De Chirico: Recepção dos Antigos Gregos e Romanos na arte de vanguarda do século XX

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Olá, pessoal! Nós do Antiga e Conexões estamos trabalhando em uma série de textos temáticos para vocês e no post de hoje gostaríamos de apresentar o tema escolhido: A Recepção dos Clássicos nas vanguardas, mais especificamente, nas obras do pintor italiano Giorgio De Chirico.

De Chirico (1888 -1978), embora pouco conhecido e estudado por historiadores da arte, foi um dos precursores do Surrealismo, mas sua relevância não se reduz somente a isso. Nascido em Volos, na Grécia, filho de pais italianos, teve uma vida de diversas mudanças – as quais marcam suas obras – devido ao trabalho de seu pai como engenheiro de estradas de ferro. Essas viagens trouxeram ao pintor o extenso repertório dos artistas europeus, dentre esses os antigos, renascentistas e modernos, bem como a imoprtante influência do pintor suíço, que fez parte do movimento artístico simbolista, Arnold Böklin. Além disso, De Chirico contou com influências filosóficas, principalmente de Nietzsche e Schopenhauer. 

As obras de De Chirico se enquadram no que foi chamado de pintura metafísica. Esse movimento procurava se opor ao futurismo e suas motivações nacionalistas, também buscava estar fora da temporalidade e se opunha à transitoriedade. Para isso, o pintor se apoiou em elementos da antiguidade e sua mitologia, as quais se entrelaçam em suas pinturas com elementos arquitetônicos urbanos e modernos, criando, assim, uma noção de tempo fixo.

Mesmo influenciando as vanguardas do início do século XX, devido ao elemento onírico presente em suas obras, o próprio pintor se considerava anti-vanguarda. Enquanto o pintor metafísico buscava uma constante retomada do passado, diferiu-se de ideias vanguardistas, uma vez que estas buscavam o novo.  Para De Chirico, a retomada do passado manteria sua obra como constantemente atual. Afinal, conforme afirma Paulo Roberto Amaral Barbosa segundo o pensamento de De Chirico, “a força geradora de crítica ao sistema não está na disposição de uma leitura, mas na sua constante interpretação”. Por esse pensamento, o pintor italiano foi visto, de certa forma, como um reacionário,  pois buscava retomar o período clássico e renascentista em sua pintura.

A incessante recuperação do passado realizada por De Chirico não foi em vão ou despropositada, nessa ação há a criação de algo novo por meio do estranhamento que as figuras deslocadas causam. Tal estranhamento levanta  questionamentos por parte de quem as observa, devido a fuga da lógica e da disposição dos objetos, de maneira que os descontextualiza. Alguns temas recorrentes que aparecem em suas obras, além dos clássicos e da mitologia, são os espaços vazios, componentes arquitetônicos e personagens sem rostos, além da maneira como ele se utiliza da perspectiva para reforçar esse estranhamento. Tais elementos geram o sentimento de ausência e dão o tom melancólico à suas pinturas.

Ao observarmos a produção de De Chirico, interessa-nos perceber como ele trouxe novos elementos a partir do passado antigo, ou seja, como a recepção do passado se fez presente em diversos contextos, possibilitando a produção de novas ideias. O passado não se encontra engessado, mas sim fluido e aberto, permitindo novos olhares para aquilo que por vezes parece distante. A partir de sua obra, trabalharemos em uma série de três textos as temáticas da ruína e da melancolia como resistência ao progresso. Esperamos, assim, investigar como os Antigos também podem ser pensados como forma de subversão ao conservador e como uma ruptura para com determinados esteticismos vigentes.

Referências:

BARBOSA, Paulo Roberto Amaral. Melancolia e Questões Estéticas: Giorgio De Chirico. 179 f. Tese (Doutorado em Artes Visuais) – Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo – ECA-USP, São Paulo, 2011.

