmoi, seria divino!!
Gostaria de fazer uma entrevista com Medeia (a grega e a romana), dirimir algumas dúvidas, ouvir os seus relatos de mulher barbara vivendo entre os gregos.
Em Roma, gostaria de conversar com o poeta Sêneca sobre a sua versão da tragédia Medeia, a motivação da escolha e o que tinha em mente, qual a mensagem que desejava vincular através da sacerdotisa de Hécate.

A História de Édipo na Nouvelle Vague Japonesa, o mito, o cinema e a política

O Funeral das Rosas — Bara no sôretsu (Toshio Matsumoto, 1969) | by Larissa  Goya Pierry | Subvercine | Medium
Cartaz do filme “O Funeral das Rosas”. Imagem: divulgação.

É notável que os gregos e romanos já foram temas de diversas produções cinematográficas, desde filmes infantis como “Hércules” da Disney até os “300 de Esparta” ou “Gladiador”. Porém, neste post pretendo abordar uma obra cinematográfica um pouco mais underground, que fez parte do movimento da Nouvelle Vague japonesa, trata-se do filme “O Funeral das Rosas” (Bara no Sōretsu), de Toshio Matsumoto, lançado em 1969. O filme conta a história de Eddie, uma mulher trans que ao longo de sua jornada assassina a própria mãe, e possui relações com o seu pai, ou seja, a história traz uma adaptação do mito de Édipo do grego Sófocles, que viveu no século V a.C apogeu da escrita na Grécia antiga. A tragédia de Édipo é um clássico que já foi adaptado e debatido em diversas áreas, desde a filosofia, história, literatura, psicologia e entre outras.


Nos anos 1960 na França houve a ascensão da Nouvelle Vague rompendo com as tradições estabelecidas pelos cineastas que já estavam no mercado. O nome foi dado pela imprensa na época para se referir a filmes que eram muitas vezes independentes, dirigidos por pessoas mais jovens que não possuíam muita experiência no mercado do audiovisual e eram interpretados por atores não tão famosos quanto os das antigas grandes produções. Os filmes que muitas vezes eram gravados nas próprias ruas da cidade foram muito bem aceitos pelo público, principalmente o mais jovem. Alguns nomes importantes do movimento são François Trufautt, Jean-Luc Godard, e Agnés Varda. É bem provável que você já tenha ouvido falar ou assistido algum filme dirigido por um deles, afinal o movimento ganhou muita importância ao redor do mundo e o fenômeno não ficou restrito só a França, algo similar estava acontecendo em outros países.


No caso do Japão a Nouvelle Vague ou Nūberu bāgu, tem o surgimento associado a um grupo da Nova Esquerda japonesa, a qual ascendeu no período pós-guerra em conflito com a esquerda institucionalizada representada pelo Partido Comunista Japonês (PCJ). A esquerda institucionalizada angariava um discurso que propagava o medo da volta ao passado pré-moderno, ou que o povo japonês se tornasse vítima de um regime autoritário, nesse sentido, defendia o que acreditava ser a paz e a democracia alcançada no pós-guerra. Já a Nova Esquerda não acreditava que se quer houvesse existido essa paz e democracia no Japão pós-guerra, defendendo que as ações políticas deviam ser baseadas não em um medo das pessoas se tornarem vítimas, mas sim atacassem o capitalismo e a democracia liberal.

No contexto da renovação do tratado de Cooperação Mútua e Segurança entre o Japão e os Estados Unidos, assinado em 1970, a decisão de permanecer com o pacto foi visto pela Nova Esquerda como uma complacência do Japão, e não como se este estivesse em uma posição de vítima tal como alegava o PCJ. A nova esquerda se fortaleceu ainda mais durante o período da guerra do Vietnam, onde o Japão forneceu suporte logístico para o Estados Unidos, gerando revolta nos jovens que faziam parte do movimento. Algumas das características importante da Nova Esquerda Japonesa presentes nos filmes da Nūberu bāgu, são as de que ambos contavam com a participação da juventude e faziam críticas a modernidade e a crença de um progresso linear. A radicalização na maneira da produção cinematográfica acompanhou o processo político de radicalização da Nova Esquerda.


