Entrevista com Maria Regina Cândido

Oi gente! A entrevistada dessa semana é a Maria Regina Cândido, Professora Associada do Departamento de História da UERJ.

Profa. Dra. Maria Regina Cândido. Foto: arquivo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Pertenço a uma família mineira que adora contar histórias. Narrar fatos, acontecimentos sempre chamou a minha atenção e me levou a cursar jornalismo. Sou formada em Jornalismo e Editoração pela Faculdade Estácio de Sá. Durante esta período, eu descobri a História e decidi que, ao terminar a formação em jornalismo iria ingressar no curso de História. Ao término do curso, ingressei no curso de História na UFRJ.
Durante o primeiro período do curso tive a grata satisfação de conhecer a professora Neyde Theml. A aproximação foi bizarra, pois ela chegou na sala de aula e perguntou quem tinha carteira de motorista e sabia dirigir. Eu, inocentemente, levantei o dedo. Resultado: ela me entregou a chave de seu carro e pediu para eu buscar o Prof. Jean Pierre Vernant no aeroporto Santos Dumont. Imaginem Neyde Theml e Jean Pierre Vernant juntos, foram palestras maravilhosas e sedutoras. Fui convidada para entregar o grupo de pesquisa em sociedades antigas coordenado pela professora Neyde. Entretanto, havia um grande problema, o grupo de estudo não tinha conhecimento de grego antigo (ático). O problema foi superado com as aulas ministradas pela Profa Silvia Damasceno, docente de Grego Antigo da UFF. Na pós-graduação (mestrado e doutorado), a Prof Neyde detinha a prática de enviar os seus orientados para realizar estágio na EFA (Escola Francesa de Atenas) confesso que foi a minha primeira viagem ao exterior. Depois ingressei como professora de História Antiga na UERJ, fundei o NEA/Núcleo de Estudos da Antiguidade e a Revista Eletrônica NEARCO. E foi assim que a História Antiga entrou em minha vida e permanece até a presente data.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Adoro livros sobre História Antiga, devido a influência da orientadora, tive contatos com a historiografia francesa através dos livros de Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal Naquet e Marcel Detienne. Les origines de la pensée grecque, La cuisine de sacrifice en pays grec, L’individu, la mort, l’amour: soi-même et l’autre en Grèce ancienne, Entre mythe et politiqueL’univers, les dieux, les hommes: récits grecs des origines Paris.  A leitura destes livros e outros, ajudou na compreensão da complexidade da sociedade grega em torno de temas sobre teatro, religião e morte.  
O interesse sobre teatro grego acabou predominando, especificamente, as obras do poeta Eurípides. O universo dos trágicos e do teatro me levou ao ter contato com as obras de Jacqueline de Romilly, La Tragédie grecque, La Modernité d’Euripide.Les Grands Sophistes dans l’Athènes de Périclès. Alcibiade ou les dangers de l’ambition. La Grèce antique contre la violence.
Devo acrescentar também as obras de Claude Mossé com os livros Les Institutions grecques, La Tyrannie dans la Grèce antique,La Colonisation dans l’Antiquité, La Fin de la démocratie athénienne. Aspects sociaux et politiques du déclin de la cité grecque au ive siècle av. J.-C.. Como se pode notar, os livros fazem parte dos clássicos da literatura grega contendo ideias, debates e questionamentos assaz interessantes. Eles foram vitais para minha formação como helenista.
Não posso deixar de mencionar a participação, em minha formação, do eminente Prof. Ciro Flamarion Cardoso que sempre me incentivou a criar métodos que dessem conta da minha documentação (os defixiones) fragmentada. Através de sua supervisão que foram criadas as grades metodológicas de análise especificas para textos e de imagens que hoje aplicamos nas pesquisas sob a minha coordenação. Informações sobre as grades de analise metodológicas foram publicadas pela Profa Claudia Beltão/UniRio no livro A Busca do Antigo.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Atualmente, desenvolvo a pesquisa sobre Gregos e Persas sob a ótica do Ritual da Xênia e da rede de conectividade e hospitalidade nos séculos V e IV a.C.: o caso dos atenienses ( esta pesquisa foi aprovada no processo de seleção de bolsista de Produtividade do CNPq e no Prociência FAPERJ/2020.).  O tema sobre a relação entre os gregos e persas parte da personagem Medeia como fio condutor da pesquisa devido a sua origem oriental demarcado pelos seus trajes persas.
Tenho um profundo apreço por imagens de vasos gregos e as uso como suporte de informação. Considero que a indumentária grega associada à vestimenta dos persas em Medeia funciona como um indício e uma forma de comunicação não verbal de parte da elite de Atenas.
O tema desta pesquisa foi o resultado da viagem que fiz ao Irã, para participar do curso de Arqueologia Antiga a convite da Profa Katia Pozzer/UFRGS. As aulas do curso foram ministradas in loco nos sítios arqueológicos do chamado Império Persa no Irã (Teerã, Shiraz, Yazd, Persepolis, Pasargada, Espharan, Firuzabad) sob a supervisão do arqueólogo Prof. Dr. François Desset da Univeridade de Teerã.
A partir de contatos e informações acabei me aproximado de autores ingleses e russos (que publicam em língua inglesa) que analisam o contato dos atenienses com as regiões do Mar Negro.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Os temas de interesse são vastos como a alimentação no mundo grego e romano, a relação entre magia e religião, conhecer melhor a presença dos gregos no Mar Negro.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo?