Hades: a possibilidade da contracultura nos jogos

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Lançado em 2020 e produzido pela Supergiant Games, Hades é um jogo eletrônico de modelo RPG de ação. No jogo assumimos o papel de Zagreus, um deus rebelde tentando escapar do submundo e de seu rigoroso pai Hades para poder encontrar sua mãe, Perséfone. Durante sua aventura, Zagreus encontra diversos personagens da mitologia grega, entre eles estão: Sísifo, as Erínias, Teseu, o minotauro, etc… A representação dos deuses gregos no jogo é um pouco relevada em razão que essa de grande forma ignora a violência cometida pelos deuses contra mortais, porém nesse texto desejo comentar sobre a narrativa do jogo como uma potencial forma de questionar representações heteronormativas de maneira similar a contracultura

Tendo seu auge na década de 1960, a contracultura foi um movimento de utilização dos meios de comunicação de massa para o questionamento dos padrões sociais, já comentado anteriormente no blog o filme Satyricon(1969) está nesse contexto sua trama demonstra diversos questionamentos de masculinidade e sexualidade. Em Hades vemos semelhantes discursos que conflitam com uma visão heteronormativa, em enfoque está o protagonista Zagreus que se dá a entender como bissexual, ao demonstrar interesse em Megera (Uma das Erínias e uma mulher) e em Tânatos (a personificação da morte e um homem) outros momentos ocorrem quando Zagreus interage com Afrodite, a deusa grega do amor, e essa comenta sobre a atração do personagem por homens e mulheres.

Esse tipo de representação é rara em jogos eletrônicos que normalmente são bastante hostis à comunidade LGBTQ+. Final Fight (1989), por exemplo, um jogo de estilo Beat ‘em up (que no Brasil geralmente é traduzido como jogo de briga de rua ou vulgarmente como jogo de porradaria), os personagens derrotam hordas de inimigos, entre eles a personagem conhecida como Poison mulher extremamente sexualizada com curvas volumosas e roupas reveladoras e os produtores, preocupados com a polêmica da possibilidade de se espancar uma mulher na rua, optaram por indicar que Poison é uma mulher transexual. Essa decisão implica uma lógica  que agredir uma mulher trans é mais correto ou legítimo do que uma mulher cis, o que é um discurso profundamente transfóbico e ,até hoje, suas aparições seguintes na série Street Fighter, são extremamente controversas e, normalmente, gera discussões acaloradas entre os fãs.

Isso nos faz questionar sobre a qualidade da representação de uma mulher trans quando essa existe apenas para deixar o jogador confortável em agredi-la, outro exemplo ocorre no jogo The King of Fighters(1994) com o personagem Benimaru esse é um dos lutadores do jogo, e sua característica mais chamativa são suas roupas e movimentos extravagantes isso acompanhado com o tom agudo da sua voz fez os jogadores questionarem quanto a sua sexualidade. Nas versões seguintes do jogo toda vez que a oponente de Benimaru é uma mulher a animação de entrada altera para uma espécie de cantada, nesse ponto podemos questionar também um óbvio machismo no qual o papel de uma mulher é de afirmar a viralidade de um homem

Tais interpretações também são comuns no cinema trago como exemplo o filme Tróia (2004) onde não só o romance de Aquiles (Brad Pitt) com Pátroclo (Garrett Hedlund) é rescrito, já que tornam-se primos, ao invés de amantes, papel dado a sacerdotisa Briseis (Rose Byrne) similar ao caso de Benimaru, quando tendo sua sexualidade questionada o homem exerce sua virilidade conquistando uma mulher

Falando em Aquiles e Pátroclo, os dois também aparecem em Hades. Toda vez que Zagreus morre em combate no submundo (o que acontece com bastante frequência no jogo) ele retorna ao palácio de seu pai onde conversa com os membros da corte e um desses personagens é Aquiles, que foi encarregado por Hades em treinar Zagreus. Aquiles é um dos personagens com que Zagreus possui maior afinidade no início do jogo e ele comenta sobre seu único arrependimento é não ter passado mais tempo com o amor de sua vida. Bem em uma de suas excursões por Elísio Zagreus encontra com esse amor, Pátroclo, que apesar de ressentido ainda ama Aquiles. O jogador pode então escolher por reunir os dois, em nenhum momento a proeza militar de ambos é  questionada, com Aquiles sendo o mestre de armas de Zagreus e Pátroclo exaltado em Elísio; seu romance é tido como um amor que conquista a tudo inclusive a morte.

O retorno aos clássicos pode assim demonstrar visões de passado conservadoras como no filme Troia onde o herói é viril porque é hétero e homem como também novos tipos de representações onde o herói continua sendo herói pouco importando sua sexualidade, demonstra como são possíveis novas narrativas não apenas sobre a mitologia grega, mas também das representações não heteronormativas em um ambiente como o dos jogos.