A temática mitológica é vista em diversos filmes da Nūberu bāgu, em geral há uma retomada dos mitos que remontam ao período do Japão pré-moderno, mas também como é o caso de “O Funeral das Rosas”, existe uma abordagem de mitos ocidentais. Ao utilizar esses mitos os cineastas buscavam uma maneira de subverter alguns símbolos do passado pré-moderno para abordar questões do presente. Ao recontar o mito de Édipo, Toshio Matsumoto traz algumas questões a respeito da inevitabilidade dos comportamentos sociais e de acordo com David Pinho Barros, (PhD em estudos interartísticos, literários e culturais pela Universidade do Porto), o filme mostra que a revolução proposta pela Nova Esquerda estava se dando mais no campo social do que no político. Afinal, de acordo com ele, a obra de Matsumoto apresenta um retrato onde as regras que regem o universo social se passam em um microcosmo diferente da esfera maioritária, indicando então essa diferença entre o desfecho da revolução nas camadas políticas e sociais.

REFERÊNCIAS
BARROS, David Pinho. Édipos, Sísifos e Onis: Reescrita de mitos em Matsumoto, Teshigahara e Shindô. In: Teatro do mundo v.06, 2012. p. 165-174.
DE VARGAS, Ferran. Japan’s New Left and New Wave. An Ideology’s Perspective as an Alternative to That of National Cinema. In: Arts, Multidisciplinary Digital Publishing Institute, 2019.
MARIE, Michel. A Nouvelle Vague. In: Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 30, n. 19, p. 165-180, 2003.

  • Renata Cristina de Oliveira

O RARO DO RELES: UM LATIM DE BANDIDO

Paulo Leminski - poemas - Revista Prosa Verso e Arte
Paulo Leminski. Imagem: Revista Verso, Prosa e arte. Reprodução Livre.

O post de hoje é uma dica de leitura do capitulo de autoria de Guilherme Gontijo Flores, professor do departamento de Letras Clássicas da UFPR, parte do livro: A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez estudos sobre a obra de Paulo Leminski, organizada por Marcelo Sandman. Na primeira parte do texto é apresentado a relação de Leminski com o latim, e como se deu a utilização da língua em sua obra, o autor aponta que o poeta tinha pavor da poesia provinciana, e da pedância erudita ao utilizar outros idiomas, principalmente o latim, e diferindo disso Leminski traz uma contra pedância. Ele não abandona a bagagem erudita, mas a tira da torre de marfim, colocando-a em contato com o mundo, expandindo as possibilidades de diálogo, afastando então, o idioma da cultura erudita e o aproximando da contracultura. Flores enfatiza a utilização de um jogo etimológico, onde o poeta não traz a etimologia por si só, mas também através da aproximação de palavras com sonoridades parecidas, busca recuperar uma origem em comum de termos semelhantes, ou estabelecer sentidos fictícios que favoreçam o intento da poesia, possibilitando diversas camadas de leitura, e ampliando então o sentido do poema.

O tópico seguinte se trata a respeito das traduções realizadas por Leminski, de início é exposto a visão do poeta sobre o oficio de traduzir, ao analisar um trecho do poema “Ler Pelo Não”, o autor enfatiza que para o poeta o erro passa a ser uma possibilidade para a criação de algo novo, e enfoca na relação deste com o trabalho de Haroldo de Campos, para o qual a tradução não deveria somente transmitir a mensagem, mas também trazer algo próprio, a tradução seria uma criação, um diálogo entre autor e tradutor. Flores discorre, por conseguinte, sobre a tradução do Satyricon feita por Leminski, apontando que este ao traduzir a obra, buscava lhe dar uma nova vida, mostrando os complexos componentes humanos que fazem parte da cidade; ao comentar a tradução de Leminski, Flores aponta que este deixa passar algumas coisas, e que o principal seria as alterações modernas que livro sofreu. Ele caracteriza a tradução de Leminski como um Satyricon apropriado pela poética marginal, feito neste caso com bastante rigor, destacando que o poeta utiliza da mistura de termos eruditos e da linguagem popular para compor as suas traduções, e por fim salienta que a tradução de Leminski abre espaço para novas possibilidades de leitura para a obra.