Sim, as estruturas físicas do teatro grego em diferentes regiões da Grécia: fiquei impressionada com a acústica do Teatro de Epidauro.
Em Roma, a estrutura do Coliseu é de uma das maravilhas do mundo

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Confesso que sou apaixonada por Medeia. O tema sobre a sacerdotisa de Hécate nos permite refletir sobre o lugar social da mulher migrante, estrangeira e considerada bárbara no mundo grego. Medeia detém muitas imagens magnificas que impulsionara a sua difusão iconográfica nos vasos de cerâmica ática. Considero Medeia uma mulher bárbara que detém o domínio de ervas e drogas mágicas, mulher ativa que não se cala diante do poder masculino, esposa e mãe corajosa que mata os filhos em sacrifício visando transforma-los em deuses.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Seria uma honra receber o poeta Eurípides para passar uma tarde com café, chá e bolo de chocolate, já pensou!!! Gostaria de conversar sobre a situação da mulher em Atenas, tanto a mulher grega quanto a mulher estrangeira assim como a relação entre magia, religião e a circulação das práticas da magia dos katadesmoi, seria divino!!
Gostaria de fazer uma entrevista com Medeia (a grega e a romana), dirimir algumas dúvidas, ouvir os seus relatos de mulher barbara vivendo entre os gregos.
Em Roma, gostaria de conversar com o poeta Sêneca sobre a sua versão da tragédia Medeia, a motivação da escolha e o que tinha em mente, qual a mensagem que desejava vincular através da sacerdotisa de Hécate.

A História de Édipo na Nouvelle Vague Japonesa, o mito, o cinema e a política

O Funeral das Rosas — Bara no sôretsu (Toshio Matsumoto, 1969) | by Larissa  Goya Pierry | Subvercine | Medium
Cartaz do filme “O Funeral das Rosas”. Imagem: divulgação.

É notável que os gregos e romanos já foram temas de diversas produções cinematográficas, desde filmes infantis como “Hércules” da Disney até os “300 de Esparta” ou “Gladiador”. Porém, neste post pretendo abordar uma obra cinematográfica um pouco mais underground, que fez parte do movimento da Nouvelle Vague japonesa, trata-se do filme “O Funeral das Rosas” (Bara no Sōretsu), de Toshio Matsumoto, lançado em 1969. O filme conta a história de Eddie, uma mulher trans que ao longo de sua jornada assassina a própria mãe, e possui relações com o seu pai, ou seja, a história traz uma adaptação do mito de Édipo do grego Sófocles, que viveu no século V a.C apogeu da escrita na Grécia antiga. A tragédia de Édipo é um clássico que já foi adaptado e debatido em diversas áreas, desde a filosofia, história, literatura, psicologia e entre outras.


Nos anos 1960 na França houve a ascensão da Nouvelle Vague rompendo com as tradições estabelecidas pelos cineastas que já estavam no mercado. O nome foi dado pela imprensa na época para se referir a filmes que eram muitas vezes independentes, dirigidos por pessoas mais jovens que não possuíam muita experiência no mercado do audiovisual e eram interpretados por atores não tão famosos quanto os das antigas grandes produções. Os filmes que muitas vezes eram gravados nas próprias ruas da cidade foram muito bem aceitos pelo público, principalmente o mais jovem. Alguns nomes importantes do movimento são François Trufautt, Jean-Luc Godard, e Agnés Varda. É bem provável que você já tenha ouvido falar ou assistido algum filme dirigido por um deles, afinal o movimento ganhou muita importância ao redor do mundo e o fenômeno não ficou restrito só a França, algo similar estava acontecendo em outros países.


No caso do Japão a Nouvelle Vague ou Nūberu bāgu, tem o surgimento associado a um grupo da Nova Esquerda japonesa, a qual ascendeu no período pós-guerra em conflito com a esquerda institucionalizada representada pelo Partido Comunista Japonês (PCJ). A esquerda institucionalizada angariava um discurso que propagava o medo da volta ao passado pré-moderno, ou que o povo japonês se tornasse vítima de um regime autoritário, nesse sentido, defendia o que acreditava ser a paz e a democracia alcançada no pós-guerra. Já a Nova Esquerda não acreditava que se quer houvesse existido essa paz e democracia no Japão pós-guerra, defendendo que as ações políticas deviam ser baseadas não em um medo das pessoas se tornarem vítimas, mas sim atacassem o capitalismo e a democracia liberal.