  • Vitor Gabriel Maidl

As paredes da cidade e Paulo Leminski – Antiga e Conexões

Boa noite Gente! O presente vídeo é fruto da série de estudos que o grupo Antiga e Conexões realizou a partir de Paulo Leminski. Nesse, consideramos a importância da manifestação nas paredes de uma cidade em murais, grafites e pichações – e o que cada uma dessas manifestações pode nos dizer sobre sua história e população. A partir das reflexões de Leminski, observamos como o advento do capitalismo e da modernidade diferenciam os escritos nas paredes de Pompéia, por exemplo, dos escritos em muros da cidade atual. É nessa cidade contemporânea que podemos diferenciar, segundo Leminski, as paredes contraculturais (marcadas pelo grafite e pixo ilegal) das oficias (marcadas, por exemplo, pelo movimento paranista com incentivo do estado).

Para saber mais sobre a maneira como Paulo Leminski trabalha o grafite, a poesia e o passado. Link para a exposição virtual “Paulo Leminski e os Antigos”: https://antigaeconexoes.wordpress.com/2020/12/08/exposicao-paulo-leminski-e-os-antigos/

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Link do vídeo completo da palestra de Paulo Leminski na UFPR: https://www.youtube.com/watch?v=cXdKmKUcXAk

Entrevista e Convite para Live: Lorena Lopes da Costa

Olá gente! Esperamos que todos estejam bem!

Começamos 2021 com uma novidade! Ao longo desse ano iremos realizar lives em nosso canal do Youtube com estudiosos e estudiosas da Antiguidade. A primeira delas será dia 27 de abril, às 19 horas, com a Profa. Dra. Lorena Lopes da Costa, título “Os Antigos, a violência e a literatura de João Guimarães Rosa”.

Todo mundo está convidado! Para participar basta se inscrever no seguinte link: Formulário de Inscrição.

Cartaz de divulgação no Instagram.

Junto do evento, também retomamos as entrevistas do Blog!

Para conhecermos um pouquinho mais sobre a autora, segue abaixo a ótima entrevista de Lorena Lopes da Costa, professora da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Li O Espelho de Heródoto de François Hartog e a Invenção de Atenas da Nicole Loraux fazendo uma das disciplinas optativas da graduação do Prof. Dabdab Trabulsi, em que líamos também muitas fontes antigas. Decidi estudar Grécia Antiga e a língua grega em consequência desse contato, de leitura e da sala de aula. O Dabdab, que se tornou meu orientador no Doutorado, e o Hartog, durante um período de estudos na França, são peças-chave na minha decisão, presentes desde os primeiros passos

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

A Odisseia é, certamente, um dos meus livros favoritos. O poema faz uma reflexão profunda sobre narrar o passado, por meio de várias possibilidades: o aedo que invoca a Musa para narrar todo o poema;  Demódoco que a invoca também para contar o que Odisseu poderá confirmar; Fêmio, que conta o que não é verdadeiro; Odisseu, que conta as suas próprias memórias; as sereias, que sabem não só o que se passou mas o que se passará… É muito impressionante ver uma reflexão tão profunda sobre essas possibilidades narrativas ser feita sem prejuízo de um estória que nos enreda, com personagens inteligentes e marcantes, com passagens tão instigantes, versos e fórmulas tão bonitos. E é ainda mais impressionante pensar que tudo isso, que agora vemos registrado, precisou se transmitir oralmente por alguns séculos (mesmo que o espanto diante disso possa ser nuançado pela oralidade de uma sociedade que se contrapõe, nesse sentido, à nossa…).

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Atualmente, tenho desenvolvido, numa pesquisa pós-doutoral na Unifesp, a recepção da poesia épica (Homero e Hesíodo) na literatura rosiana. A partir das anotações de João Guimarães Rosa, tenho rastreado o emprego de alguns traços dos personagens gregos no sertão. É uma espécie de laboratório para pensar a recepção dos clássicos, já que são muitos os usos que se faz (e sempre se fez) da herança grega.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Ainda no campo da recepção, tenho me interessado muito pelas releituras feministas da Odisseia. Minha ideia é começar a me dedicar a elas em breve. Livros como The Penelopiad, da Margaret Atwood, The Song of Achilles e Circe, da Madeline Miller e The Silence of the Girls da Pat Barker têm chamado minha atenção. Sem falar na tradução da Odisseia de Emily Wilson, que opta por a complicated man no lugar do astuto varão