No tópico final é exposto e comentado mais alguns dos trabalhos tradutórios de Leminski, como a sua releitura das Metamorfoses de Ovídio, onde o poeta entrelaça e modifica os mitos originais de maneira livre, e traz em seu texto algumas traduções excelentes de trechos do original. É evidenciado também uma tradução dispersa de Horácio, que traz o estilo tradutório utilizado no Satyricon, no qual o poeta traz uma poética contemporânea com traços do movimento concretista na maneira de organizar a composição, revitalizando então a obra de Horácio de uma maneira menos “Clássica” e sim mais coloquial, que incorpora elementos da poética de sua geração. Concluindo o texto o autor assinala que o poeta embora mantenha a solidez do trabalho filológico, este consegue fazer isso de maneira a qual o texto possa ser acessível ao leitor, e que possa adentrar na poética contracultural e tropical.

Referências
SANDAMANN, Marcelo (org.). A pau a pedra a fogo a pique: Dez estudos sobre a obra
de Paulo Leminski. Curitiba, Secretaria de estado da Cultura, 2010. p. 103 – 139.

  • Renata Cristina de Oliveira

Entrevista com Fábio de Souza Lessa

Oi gente! A entrevista de hoje é com Fábio de Souza Lessa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fábio de Souza Lessa. Imagem: acervo pessoal

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

A decisão por estudar o mundo antigo, em especial o mundo grego, surgiu durante o curso de graduação na UFRJ. Desde adolescente já havia escolhido o curso de História, mas tinha interesse em História Moderna. As aulas de História Antiga I ministradas pela Profa. Neyde Theml foram sedutoras e decisivas para a escolha, ainda precoce, para a especialização em História Grega.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

É sempre difícil enumerar livros prediletos, mas vamos lá: Dos textos antigos, destaco a Odisseia de Homero, Alceste de Eurípides e Ética a Nicômaco de Aristóteles, super atual para o mundo contemporâneo. Já dos contemporâneos, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica de M. Detienne e Entre Mito & Política de J-P. Vernant. Acrescento ainda a leitura do momento: História Pessoal: Os Mitos Gregosde Pauline Schimit Pantel, tradução recente da Universidade de Coimbra.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Tenho mantido, basicamente, duas linhas de investigação. Uma, mais antiga na minha trajetória acadêmica, diz respeito às reflexões sobre as relações de gênero na Grécia antiga. Tal pesquisa sempre caminhou no sentido de desconstruir o modelo mélissa (abelha), calcado na ideia de reclusão e de total submissão feminina. Desde os anos 90, com a consolidação dos trabalhos em História cultural, a operacionalização da documentação material, em especial as imagens pintadas em suporte cerâmico, foi fundamental para a argumentação de minhas hipóteses. Hoje, tenho dado maior atenção às tragédias de Eurípides e buscado associar a discussão teórica sobre gênero à discussão sobre etnicidades.
A segunda linha de investigação foi desenhada a partir da primeira. Comecei a sentir necessidade de refletir sobre o masculino e também sobre a antropologia do corpo, em um momento no qual se falava muito em crise da masculinidade, sobretudo entre os antropólogos. Observei ainda que as competições atléticas helênicas careciam de um estudo mais apurado no Brasil. Dessas constatações surgiu um novo objeto de pesquisa que é estudar as competições esportivas na Grécia antiga.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Pretendo verticalizar as minhas pesquisas sobre a antropologia do corpo e os atletas do Fat Boy Group, do conjunto de imagens reunidas por John D. Beazley que se distanciam do modelo apolíneo de representação dos corpos dos atletas.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Com certeza a chegada em Atenas num sábado de julho de 1995. Era a primeira viagem internacional que fazia e havia uma comoção por estar na capital grega, porém algo inesperado também foi marcante: desembarquei numa tarde linda de sol forte de verão e enquanto resolvia as questões que envolviam bagagem e passaporte se formou um enorme temporal – o único dia de chuva em 45 dias em Atenas – com trovoadas e céu negro. A chegada à Escola Francesa de Atenas – onde fiquei hospedado e pesquisando – foi marcada por um épico banho de chuva.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

Do mundo ficcional, Odisseu, pelas suas inúmeras nuances e astúcias. Do dito mundo real, Heródoto e Tucídides, pela forma como refletem sobre a História.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Atualmente, Eurípides. Seria uma grande oportunidade para conversarmos sobre as relações entre o masculino e o feminino na Atenas Clássica, bem como também sobre as questões de etnicidade grega.