No contexto da renovação do tratado de Cooperação Mútua e Segurança entre o Japão e os Estados Unidos, assinado em 1970, a decisão de permanecer com o pacto foi visto pela Nova Esquerda como uma complacência do Japão, e não como se este estivesse em uma posição de vítima tal como alegava o PCJ. A nova esquerda se fortaleceu ainda mais durante o período da guerra do Vietnam, onde o Japão forneceu suporte logístico para o Estados Unidos, gerando revolta nos jovens que faziam parte do movimento. Algumas das características importante da Nova Esquerda Japonesa presentes nos filmes da Nūberu bāgu, são as de que ambos contavam com a participação da juventude e faziam críticas a modernidade e a crença de um progresso linear. A radicalização na maneira da produção cinematográfica acompanhou o processo político de radicalização da Nova Esquerda.


A temática mitológica é vista em diversos filmes da Nūberu bāgu, em geral há uma retomada dos mitos que remontam ao período do Japão pré-moderno, mas também como é o caso de “O Funeral das Rosas”, existe uma abordagem de mitos ocidentais. Ao utilizar esses mitos os cineastas buscavam uma maneira de subverter alguns símbolos do passado pré-moderno para abordar questões do presente. Ao recontar o mito de Édipo, Toshio Matsumoto traz algumas questões a respeito da inevitabilidade dos comportamentos sociais e de acordo com David Pinho Barros, (PhD em estudos interartísticos, literários e culturais pela Universidade do Porto), o filme mostra que a revolução proposta pela Nova Esquerda estava se dando mais no campo social do que no político. Afinal, de acordo com ele, a obra de Matsumoto apresenta um retrato onde as regras que regem o universo social se passam em um microcosmo diferente da esfera maioritária, indicando então essa diferença entre o desfecho da revolução nas camadas políticas e sociais.

REFERÊNCIAS
BARROS, David Pinho. Édipos, Sísifos e Onis: Reescrita de mitos em Matsumoto, Teshigahara e Shindô. In: Teatro do mundo v.06, 2012. p. 165-174.
DE VARGAS, Ferran. Japan’s New Left and New Wave. An Ideology’s Perspective as an Alternative to That of National Cinema. In: Arts, Multidisciplinary Digital Publishing Institute, 2019.
MARIE, Michel. A Nouvelle Vague. In: Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 30, n. 19, p. 165-180, 2003.

  • Renata Cristina de Oliveira

O RARO DO RELES: UM LATIM DE BANDIDO

Paulo Leminski - poemas - Revista Prosa Verso e Arte
Paulo Leminski. Imagem: Revista Verso, Prosa e arte. Reprodução Livre.

O post de hoje é uma dica de leitura do capitulo de autoria de Guilherme Gontijo Flores, professor do departamento de Letras Clássicas da UFPR, parte do livro: A Pau a Pedra a Fogo a Pique: Dez estudos sobre a obra de Paulo Leminski, organizada por Marcelo Sandman. Na primeira parte do texto é apresentado a relação de Leminski com o latim, e como se deu a utilização da língua em sua obra, o autor aponta que o poeta tinha pavor da poesia provinciana, e da pedância erudita ao utilizar outros idiomas, principalmente o latim, e diferindo disso Leminski traz uma contra pedância. Ele não abandona a bagagem erudita, mas a tira da torre de marfim, colocando-a em contato com o mundo, expandindo as possibilidades de diálogo, afastando então, o idioma da cultura erudita e o aproximando da contracultura. Flores enfatiza a utilização de um jogo etimológico, onde o poeta não traz a etimologia por si só, mas também através da aproximação de palavras com sonoridades parecidas, busca recuperar uma origem em comum de termos semelhantes, ou estabelecer sentidos fictícios que favoreçam o intento da poesia, possibilitando diversas camadas de leitura, e ampliando então o sentido do poema.

O tópico seguinte se trata a respeito das traduções realizadas por Leminski, de início é exposto a visão do poeta sobre o oficio de traduzir, ao analisar um trecho do poema “Ler Pelo Não”, o autor enfatiza que para o poeta o erro passa a ser uma possibilidade para a criação de algo novo, e enfoca na relação deste com o trabalho de Haroldo de Campos, para o qual a tradução não deveria somente transmitir a mensagem, mas também trazer algo próprio, a tradução seria uma criação, um diálogo entre autor e tradutor. Flores discorre, por conseguinte, sobre a tradução do Satyricon feita por Leminski, apontando que este ao traduzir a obra, buscava lhe dar uma nova vida, mostrando os complexos componentes humanos que fazem parte da cidade; ao comentar a tradução de Leminski, Flores aponta que este deixa passar algumas coisas, e que o principal seria as alterações modernas que livro sofreu. Ele caracteriza a tradução de Leminski como um Satyricon apropriado pela poética marginal, feito neste caso com bastante rigor, destacando que o poeta utiliza da mistura de termos eruditos e da linguagem popular para compor as suas traduções, e por fim salienta que a tradução de Leminski abre espaço para novas possibilidades de leitura para a obra.