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Muitos lugares marcam minha relação com o mundo greco-romano antigo. A Assembleia do Canto II da Ilíada, quando Tersites apanha de Odisseu, é um deles. De forma análoga, o julgamento de Zé Bebelo no Grande Sertão: Veredas, que guarda muitas afinidades com a assembleia iliádica, é outro. Mas se fosse o caso de mencionar lugares físicos, eu só poderia não me deter na Acrópole, em Delfos, no Ceramico – que são muito emocionantes – se fosse para relembrar a experiência de escavar em Creta, na terceira edição do Touching the Past (coordenados pelas Profas. Maria Cecília Coelho e Erica Angliker, as duas já entrevistadas por vocês). Participei das escavações de Eleutherna, sob direção do Prof. Stampolidis, no verão grego de 2019: mexer na terra para descobrir os cacos, limpá-los com a água para ver renascer seus traços e, como detetive do tempo, aproximá-los dos usos que tinham há milênios muda a forma como concebemos não somente a história, enquanto experiência, mas a experiência de pensarmos a força do tempo a despeito de nós.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

Como é difícil escolher! Há tantos personagens fascinantes… O homem complicado, o de muitas-vias é um deles. Odisseu é um personagem que me intriga muito. Até Atena era fascinada por ele; como eu não seria?! Odiável às vezes, hábil contador de histórias, enganador, mas tão inteligente, persuasivo. 

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Há muitas fontes que eu queria ouvir “mais de perto”… Para seguirmos com o ciclo épico, eu queria conhecer as mulheres que, ali, quase não falam. Ouvir delas as histórias. Deixar Penélope, Helena, Andrômaca, Cassandra narrarem a guerra, os anos pós-guerra, o que pensavam e como viam os homens que faziam a guerra. Ou, mesmo, ficar numa mesa ao lado de algumas delas, como se eu pudesse nem ser notada, só para escutar as impressões, as risadas, os comentários que fariam entre si, observar sua postura, seu olhar, seu jeito. Na verdade, eu queria ouvir as mulheres ilustres, mas talvez ficasse ainda mais feliz de ouvir o que falavam as servas de Penélope, ou mesmo um grupo de amigas gregas, anônimas, desconhecidas.

Exposição Paulo Leminski e os Antigos

Olá, gente! Esperamos que todos estejam bem. No último mês fizemos uma série de posts sobre recepção e hoje anunciamos a exposição virtual Paulo Leminski e os antigos; pensando no contexto atual e na importância dos estudos de recepção, mostramos a presença dos gregos e romanos na contracultura paranaense através da obra do poeta curitibano.  

Para conferir acessem o link:

Made with Padlet

As paredes da cidade: entre o muralismo e o grafite

Arte temática de Paulo Leminski com vários de seus haikais no centro de Curitiba, rua Doutor Faivre esquina com XV de Novembro. Imagem: divulgação.

Em preparação para a exposição sobre Paulo Leminski, o tema do post desta semana será sobre um elemento importante das cidades: suas paredes, muros e murais.

Em Curitiba, principalmente no centro da cidade, é possível observar diversos murais com temáticas que refletem uma visão bem tradicional do Paraná: muitos pinheiros, pinhões, gralhas-azuis e figuras realizando trabalhos braçais. Desde a primeira república, esse tipo de obra, encomendada pelos governos de estados e municípios, são reconhecidas pela historiografia da arte como uma maneira de tentar estabelecer uma identidade específica para a cidade. Os temas já anteriormente mencionados que se encontram nos murais “oficiais” presentes em Curitiba fazem referência ao Paranismo, movimento artístico que floresceu na cidade justamente com o objetivo de construir uma identidade para o Paraná, que se tornou estado independente de São Paulo em 1853. Esse movimento artístico, por mais que tenha seu momento de maior produção na primeira metade do século XX, teve um impacto permanente na arquitetura cidade. Mesmo em períodos posteriores, é possível observar elementos de origem paranista em edifícios e calçadas, além de em murais de artistas como Ida Hannemann de Campos e Poty Lazzarotto.