FESTA DA PRIMAVERA: ANTIGUIDADE E CELEBRAÇÃO

Você já se perguntou como surgiram as celebrações de sua cidade? Quais os símbolos e significados conduzidos, através dos tempos, por essas festividades? O post dessa semana dedica-se a apresentar aos estudantes, pesquisadores e entusiastas da Antiguidade Clássica, como a ‘Festa da Primavera’ marcou a sociedade curitibana do final do século XIX e início do XX.

Como parte deste grupo plural e de múltiplas origens, a capital paranaense nos ofereceu, para além de residência, os ingredientes necessários para nutrir a paixão pela História Antiga e suas conexões com o presente.

CURITIBA E A APOTEOSE DA NATUREZA

A Festa da Primavera, culto idealizado pelo príncipe dos poetas paranaenses, Emiliano Pernetta e seu colega Dario Vellozo, simbolista notável da época, tinha entre suas principais intenções promover, mediante uso da arte e da poesia, um ambiente de sociabilidade para a elite letrada, enquanto exaltava a influência da cultura helênica.

Homenagem a deusa Clóris, personificação da primavera grega, a cerimônia contava com a participação de homens, vestidos em túnicas brancas, com ramos de oliveira nas mãos e coroas de louros em suas cabeças, enquanto liam e interpretavam poemas, rememoração viva do teatro grego.

A participação feminina também era numerosa, consentida por seus pais-inventores, se deu principalmente no Templo das Musas, o sentimento da instituição de uma “Nova-Helade” inundava o espetáculo, no local que hoje conhecemos como sede do Instituto Neo Pitagórico. Particularidades que podem ser observadas nas imagens a seguir:

(Foto: acervo Museu da Imagem e do Som)
 (Acervo: Instituto Neo-Pitagórico)

Popularmente conhecida como “Rua das Flores”, a XV de Novembro, tornou-se ponto imprescindível dentro do roteiro de visita a cidade de Curitiba e um dos principais cenários para a celebração da Festa da Primavera, na virada do século.

Construída em petit pavé, alterna entre pedras brancas e pretas, desenhos de araucárias surgem e a vegetação escolhida como o símbolo do estado ganha plena forma. Fotografias registraram os desfiles anuais em que carruagens, cobertas por arcos de flores, atravessavam a região central do município, acompanhadas por uma multidão. Das sacadas dos casarões era possível observar o cotidiano urbano em suspensão. A solenidade interrompia o repetir das atividades rotineiras e as duas temporalidades partilhavam o existir, momentos responsáveis pela produção de um material de valor iconográfico inestimável, o coração do comércio vigente conquista o preservar de seu passado.

(Acervo: Casa da Memória – FCC online/pergamum)
(Fonte: Jornal Folha)

Desse modo, a representação das civilizações antigas como fonte de estudos, desencadeou uma via de comunicação entre o passado, daquele que já viveu, com o presente de quem observa. Os canais converteram-se em instrumentos colaborativos na compreensão do homem, dentro de uma República recém-instaurada, suporte necessário para entender como esse processo reverberou no comportamento da sociedade curitibana, entre 1890 e 1930.

Assim, a compreensão do corpo social como um coletivo, a criação de uma identidade, legitimada pela identificação daquilo que entendemos como origem, portanto íntegra, frente à face da democracia grega e da liberdade por ela edificada, transpassavam o universo da festividade em curso trivial. A colisão entre teoria e objeto, oferecem novas visões acerca dos estudos clássicos.

Referências
CHEVITARESE, A.L.; CORNELLI, G.; SILVA, M.A.O. A Tradição Clássica e o Brasil. Brasília, Fortium, 2008.
CLAVAL, P. A festa religiosa. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 8, n. 1, p. 6- 29. 2014.
MURICY, Andrade. O símbolo: à sombra das araucárias (Memórias). Conselho Federal de Cultura e Departamento de Assuntos Culturais, 1976.

  • Letícia Bail