Referência aos clássicos na cultura pop: o caso Alt-J

Fonte: Youtube

Em 09 de julho de 2012, a banda indie britânica Alt-J lançou o videoclipe para seu single “Tessellate”. Dirigido por Alex Southam, o clipe se propõe a realizar uma subversão no afresco “Escola de Atenas” do pintor renascentista italiano Rafael, representando-a como um paraíso do gangster moderno.

Fonte: Wikipedia Commons.

A referência ao afresco de Rafael é ainda mais explicitada na sua presença em uma camiseta usada por um dos atores e nas poses adotadas pelas figuras centrais: o homem apontado para o céu como Platão e a mulher com sua mão paralela ao chão como Aristóteles.

Fonte: Youtube.
Fonte: Youtube.

Uma das principais características do Renascimento italiano é a retomada dos clássicos, sendo os tratados e pensamentos dos filósofos greco-romanos muito valorizados. Há uma grande retomada no estudo das artes e das experimentações clássicas, além de uma grande dedicação ao estudo de conteúdos como gramática, retórica, história, poesia, filosofia, latim e grego. O afresco original, pintado entre 1509 e 1511 por Rafael no Vaticano, é típico desse movimento e busca fazer uma representação da filosofia. A obra está longe de ser considerada um retrato fiel, pois, além do grande intervalo de tempo entre sua produção e o tema que representa, os filósofos retratados são de períodos distintos e muitos não eram nem mesmo atenienses.

Segundo o classicista Glenn W. Most, a maneira como a filosofia e as artes liberais são representadas na “Escola de Atenas” é uma ruptura com a tradição do começo do século XVI. Isso se dá porque, ao invés de fazer representações alegóricas femininas, Rafael decide pintar 58 figuras masculinas. Essas figuras se distribuem em um espaço arquitetônico de luxo sóbrio e realizam ações esperadas de filósofos: leitura, discussão, ensino, reflexão e contemplação. É justamente esse aspecto que é subvertido em maior extensão no clipe, pois as ações realizadas são normalmente consideradas extremos daquelas presentes no afresco: dança, flerte, brigas, consumo de bebidas alcóolicas e cigarro, entre outros.

Existem poucos pronunciamentos oficiais da banda sobre o significado do clipe, além de que seu objetivo tenha sido causar um choque no espectador. Esse objetivo foi certamente atingido e é observado nas diversas teorias elaboradas pelos fãs da banda para interpretar o vídeo. A sugestão do paralelo entre filósofos gregos e gangsters modernos pode ser vista como uma crítica aos valores tradicionais de erudição, mas também pode ser considerada uma denúncia das desigualdades sociais ao contrastar a arquitetura do afresco com personagens de classes econômicas mais baixas do século XXI. Independentemente da interpretação, a opção de produzir algo polêmico pela subversão de representações de clássicos nos leva a pensar sobre o papel que elas ocupam no imaginário popular, mesmo tendo sido construídas muito posteriormente – como é o caso do afresco de Rafael, produzido no século XVI.

  • Letícia Schevisbisky de Souza

Referências:

MOST, Glenn W. “Reading Raphael: ‘The School of Athens’ and Its Pre-Text. In: Critical Inquiry, vol. 23, no. 1. University of Chicago Press, 1996, pp. 145-182.

Clipe da música

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