No tópico final é exposto e comentado mais alguns dos trabalhos tradutórios de Leminski, como a sua releitura das Metamorfoses de Ovídio, onde o poeta entrelaça e modifica os mitos originais de maneira livre, e traz em seu texto algumas traduções excelentes de trechos do original. É evidenciado também uma tradução dispersa de Horácio, que traz o estilo tradutório utilizado no Satyricon, no qual o poeta traz uma poética contemporânea com traços do movimento concretista na maneira de organizar a composição, revitalizando então a obra de Horácio de uma maneira menos “Clássica” e sim mais coloquial, que incorpora elementos da poética de sua geração. Concluindo o texto o autor assinala que o poeta embora mantenha a solidez do trabalho filológico, este consegue fazer isso de maneira a qual o texto possa ser acessível ao leitor, e que possa adentrar na poética contracultural e tropical.

Referências
SANDAMANN, Marcelo (org.). A pau a pedra a fogo a pique: Dez estudos sobre a obra
de Paulo Leminski. Curitiba, Secretaria de estado da Cultura, 2010. p. 103 – 139.

  • Renata Cristina de Oliveira

Entrevista com Fábio de Souza Lessa

Oi gente! A entrevista de hoje é com Fábio de Souza Lessa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fábio de Souza Lessa. Imagem: acervo pessoal

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

A decisão por estudar o mundo antigo, em especial o mundo grego, surgiu durante o curso de graduação na UFRJ. Desde adolescente já havia escolhido o curso de História, mas tinha interesse em História Moderna. As aulas de História Antiga I ministradas pela Profa. Neyde Theml foram sedutoras e decisivas para a escolha, ainda precoce, para a especialização em História Grega.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

É sempre difícil enumerar livros prediletos, mas vamos lá: Dos textos antigos, destaco a Odisseia de Homero, Alceste de Eurípides e Ética a Nicômaco de Aristóteles, super atual para o mundo contemporâneo. Já dos contemporâneos, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica de M. Detienne e Entre Mito & Política de J-P. Vernant. Acrescento ainda a leitura do momento: História Pessoal: Os Mitos Gregosde Pauline Schimit Pantel, tradução recente da Universidade de Coimbra.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Tenho mantido, basicamente, duas linhas de investigação. Uma, mais antiga na minha trajetória acadêmica, diz respeito às reflexões sobre as relações de gênero na Grécia antiga. Tal pesquisa sempre caminhou no sentido de desconstruir o modelo mélissa (abelha), calcado na ideia de reclusão e de total submissão feminina. Desde os anos 90, com a consolidação dos trabalhos em História cultural, a operacionalização da documentação material, em especial as imagens pintadas em suporte cerâmico, foi fundamental para a argumentação de minhas hipóteses. Hoje, tenho dado maior atenção às tragédias de Eurípides e buscado associar a discussão teórica sobre gênero à discussão sobre etnicidades.
A segunda linha de investigação foi desenhada a partir da primeira. Comecei a sentir necessidade de refletir sobre o masculino e também sobre a antropologia do corpo, em um momento no qual se falava muito em crise da masculinidade, sobretudo entre os antropólogos. Observei ainda que as competições atléticas helênicas careciam de um estudo mais apurado no Brasil. Dessas constatações surgiu um novo objeto de pesquisa que é estudar as competições esportivas na Grécia antiga.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Pretendo verticalizar as minhas pesquisas sobre a antropologia do corpo e os atletas do Fat Boy Group, do conjunto de imagens reunidas por John D. Beazley que se distanciam do modelo apolíneo de representação dos corpos dos atletas.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Com certeza a chegada em Atenas num sábado de julho de 1995. Era a primeira viagem internacional que fazia e havia uma comoção por estar na capital grega, porém algo inesperado também foi marcante: desembarquei numa tarde linda de sol forte de verão e enquanto resolvia as questões que envolviam bagagem e passaporte se formou um enorme temporal – o único dia de chuva em 45 dias em Atenas – com trovoadas e céu negro. A chegada à Escola Francesa de Atenas – onde fiquei hospedado e pesquisando – foi marcada por um épico banho de chuva.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

Do mundo ficcional, Odisseu, pelas suas inúmeras nuances e astúcias. Do dito mundo real, Heródoto e Tucídides, pela forma como refletem sobre a História.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Atualmente, Eurípides. Seria uma grande oportunidade para conversarmos sobre as relações entre o masculino e o feminino na Atenas Clássica, bem como também sobre as questões de etnicidade grega.

FESTA DA PRIMAVERA: ANTIGUIDADE E CELEBRAÇÃO

Você já se perguntou como surgiram as celebrações de sua cidade? Quais os símbolos e significados conduzidos, através dos tempos, por essas festividades? O post dessa semana dedica-se a apresentar aos estudantes, pesquisadores e entusiastas da Antiguidade Clássica, como a ‘Festa da Primavera’ marcou a sociedade curitibana do final do século XIX e início do XX.

Como parte deste grupo plural e de múltiplas origens, a capital paranaense nos ofereceu, para além de residência, os ingredientes necessários para nutrir a paixão pela História Antiga e suas conexões com o presente.