Entretanto, não apenas de murais encomendados pelo poder público que se constitui uma cidade. É nesse aspecto que Paulo Leminski entra na nossa discussão. Segundo o historiador Everton de Oliveira Moraes, Leminski foi uma voz contrária à visão tradicional de Curitiba – de um povo trabalhador, conservador, com muita influência de seu passado imigrante –, buscando sempre trazer à tona tensões e disputas presentes na cidade. Ainda segundo esse historiador, o artista teceu diversos esforços para incitar o experimentalismo na cidade, colocando-se como uma espécie de “herói nacional” que negava não apenas a visão tradicionalista da cidade, mas também sua construção como cidade moderna modelo. Atualmente, Leminski continua inspirando e contribuindo para a imagem de Curitiba, homenageado em diversas paredes, construções, ruas, bares e localizações turísticas.

Banner pela artista Anita Ferreira para a Casa da Memória, em celebração ao que seria o aniversário de Leminski em 2017. Imagem: divulgação.

Para conhecer um pouco mais sobre Paulo Leminski e o seu trabalho, fique de olho no blog e aguarde a exposição!

  • Letícia Schevisbisky de Souza

Em Defesa dos Estudos de Recepção

Com a ideia de criar uma exposição sobre a obra de Paulo Leminski e sua relação com os antigos, o blog agora tem feito uma série de textos sobre passado e presente que envolvem de alguma forma temas tratados pelo poeta. A partir disso, optei para trazer aqui uma abordagem não muito usual: sabendo que Leminski conhecia a antiga cultura oriental e escrevia Haicai e, também era tradutor de textos romanos, escrevi uma reflexão sobre a relação entre literatura e cinema. Mesmo que Leminski não seja o foco da reflexão aqui, ele a inspira, na medida em que o autor refletia sobre as formas de trazer as múltiplas antiguidades para o presente.

É fato que adaptação de uma obra literária ao cinema é um assunto que gera polêmica e discussão sobre os cuidados com a história representada. Há vários tipos de adaptações do mundo antigo às telas. Há raras ocasiões em que se adapta uma obra da antiguidade como, por exemplo, o filme Satyricon (1969) de Frederico Fellini, baseado na Magnum opus homônima escrita no século I pelo autor romano Petrônio. O mais comum é o que ocorre com o filme Gladiador (2000) de Ridley Scott, que tem um roteiro baseado em diferentes obras produzidas no século XIX (literárias e pinturas) gerando situações de adaptação inverossímil para o período histórico narrado, mas remete a experiência moderna do público. Salta aos os olhos o fato de que, quando o protagonista Maximus (Russell Crowe) é escravizado, ele é apresentado ao personagem Juba (Djimon Hounsou). Juba não só é um dos unicos personagens negros do filme, como também informa a audiencia que Maximus agora é um escravo. Ora tal medida, imbuída de um visível racismo, naturaliza a condição de escravo das populações africanas, o que não só não é verdadeiro, como é profundamente problemático. Essa relação complexa entre verossimilhança, adaptação para às telas e as ideias que o filme com temática focada no mundo antigo não se restringe aos épicos sobre o mundo greco-romano. Vejamos o caso de Mulan (2020).

Em 2020 a Disney lançou um re-make life-action do filme Mulan uma animação produzida em 1998 pela mesma empresa. Desde o início da produção a diretora Niki Caro defendeu que o realismo e rigor histórico seriam os nortes para o roteiro do filme e, por essa razão, as icônicas cenas do original são retiradas. Assim, quando a protagonista Fa (Hua) Mulan foge de casa para assumir o lugar de seu pai na guerra, a personagem na versão de 1998 corta seu cabelo com uma espada, o que não ocorre na edição de 2020, pois nenhuma espada da época apresenta o corte afiado o bastante para cortar cabelo em um único corte limpo e, também, seria culturalmente incorreto, pois entra em conflito com o confucionismo contemporâneo a balada de Hua Mulan, obra em que se baseiam ambos os filmes. Considerando que homens e mulheres eram instruídos a não cortar o cabelo e as representações da época demonstram homens com cabelos longos, no live-action, Mulan (Liu Yifei) apenas coloca a armadura do pai e foge de casa sem cortar o cabelo. Se o realismo foi um ponto central do filme, como esse foi recebido pelas audiências?

