Entrevista com Fábio Vergara Cerqueira

Nosso entrevistado de hoje é Fábio Vergara Cerqueira, professor nos cursos de História e Arqueologia/Antropologia da Universidade Federal de Pelotas.

Fábio Vergara Cerqueira. Foto: Acervo Pessoal

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Ainda estudante de graduação, me apaixonei pelos estudos da Antiguidade. No segundo ano de faculdade, fiz uma viagem à Europa, e fui à Grécia. Em Atenas, quando vi diante de mim o Partenon, bem, naquele momento decidi!

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Do início do século XX, do Louis Gernet, a sua tese de doutorado, “Recherches sur le développement de la pensée juridique et morale en Grèce (étude sémantique)” (1917), leitura meio pesada (não tem em português), mas, enfim, é o parto da Antropologia histórica da Grécia antiga. Da metade do século  passado: “The Greeks and the Irrational”, do Dodds, de 1950, mas esta disponível em português! Falando dos autores antigos, é difícil escolher… pois são relações muito variadas que a gente tem com os diferentes textos. Bem, mas falando em música, não dá pra fugir ao “Peri Mousikes” (Sobre a Música), do Plutarco (para muitos, Pseudo-Plutarco). Mas, assim, como uma leitura que faz a gente percorrer a Antiguidade, transitar entre a imaginação e narrativa dos fatos: não tenho dúvida, “Histórias” do Heródoto! Essa fluência entre razão e mito, que perpassa seus textos (digo no plural, pois sinto como um compêndio de folhetins), parece tão mais próximo de um modo de pensar comum para um grego! (se formos comparar com a postura mais racionalista, mais clean do Tucídides…). E o Brasil. Bem, tem muita coisa legal escrita no Brasil sobre a Antiguidade. Fica bem difícil escolher! A Maria Beatriz Florenzano tem um texto que meus alunos adoram: “Nascer, viver e morrer na Grécia antiga” (1996). Mas olha, se for falar sobre minha geração, que livro foi mais marcante de autor brasileiro quando éramos estudantes? Não sei os outros, mas, para mim, foi “Cultura Popular na Antiguidade Clássica”, do Pedro Paulo Funari, de 1989. Puxa, um livro que abriu a cabeça! Mas, finalmente… e um autor atual, impactante. Puxa…  tantos assuntos. Mas vou sugerir: Sandra Boehringer, grande nome para questão do amor, do erotismo. Obra, pra sacudir: “L´homosexualité féminine dans l’Antiquité grecque et romaine”.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Assim, tem os temas centrais, que seguem sendo em torno de música e de imagem. Como enfoque regional, tenho me dedicado ao mundo colonial grego, em específico o Sul da Itália (a cidade de Tarento e a região de Apúlia). Mas, no meio do caminho, vou me cruzando com diferentes problemas de estudos, como gênero, homoerotismo, educação, guerra, identidade, religião, morte e tantos outros. 

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Por enquanto, ainda tenho alguns temas para avançar no estudo da música na Magna Grécia (no caso, na iconografia de Tarento e Apúlia). Mas tem possíveis temas para o futuro: talvez homoerotismo, talvez mundo grego e não grego no Mar Negro, talvez repercussões de iconografia musical grega no mundo romano tardio (em torno de Orfeu, Musas…). Bem, tenho me dedicado também ao estudo da recepção da Antiguidade. Aí estou trabalhando no momento com dois temas: a iconografia da música antiga nos cemitérios e o imaginário das “Atenas brasileiras”.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Alguns lugares do mundo grego antigo me marcaram, em diferentes fases da vida. Quando estive na primeira vez na Grécia, ainda na adolescência, foi a Acrópole, mas também Creta. Quando comecei a me interessar pelo mundo colonial, meus olhos se voltaram para o Sul da Itália. São muitos lugares incríveis, mas diria que Paesto e Agrigento talvez sejam os mais impressionantes. Mas se vocês forem perguntar: mas qual o lugar que mais marcou? Bem, sem sombra de dúvida, a experiência mais marcante foi Delos. Permanecer na ilha-santúario por um período prolongado, passando as quatro luas no local, se  apropriar do espaço de uma cidade por meio de uma rotina, caminhar à noite no bairro do teatro, subir o monte Cinto com amigos, numa noite estrelada, clara, e de lá avistar um amplo conjunto de ilhas das Cíclades, é uma grande experiência.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que?

Bem… ficando no meu campo… na música: Orfeu é um personagem que me impressiona. Este músico mágico e sedutor. Por que? Pelo poder de encantamento que se acreditava que ele tinha, por meio de sua música. A capacidade de encantar animais, plantas e mesmo rios. A capacidade de encantar até mesmo as divindades ínferas, e convecê-las a lhe devolverem da morte sua amada Eurídice. Sua capacidade de derrotar, por meio de sua música, a música fatal das sereias. Orfeu, com seu canto, passa doçura aos guerreiros trácios. Mas Orfeu, além disso, sabia (simplesmente assim, como verbo intransitivo). Tinha acesso a conhecimentos muitos especiais, sobre o além-túmulo, sobre a morte. Em torno dele, dos conhecimentos e revelações cuja pregação inicial associavam a ele, desenvolveu-se toda uma religiosidade alternativa, o chamado orfismo. Mas tinha suas fraquezas, razão pela qual, inclusive, perdeu sua amada após quase conseguir trazê-la do Hades. Seu fim acaba sendo cruel, nas mãos de mulheres trácias ou bacantes. Eu vejo ali algo de homofobia, praticada por mulheres, que levam a uma morte violente. Mas mesmo na morte Orfeu é prodigioso. Sua cabeça, salva na ilha de Lesbos, torna-se um oráculo… o oráculo da cabeça de Orfeu! E sua lira, bem, está no céu, compondo a constelação Lyra.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Depende do objetivo! Com Antínoo, teria uma conversa, com Adriano, outra. Queria conversar com ele sobre a visão que tinha do Império e da Grécia. Sobre a conversa que eu teria com o Antínoo, acho que o Adriano não ia gostar. Mas, saindo da dicotomia grego/romano, se eu me encontrasse com o Aníbal, queria perguntar pra ele, por que não invadiu Roma quando podia.

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