CURITIBA E A APOTEOSE DA NATUREZA

A Festa da Primavera, culto idealizado pelo príncipe dos poetas paranaenses, Emiliano Pernetta e seu colega Dario Vellozo, simbolista notável da época, tinha entre suas principais intenções promover, mediante uso da arte e da poesia, um ambiente de sociabilidade para a elite letrada, enquanto exaltava a influência da cultura helênica.

Homenagem a deusa Clóris, personificação da primavera grega, a cerimônia contava com a participação de homens, vestidos em túnicas brancas, com ramos de oliveira nas mãos e coroas de louros em suas cabeças, enquanto liam e interpretavam poemas, rememoração viva do teatro grego.

A participação feminina também era numerosa, consentida por seus pais-inventores, se deu principalmente no Templo das Musas, o sentimento da instituição de uma “Nova-Helade” inundava o espetáculo, no local que hoje conhecemos como sede do Instituto Neo Pitagórico. Particularidades que podem ser observadas nas imagens a seguir:

(Foto: acervo Museu da Imagem e do Som)
 (Acervo: Instituto Neo-Pitagórico)

Popularmente conhecida como “Rua das Flores”, a XV de Novembro, tornou-se ponto imprescindível dentro do roteiro de visita a cidade de Curitiba e um dos principais cenários para a celebração da Festa da Primavera, na virada do século.

Construída em petit pavé, alterna entre pedras brancas e pretas, desenhos de araucárias surgem e a vegetação escolhida como o símbolo do estado ganha plena forma. Fotografias registraram os desfiles anuais em que carruagens, cobertas por arcos de flores, atravessavam a região central do município, acompanhadas por uma multidão. Das sacadas dos casarões era possível observar o cotidiano urbano em suspensão. A solenidade interrompia o repetir das atividades rotineiras e as duas temporalidades partilhavam o existir, momentos responsáveis pela produção de um material de valor iconográfico inestimável, o coração do comércio vigente conquista o preservar de seu passado.

(Acervo: Casa da Memória – FCC online/pergamum)
(Fonte: Jornal Folha)

Desse modo, a representação das civilizações antigas como fonte de estudos, desencadeou uma via de comunicação entre o passado, daquele que já viveu, com o presente de quem observa. Os canais converteram-se em instrumentos colaborativos na compreensão do homem, dentro de uma República recém-instaurada, suporte necessário para entender como esse processo reverberou no comportamento da sociedade curitibana, entre 1890 e 1930.

Assim, a compreensão do corpo social como um coletivo, a criação de uma identidade, legitimada pela identificação daquilo que entendemos como origem, portanto íntegra, frente à face da democracia grega e da liberdade por ela edificada, transpassavam o universo da festividade em curso trivial. A colisão entre teoria e objeto, oferecem novas visões acerca dos estudos clássicos.

Referências
CHEVITARESE, A.L.; CORNELLI, G.; SILVA, M.A.O. A Tradição Clássica e o Brasil. Brasília, Fortium, 2008.
CLAVAL, P. A festa religiosa. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 8, n. 1, p. 6- 29. 2014.
MURICY, Andrade. O símbolo: à sombra das araucárias (Memórias). Conselho Federal de Cultura e Departamento de Assuntos Culturais, 1976.

  • Letícia Bail

Fora do Lugar, Edward Said

Capa do livro Fora do Lugar. Companhia das Letras. Imagem: reprodução.

O livro Fora do Lugar foi escrito por Edward Said pouco antes de seu falecimento em 2003 aos 68 anos de idade, a publicação original é de 1999 e começou a ser escrita pelo intelectual em maio de 1994, enquanto se restabelecia das sessões iniciais de quimioterapia para o tratamento de leucemia. Said, nascido em Jerusalém, foi crítico literário e cultural nos EUA, escreveu vários artigos acerca da questão palestina e livros como Orientalismo e Cultura e Imperialismo. Em Fora do Lugar, o autor tornou a escrita uma ferramenta de prazer em meio ao sofrimento do tratamento de câncer.

O livro trata da vida de Said até 1962, quando terminou o doutorado, sempre nos mostrando um pouco de presente, de como caminhava seu tratamento e de algumas ações recentes relacionadas a isso. A descrição, essencialmente, aborda os lugares onde viveu (Jerusalém, de 1935 até 1947; Cairo, de 1947 até 1951; uma cidadezinha no Líbano, entre 1946 e 1969, durante os verões; e Nova York, a partir de 1951, indo passar os verões no Cairo, isso até ser banido por 15 anos do país por causa de ações ilegais do comércio de seu pai durante os anos Nasser), as escolas e os amigos de cada uma dessas localidades e a família. Tudo sempre com o pano de fundo da Segunda Guerra Mundial, da perda da Palestina e do estabelecimento de Israel, do fim da monarquia egípcia, dos anos Nasser, da guerra de 1967, da emergência do movimento palestino, da guerra civil libanesa e do processo de paz de Oslo.