Chamo atenção para a personagem Xianniang (Gong Li) que no filme é uma feiticeira capaz de mudar de forma e é a principal responsável pelas vitórias do antagonista do filme Bori Khan (Jason Scott Lee). Apesar de ser muito poderosa, a personagem é tratada com desprezo mesmo por seus aliados que constantemente a chamam de “Bruxa” com o comentário obviamente tendo a intenção de ser tomado como um insulto. Esse é um dos principais pontos levantados pelos críticos ao analisar o filme, o conceito de uma mulher que tem poderes mágicos e é marginalizada se pauta em uma concepção católica européia e faz pouco ou nenhum sentido no contexto da obra original. O argumento central de que o filme é respeitoso as audiências chineses, em uma mais cuidadosa versão, indica uma visão pré concebida a partir da perspectiva ocidental dos temas na balada de Hua Mulan, além de discursos problemáticos como a noção que uma mulher apenas pode se destacar se ela nascer com alguma qualidade inerente que a faça igual a um homem.

As críticas de Mulan demonstram que mesmos filmes que não tem nenhuma intenção de se instruir a partir da história ainda possuem discursos dentro de si além que demonstram visões de passado e construções sobre o passado. Se Mulan 2020 foi capaz de alguma coisa, apontou que o grande público possui expectativas e ansiedades sobre as representações do passado, que questões de raça e gênero despontam em seus detalhes, tal como o comentado sobre Gladiador. Assim, entendo que é tarefa da academia estar envolvida nas análises de recepção e atenta para como essas questões apareceram entre o público jovem, principal alvo desses filmes.

Juntei nessa reflexão três filmes produzidos em momentos distintos, mas que tratam de temas em comum: o mundo antigo e a relação que estabelecem com a juventude. Todos articulam raça e gênero em perspectivas próprias, o primeiro de forma mais progressista, por estar no contexto contracultural, os demais optam por narrativas mais conservadoras. Enotea, a feiticeira de Satyricon tem papel de destaque na trama, o que não necessariamente ocorre com Xianniang que é tratada na maior parte do filme como uma mera lacaia do antagonista Bori Khan mesmo sendo muito mais poderosa que ele. Assim, para entender Satyricon, Gladiador ou mesmo Mulan é necessário olhar para além de apenas o que a obra tem apresentado a audiência, mas também nos diversos filtros que elas passam. Os estudos de recepção, portanto, são fundamentais para entender como esses filmes falam tanto sobre o passado como sobre o presente e, também, sobre os discursos inseridos nesse presente. Se a academia se recusar a tomar essas obras como fontes de pesquisa, perderá uma excelente oportunidade de reflexão sobre a produção e a formação de visões do passado na cultura de massa.

  • Vitor Gabriel Maidl

Conhecendo Paulo Leminski

Oi, gente! No post de hoje buscamos apresentar um pouco sobre Paulo Leminski, sua vida, obra e sua relação com os antigos gregos e romanos.

Claudio Daniel: Paulo Leminski, 30 anos de saudades - Vermelho
Paulo Leminski. Imagem: divulgação.

O poeta, nasceu em Curitiba no dia 24 de agosto de 1944, viveu o início da infância no interior de Santa Catarina e parte da adolescência em São Paulo, quando iniciou os estudos com os monges beneditinos, lá teve contato com as línguas antigas, grego e latim, e também onde se deu a base de sua educação. Após sair do mosteiro aos 14 anos, voltou para Curitiba, e quando mais velho ingressou no curso de direito na Universidade Federal do Paraná, porém não concluiu os estudos na área. Seu início na arte foi cedo, começou a fazer poesia ainda quando criança, e teve uma grande influência da música, tendo sido autodidata. Além do grego e do latim ele conhecia diversos idiomas, como o inglês, japonês, polonês e entre outros.

No ramo profissional Leminski foi além de poeta, professor, publicitário, jornalista, tradutor, compositor e etc. Ele possuía uma exímia capacidade de trabalhar com a linguagem. Sua obra literária vai além de poesia, engloba ensaios, romances, biografias e prosas experimentais. Teve grande influência dos poetas concretistas, do zen budismo e dos clássicos. No quesito das influências antigas ele traduziu o Satyricon de Petrônio e produziu uma releitura das Metamorfoses de Ovídio. Além do mais, sua obra poética é repleta de diversas referências as línguas antigas e aos clássicos, indico aqui o texto de Guilherme Gontijo Flores, sobre a relação do poeta com o latim (você pode ler a resenha dessa obra aqui mesmo no blog).

