Boudica e o Brexit: o clássico como apelo retórico

“Está na hora de Theresa May encontrar sua Boudica interior”. A frase, publicada em outubro de 2018 pelo jornal britânico The Sun, veio acompanhada da imagem do post, isto é, a estátua icônica de Boudica modificada com o rosto de Theresa May.

Não é de hoje que os britânicos resgatam a figura de Boudica. A situação de mulheres no poder, recorrente no país, motivou a referência antiga em diferentes contextos, sendo a rainha Vitória e as sufragistas dois grandes exemplos. O lugar de Boudica na memória nacional britânica é bastante importante: um símbolo de força feminina e resistência ao poder romano, bem como de luta contra abusos e injustiças. Todas essas associações acompanham o uso de sua figura, em maior ou menor grau, por Nick Timothy, autor da matéria em questão.

No entanto, The Sun não foi o único a publicar essa associação. Nigel Nelson, editor político da Mirror, também escreveu sobre as ligações de Boudica e May. Ele trouxera, em 2016, mais referências históricas da revolta, apelando para que a ex primeira-ministra usasse de elementos surpresa assim como o fez Boudica ao destruir três cidades importantes da Bretanha.

Acompanhada de momentos de ruptura na história britânica, Boudica foi usada em contextos de mudança política, nesse caso como propulsora da defesa contra o que seria o domínio da União Europeia sobre o Reino Unido – como, em 60 d.C, o domínio do Império Romano sobre os Icenos.

Longe do conturbado Brexit, Boudica foi uma líder guerreira do século primeiro, na ilha onde hoje é a Inglaterra. Conhecemos muito pouco sobre sua figura através dos textos de Tácito (Agrícola e Anais) e Cássio Dio (História de Roma), que dedicam breves parágrafos ao que acreditavam ser essa mulher. Nenhum dos dois esteve na Bretanha, e é importante mencionar quão estranho soava aos ouvidos romanos a liderança feminina. Mesmo assim, suas narrativas e descrições são a fonte da ampla tradição sobre essa heroína nacional que se tornou Boudica.

Dos pequenos fragmentos e vestígios arqueológicos da revolta, sabemos que o Império Romano ocupava a ilha pouco antes de sua eclosão, e que Boudica estava ao lado do rei Prasutagus na liderança de uma importante tribo da região, os Icenos. O motivo da revolta, segundo Tácito, foi a quebra do pacto que os romanos estabeleceram com Prasutagus, que era um rei cliente de Roma. Em outras palavras, estava associado ao Império mas continuava nominalmente livre. Após a morte do rei, Tácito conta sobre o abuso da violência e autoridade pelas tropas romanas, que desrespeitaram o pacto e invadiram o território dos Iceni, violentando Boudica e suas filhas. Em sua narrativa, então, ela lidera tropas na destruição de Camulodonum, Londinium e Verulamium, e profere um importante discurso sobre “vingar a liberdade perdida”.

É nesses termos que Nelson e Timothy escreveram sobre Theresa May. Transportando a vingança da liberdade perdida ao Reino Unido do século XXI, trouxeram ainda referências imagéticas da relação, via charge e montagem em questão. A estátua de Boudica modificada mexe com um importante símbolo localizado em frente à House of Commons, baixo parlamento inglês. Trata-se, portanto, de um apelo a fortes símbolos nacionais para colocar em Theresa May a responsabilidade de agir conforme a figura histórica: “é seu momento de Boudica, Theresa”.

  • Cassiana S. Maciel

Para saber mais:

This is your Brexit Boudicca moment, Theresa (matéria em inglês no site do The Sun) – https://www.thesun.co.uk/news/7501794/this-is-your-brexit-boudicca-moment-theresa-its-time-to-say-on-your-way-barnier-like-up-yours-delors/

Theresa May leading the all woman charge for Britain’s top politics jobs (matéria em inglês no site Daily Mirror) https://www.mirror.co.uk/news/uk-news/theresa-leading-woman-charge-britains-8336505

Boudica em Mulheres Escondidas pela História, artigo de Taís Bagoto Belo- https://www.academia.edu/15262180/Boudica_em_Mulheres_escondidas_pela_Hist%C3%B3ria

Boudica e as facetas femininas ao longo do tempo: nacionalismo, feminismo, memória e poder, tese de doutorado de Taís Bagoto Belo – http://repositorio.unicamp.br/handle/REPOSIP/281233?mode=full

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