As memórias de Edward Said nos permitiram pensar a respeito da escrita autobiográfica do autor, refletindo sobre seu intenso sentimento de deslocamento, de exilado, o que influencia na constituição de sua identidade. Na escrita de si, o pensador se identifica como um fora do lugar e ao longo de toda narrativa constrói a imagem disso, mostrando-nos como, desde muito jovem, era um desarticulado, inclusive, chegando ao fim de sua vida, como alguém dissonante.

Nesse seu processo de autoarquivamento, Said mostra-nos a sua necessidade de estabelecer uma conexão entre a sua vida presente e o passado no mundo árabe, a fim de manter a disciplina na escrita, combatendo o sofrimento da doença, e tecendo a sua própria existência. Assim, a leitura das memórias de Said nos possibilitou a reflexão a respeito de que a memória é constituída por traços, cuja construção e reconstrução é sempre parcial, formando certa imagem do passado.

Para nós, especificamente, esse pensamento, gera um questionamento a respeito de como determinada memória da Antiguidade é feita e apresentada ao público atualmente nos museus – seria uma Antiguidade objetos expostos com intenções legitimadoras? De constituir a identidade de um lugar?

Enfim, além dessas questões, outras também surgiram a partir dessa leitura do livro de Said em conjunto com o nosso interesse pelo mundo antigo: os museus e demais lugares de memórias, bem como os pesquisadores, realizam a construção de identidades, no tempo-espaço? Com quais tipos de objetos e traços? Os legitimadores? Os deslocados?

  • Camilla Miranda Martins

Li Hongbo e a arte de se repensar esculturas

Imagens: Busto de Laocoonte e busto de David, feitos pelo artista Li Hongbo. Fontes: Eli Klein Gallery e Yellowtrace.

O padrão de esculturas clássicas é muito presente no imaginário ocidental: formas humanas realistas, de mármore sólido, estão frequentemente em museus, residências e outros espaços, representando elite e riqueza. Esculturas de inspiração grega foram muito produzidas no período do Renascimento italiano, pois, por serem representações realistas e idealizadas de figuras humanas, estavam em extrema consonância com os ideais humanistas do período.

As imagens trazidas acima são réplicas de duas esculturas famosas no estilo clássico. A primeira, propriamente clássica, é uma réplica da escultura Grupo de Laocoonte, encontrada numa escavação de Roma em 1506. A segunda é uma réplica da escultura David, feita pelo escultor Renascentista Michelangelo entre 1501 e 1504.

Ao olhar as imagens colocadas acima, não deve ter passado pela sua cabeça que seriam nada além de réplicas das esculturas originais. No entanto, essas duas esculturas são mais do que o olhar inicial parece mostrar: elas são feitas com milhares de camadas de papel sobrepostas e são completamente maleáveis

Imagens: Demonstração da maleabilidade das esculturas. Fonte: Collater.al.

Li Hongbo é o artista chinês por trás dessas obras de arte, que brincam com as nossas expectativas do que uma escultura deve ser e como ela deve se comportar. O artista se fascinou pela flexibilidade natural do papel como material de base ao analisar brinquedos e lanternas tradicionais chineses. Sua paixão o levou a criar esses trabalhos extremamente complexos, sendo que para esculpir uma única cabeça podem ser necessárias mais de 5.000 camadas de papel coladas manualmente.

Imagem: Li Hongbo demonstrando a movimentação de sua escultura. Fonte: Widewalls.

Em entrevista à Reuters, o artista afirma que o seu interesse em chocar a audiência é motivado pela vontade de chamar a atenção para o papel: “As pessoas têm uma ideia fixa do que uma figura humana é… então quando você transforma a figura humana, as pessoas vão reconsiderar a natureza dos objetos e as motivações por trás da criação. É com isso que eu me importo.”

Historicamente, esse tipo de escultura é feito com o objetivo de chamar a atenção para a sua representação – um modelo ideal de figura humana. A abordagem de Li Hongbo, que desloca nosso olhar para o material com o qual ela é feita, mostra uma grande inovação que vai muito além de réplicas de esculturas clássicas. Você pode ver um pouco mais do seu trabalho e inspiração aqui. Além disso, você pode assistir a um vídeo da Schoeni Art Gallery, no qual ele explica o passo-a-passo do seu processo de criação aqui.

  • Letícia Schevisbisky de Souza

Entrevista com o professor Paulo Martins

A entrevista de hoje é com Paulo Martins! Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

Paulo Martins. Foto: acervo pessoal

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Em meu primeiro vestibular, prestei duas universidades, na USP: História e no Mackenzie: Direito. Fui aprovado nos dois exames… Mas por questões econômicas decidi-me pelo Direito. A História e a literatura sempre me fascinaram e mesmo fazendo direito comecei a fazer cursos (sobre literatura antiga) com ex-professores meus do cursinho, que entraram na USP para dar aulas, Antônio Medina Rodrigues e Francisco Acchar, que se tornaram grandes amigos. Passados 2 anos de Direito achei que não dava mais para viver sem a Antiguidade e a Literatura. Prestei novamente vestibular em 1984 e passei para estudar Grego. Na época, podíamos escolher mais habilitações. Pensei então Grego e Inglês. Na aula de Grego, conheci João Angelo Oliva Neto, que acabara de se formar em Português e Inglês e agora partia para o Grego e o Latim. Ele, com sua particular eloquência, me convenceu a fazer o mesmo que ele. E lá fui eu. Nossa turma era Eu, João Angelo, Adriano Machado, Adriane Duarte, José Eduardo Lohner. Nossa veterana, Paula Corrêa… Nosso calouro, Marcos Martinho. Nosso colega ouvinte de Grego, Roberto Bolzani. Éramos uma boa turma.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos?