Mesmo tendo um vasto referencial teórico, a escrita de Leminski é acessível, pois sua poesia é para todos. Ainda, sua produção de biografias também é marcante: ele escreveu quatro biografias, de personalidades como Jesus, Bashô, Trotsky e Cruz e Souza.

O poeta tinha uma relação muito estreita com a cidade de Curitiba, sendo uma das figuras mais lembradas quando pensamos a produção literária no Paraná. Foi leitor de Emiliano Perneta e principalmente de Dário Vellozo, mas também frequentou a cidade, seus bares, suas ruas, como um verdadeiro Flâneur. Leminski também contribuiu muito para a produção musical nacional, tendo suas composições tocadas por diversos músicos como Caetano Veloso, Itamar Assumpção, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e outros.

Em uma passagem ele define a arte como “a única chance que o homem tem de vivenciar a experiência de um mundo da liberdade, além da necessidade”. Paulo Leminski viveu da arte e produzi uma vasta obra, infelizmente morreu cedo, aos 44 anos. Entretanto, sem dúvidas experienciou este mundo de liberdade e sua obra ainda vive.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

Novos temas e pesquisas!

Oi gente! Esperamos que todos estejam bem!

Nosso post de hoje é para comunicar que haverá uma mudança nas postagens do blog. Agora elas serão tematizadas a partir das questões de Recepção dos Clássicos, principalmente na cidade de Curitiba.

Como primeiro eixo temático, estamos preparando uma exposição virtual sobre os antigos na obra do poeta Paulo Leminski. Já na próxima semana iniciaremos as publicações e trabalharemos a vida de Leminski, sua relação com a contracultura e as suas traduções, bem como a da obra Satyricon.

A exposição completa será lançada em dezembro! Acompanhem o blog, pois as próximas publicações prometem.

Paulo Leminski. Imagem: divulgação.

Entrevista com Maria Regina Cândido

Oi gente! A entrevistada dessa semana é a Maria Regina Cândido, Professora Associada do Departamento de História da UERJ.