Os 4 livros de Propércio, Catulo, Horácio das Odes e da Arte Poética, Tácito dos Anais, Sêneca: Medeia e Fedra, Quintiliano, Algum Cícero (principalmente as obras retóricas) e Suetônio. Entre os gregos de cabeceira, Eurípides todo, Sófocles todo, O Agamemnon de Ésquilo, Aristóteles (Poética, Retórica e Ética a Nicômaco). Dos Modernos, Veyne na veia; Vernant tudo, Dumézil, Mito e Epopeia e Religião Arcaica Romana; Karl Galinsky, Roman Cuture; Kirk Freudenburg, meu grande amigo, The Walking Muse; meu querido colega de biblioteca no Phelps Hall em Yale, Ramsay MacMuellen, em Romanization in the Time of Augustus, Gian Biagio Conte, A Retórica da Imitação… há muito mais. No Brasil, João Angelo Oliva Neto, Pedro Paulo Funari e Norberto Guarinelo, todos grandes companheiros, colegas e amigos.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa?

Propércio, estou tentando com o apoio do CNPq (enquanto existir) terminar a edição completa, traduzida e anotada.Écfrase e as interfaces do texto e da imagem.Cultura sob Augusto e seus Ecos no Império até o século III EC.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Se eu conseguir sobreviver a esses três temas, quero morar na praia sem muvuca.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Lógico! Roma. Não há como não ficar tocado diante dos monumentos dessa cidade.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que?

Augusto é fascinante. Sua invenção: a República Restaurada, a que chamam Império é sensacional. A utilização “midiática” de imagens e textos é irrepreensível.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam?

Penso num debate: Platão, Aristóteles e Cícero ia ser divertido. Mas no fundo, no fundo, queria saber tudinho de Calígula, ou se era só sacanagem do Suetônio…

CRENÇA, RELIGIOSIDADE E DEVOÇÃO NO EGITO

Ao pensarmos no Egito, podemos nos lembrar desde as pirâmides até as múmias e os camelos, sobre ele, temos certo imaginário. Contudo, nesse post, fugindo de sua imagem estereotipada, abordaremos um pouco da história desse lugar e um pouco sobre as práticas rituais de uma parcela de sua população, rituais que exprimem crenças e devoções.

Primeiramente, é importante salientar a localização geográfica do Egito, trata-se de um país do nordeste da África, uma região predominante desértica e que inclui a Península do Sinai (Ásia), sendo assim, um Estado transcontinental. Grande parte da população se concentra, desde a antiguidade (10º. Milênio a.C.), nas margens do rio Nilo.

Na antiguidade a religião predominante da região era politeísta, havendo também a presença de judeus. Essas religiosidades influenciaram e foram influenciadas pelas crenças e pela devoção de gregos, macedônios, persas e romanos, povos com os quais os egípcios mantinham bastante contato, inclusive sofrendo invasão por alguns deles durante alguns períodos. Porém, a presença da cultura africana sempre foi muito intensa, principalmente de povos tribais do sul africano e do deserto do Saara que se instalaram perto do Nilo por volta de 8000 a.C.

Em 639 d.C. a região foi tomada pelos árabes muçulmanos sunitas e o califado islâmico manteve o controle do local, isso até 1517 quando foram derrotados pelos turcos otomanos. Já no século XIX o país passou pelo domínio francês e inglês e somente em 1952 conseguiu sua independência.

Diante de tantas interações culturais de povos e etnias distintas, os hábitos egípcios, muitas vezes, possuem influências diversas. Aqui trataremos especificamente de um ritual conhecido como Zaar, indagando sobre a presença de religiões tradicionais africanas.

Ritual Zaar. Imagem: divulgação.

Zaar, ritual de cura e dança dos espíritos

O Zaar é um ritual específico do Norte de África (Egito, Sudão, Somália e Etiópia), originado provavelmente no século XVIII e é proibido pelo Islã, apesar de ser praticado por parte da população mais humilde. Trata-se de um ritual no qual as pessoas, que estão sofrendo com algo, pedem ajuda para conseguir se harmonizar com seu jin (espírito que a estaria “possuindo”). O ritual se inicia com uma exumação, seguida por cantos e danças que levam essa pessoa a um estado de transe. A kodia é a responsável por saber os cantos de cada jin e de propor o tipo de sacrifício adequado para a sua satisfação. O ritual apenas está completo após o consumo do animal sacrificado – essa última é uma característica comum nos sacrifícios da antiga religiosidade grega, por exemplo.