Profa. Dra. Maria Regina Cândido. Foto: arquivo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Pertenço a uma família mineira que adora contar histórias. Narrar fatos, acontecimentos sempre chamou a minha atenção e me levou a cursar jornalismo. Sou formada em Jornalismo e Editoração pela Faculdade Estácio de Sá. Durante esta período, eu descobri a História e decidi que, ao terminar a formação em jornalismo iria ingressar no curso de História. Ao término do curso, ingressei no curso de História na UFRJ.
Durante o primeiro período do curso tive a grata satisfação de conhecer a professora Neyde Theml. A aproximação foi bizarra, pois ela chegou na sala de aula e perguntou quem tinha carteira de motorista e sabia dirigir. Eu, inocentemente, levantei o dedo. Resultado: ela me entregou a chave de seu carro e pediu para eu buscar o Prof. Jean Pierre Vernant no aeroporto Santos Dumont. Imaginem Neyde Theml e Jean Pierre Vernant juntos, foram palestras maravilhosas e sedutoras. Fui convidada para entregar o grupo de pesquisa em sociedades antigas coordenado pela professora Neyde. Entretanto, havia um grande problema, o grupo de estudo não tinha conhecimento de grego antigo (ático). O problema foi superado com as aulas ministradas pela Profa Silvia Damasceno, docente de Grego Antigo da UFF. Na pós-graduação (mestrado e doutorado), a Prof Neyde detinha a prática de enviar os seus orientados para realizar estágio na EFA (Escola Francesa de Atenas) confesso que foi a minha primeira viagem ao exterior. Depois ingressei como professora de História Antiga na UERJ, fundei o NEA/Núcleo de Estudos da Antiguidade e a Revista Eletrônica NEARCO. E foi assim que a História Antiga entrou em minha vida e permanece até a presente data.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Adoro livros sobre História Antiga, devido a influência da orientadora, tive contatos com a historiografia francesa através dos livros de Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal Naquet e Marcel Detienne. Les origines de la pensée grecque, La cuisine de sacrifice en pays grec, L’individu, la mort, l’amour: soi-même et l’autre en Grèce ancienne, Entre mythe et politiqueL’univers, les dieux, les hommes: récits grecs des origines Paris.  A leitura destes livros e outros, ajudou na compreensão da complexidade da sociedade grega em torno de temas sobre teatro, religião e morte.  
O interesse sobre teatro grego acabou predominando, especificamente, as obras do poeta Eurípides. O universo dos trágicos e do teatro me levou ao ter contato com as obras de Jacqueline de Romilly, La Tragédie grecque, La Modernité d’Euripide.Les Grands Sophistes dans l’Athènes de Périclès. Alcibiade ou les dangers de l’ambition. La Grèce antique contre la violence.
Devo acrescentar também as obras de Claude Mossé com os livros Les Institutions grecques, La Tyrannie dans la Grèce antique,La Colonisation dans l’Antiquité, La Fin de la démocratie athénienne. Aspects sociaux et politiques du déclin de la cité grecque au ive siècle av. J.-C.. Como se pode notar, os livros fazem parte dos clássicos da literatura grega contendo ideias, debates e questionamentos assaz interessantes. Eles foram vitais para minha formação como helenista.
Não posso deixar de mencionar a participação, em minha formação, do eminente Prof. Ciro Flamarion Cardoso que sempre me incentivou a criar métodos que dessem conta da minha documentação (os defixiones) fragmentada. Através de sua supervisão que foram criadas as grades metodológicas de análise especificas para textos e de imagens que hoje aplicamos nas pesquisas sob a minha coordenação. Informações sobre as grades de analise metodológicas foram publicadas pela Profa Claudia Beltão/UniRio no livro A Busca do Antigo.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Atualmente, desenvolvo a pesquisa sobre Gregos e Persas sob a ótica do Ritual da Xênia e da rede de conectividade e hospitalidade nos séculos V e IV a.C.: o caso dos atenienses ( esta pesquisa foi aprovada no processo de seleção de bolsista de Produtividade do CNPq e no Prociência FAPERJ/2020.).  O tema sobre a relação entre os gregos e persas parte da personagem Medeia como fio condutor da pesquisa devido a sua origem oriental demarcado pelos seus trajes persas.
Tenho um profundo apreço por imagens de vasos gregos e as uso como suporte de informação. Considero que a indumentária grega associada à vestimenta dos persas em Medeia funciona como um indício e uma forma de comunicação não verbal de parte da elite de Atenas.
O tema desta pesquisa foi o resultado da viagem que fiz ao Irã, para participar do curso de Arqueologia Antiga a convite da Profa Katia Pozzer/UFRGS. As aulas do curso foram ministradas in loco nos sítios arqueológicos do chamado Império Persa no Irã (Teerã, Shiraz, Yazd, Persepolis, Pasargada, Espharan, Firuzabad) sob a supervisão do arqueólogo Prof. Dr. François Desset da Univeridade de Teerã.
A partir de contatos e informações acabei me aproximado de autores ingleses e russos (que publicam em língua inglesa) que analisam o contato dos atenienses com as regiões do Mar Negro.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Os temas de interesse são vastos como a alimentação no mundo grego e romano, a relação entre magia e religião, conhecer melhor a presença dos gregos no Mar Negro.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo?

Sim, as estruturas físicas do teatro grego em diferentes regiões da Grécia: fiquei impressionada com a acústica do Teatro de Epidauro.
Em Roma, a estrutura do Coliseu é de uma das maravilhas do mundo

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Confesso que sou apaixonada por Medeia. O tema sobre a sacerdotisa de Hécate nos permite refletir sobre o lugar social da mulher migrante, estrangeira e considerada bárbara no mundo grego. Medeia detém muitas imagens magnificas que impulsionara a sua difusão iconográfica nos vasos de cerâmica ática. Considero Medeia uma mulher bárbara que detém o domínio de ervas e drogas mágicas, mulher ativa que não se cala diante do poder masculino, esposa e mãe corajosa que mata os filhos em sacrifício visando transforma-los em deuses.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Seria uma honra receber o poeta Eurípides para passar uma tarde com café, chá e bolo de chocolate, já pensou!!! Gostaria de conversar sobre a situação da mulher em Atenas, tanto a mulher grega quanto a mulher estrangeira assim como a relação entre magia, religião e a circulação das práticas da magia dos katadesmoi, seria divino!!
Gostaria de fazer uma entrevista com Medeia (a grega e a romana), dirimir algumas dúvidas, ouvir os seus relatos de mulher barbara vivendo entre os gregos.
Em Roma, gostaria de conversar com o poeta Sêneca sobre a sua versão da tragédia Medeia, a motivação da escolha e o que tinha em mente, qual a mensagem que desejava vincular através da sacerdotisa de Hécate.