Cada grupo de Zaar se reúne com certa periodicidade, liderados pela kodia e fazendo o ritual de maneira mais privada, familiar, ou com todos os membros do grupo. Antes de ajudar os outros, a kodia precisa estar em harmonia com seu próprio jin, nesse sentido, ela é a primeira a entrar em transe.

O Zaar egípcio é normalmente feito num quarto amplo com um altar. Em qualquer país é importante que o espaço de uso doméstico seja separado do espaço sagrado, ou do lugar de sacrifício. O altar é coberto com um pano branco e empilhado de castanhas e frutas secas. A Kodia e seus músicos ocupam um lado do quarto, e os participantes o resto dele. Os convidados devem contribuir com uma quantia em dinheiro, de acordo com sua posição. Ter uma cerimônia de Zaar pode ser muito lucrativo, mas entende-se que a líder é alguém a quem as pessoas podem recorrer em tempos de necessidade – assim o Zaar serve também como uma sociedade solidária na qual os membros tanto dão como recebem ajuda.

A pessoa para quem o Zaar é preparado pode vestir-se de branco, geralmente uma galabiya masculina, ou saia. Ela usa henna nas mãos e corpo, e kohl nos olhos. Ela também pode ser fortemente perfumada, assim como os convidados. Os instrumentos musicais usados são o tar, um tipo de pandeiro, e a tabla. O número de “ajudantes” vai de 3 a 6; eles dão o apoio rítmico. Durante as cerimônias, os vários espíritos são invocados por sua própria batida de tambor característica.

O Zaar, por fim, não é um “exorcismo”, como geralmente se descreve, porque o espírito é acomodado e conciliado; ele não é exorcizado; ao paciente é aconselhado ser continuamente atencioso com seus espíritos, fazer as tarefas diárias que eles requerem e fugir de emoções negativas. Falhar nisso pode resultar numa recaída.

Esse é um ritual que aplica dança como caminho para o estado de transe. Nele é possível identificar a presença das religiões africanas tradicionais e, também, resquícios de religiosidades e maneiras de devoção mais antigas que remontam aos gregos e egípcios de antes de Cristo. Assim, embora o Egito seja um país predominantemente muçulmano, algumas práticas cotidianas nos mostram que a devoção e as crenças das pessoas passam por diversas esferas culturais.

Referência

MAKRIS. Changing Masters: Spirit Possession and Identity Construction among the Descendants of Slaves in the Sudan. Northwestern University Press: Evanston, 2000.

  • Camilla Miranda Martins

Os Antigos Gregos no acervo do Museu Paranaense: Recepção dos Clássicos, poesia simbolista e política.

Imagem: divulgação.

O livro “Os antigos gregos no acervo do Museu Paranaense: Recepção dos clássicos, poesia simbolista e política”, da professora Dra. Renata Senna Garraffoni, integra a coleção “Histórias do Paraná” que em sua essência visa promover a diversidade de temas, personagens e narrativas que destoam de propensões voltadas a uma história hegemônica do Estado.

Voltado ao debate sobre a releitura greco-romana no Paraná na virada do séc. XIX e nas primeiras décadas do XX pelos poetas simbolistas, o livro apresenta ao leitor os primeiros passos de uma pesquisa em constante transformação. Para tanto, Garraffoni retoma ao simbolismo francês que possui na recepção greco-romana importantes releituras políticas e estéticas, debates que chegam ao Brasil e ecoam fortemente entre as elites literárias curitibanas.

Muitos desses jovens simbolistas, em suma Republicanos, encontraram nos franceses e na retomada dos símbolos greco-romanos armas legitimadoras frente aos embates políticos da recente república brasileira. Esse resgate no Paraná, teve no poeta Dario Vellozo, seu principal porta voz, professor do Colégio Estadual, o simbolista caracterizou-se como uma das principais fases do movimento, ao lado de Emiliano Pernetta, coroado em 1911 “Príncipe dos poetas” durante a festa pagã da Primavera promovida por Vellozo.

Longe de apontar respostas o livro abre caminho para pesquisas posteriores, apresentando ao leitor as constantes tensões temporais presentes nesse resgate dos clássicos e seu papel perante a política, literatura, construções de identidade e projetos de poder na virada do séc. XIX e nas primeiras décadas do XX. Disponível online no site do museu Paranaense, o livro traz, por fim, um catálogo com como amostragens do acervo do Museu Paranaense e do Instituto Neo-Pitagórico, que segundo a professora, são recortes de permitem ao leitor perceber a diversidade da produção literária, contando com fotos, moedas e a própria coroa de louros de Emiliano Pernetta.

GARRAFFONI, Renata Senna. Os antigos gregos no acervo do Museu Paranaense: Recepção dos clássicos, poesia simbolista e política. Curitiba: Samp, 2018.

Disponível em: http://www.museuparanaense.pr.gov.br/arquivos/File/Livros3/antigosgregosFINAL.pdf

  • Mikaely Santos