Da Grécia Antiga à China Contemporânea: Ai Weiwei no Brasil!

Odisseia, 2016.

Nascido em Pequim em 1957, filho de Ai Qing – um dos maiores poetas da China contemporânea e exiliado pelo governo comunista em 1958 – Ai Weiwei teve uma infância difícil com o desterro da família, com pouco acesso a produção cultural dada às proibições a que foram submetidos, mas isso não impediu que se tornasse um artista multifacetado. Poeta, arquiteto, curador, especialista em artesanato chinês antigo, editor, urbanista – é um dos idealizadores do estádio olímpico da China -, blogueiro e, acima de tudo uma importante voz libertária, um crítico social e ativista. Com esse perfil, seguramente sua vida é cercada de algumas prisões e, também, muitas obras polêmicas. Talvez uma de suas mais conhecidas por aqui seja a obra de 1995 em que derrubou, deliberadamente, enquanto foi fotografado, um vaso da dinastia Han (206 a.C a 220 a.C) em um ato crítico à chamada revolução cultural chinesa e às perseguições que se seguiram.

Pela primeira vez no Brasil com a exposição Raiz que reúne obras de vários momentos de sua carreira e de curadoria de Marcello Dantas, nosso blog não poderia deixar de registrar sua passagem. Não só porque partilhamos de sua ideia de que um blog permite ações culturais e trocas intensas entre pessoas de diferentes lugares e ideias, mas também porque entre as várias obras expostas tem uma em especial baseada na Odisseia. Isso mesmo, Weiwei tem uma obra inspirada nos poemas atribuídos a Homero! E é a ela que gostaria de dedicar esse post.

Em 2015, após ter recebido seu passaporte de volta, Weiwei foi a Europa pela primeira vez e não deixou de notar a crise imigratória instaurada. Tendo se estabelecido na Grécia por algum tempo, como ativista e crítico das mazelas humanas, fotografou e filmou as condições precárias em que as pessoas faziam as travessias e construiu, a partir de coletes salva vidas que os refugiados usavam para chegar a Europa, uma obra visualmente impactante. Essa obra pode ser vista na exposição Raiz, assim como um imenso painel que narra em preto e branco as jornadas dos refugiados, as guerras, a pobreza, as dificuldades das travessias e, também, a série de cerâmica que criou como suporte para a narrativa da precariedade da vida dessas pessoas. O prato de 2017 chamado A viagem, assim como os vasos empilhados, são objetos que colocam em paralelo a atual tragédia humana com a Odisseia. O contraste entre os coletes e os vasos, entre o passado – a origem da Grécia e, portanto, do Ocidente – e o presente – o deslocamento forçado – é profundamente tocante. Viagens duras, tempos diversos, sentidos contrastantes que chocam nossa percepção de mundo.

Em várias entrevistas a Obrist, Weiwei fala de como a antiguidade pode se transformar em arte contemporânea, em como é fundamental borrar as fronteiras do novo e do velho, do verdadeiro e do falso, de como é importante que as coisas possam ser mudadas. Todos esses aspectos se encontram nesse conjunto de obras. Se essas que comentei denunciam as guerras, a violência e o trauma, a obra Pneu, em mármore, é uma homenagem aos que arriscaram tudo para salvar suas famílias. Assim, trabalhando materiais importantes na cultura dos antigos gregos, como a cerâmica, a pintura vascular e o mármore, a narrativa de viagem, como a Odisseia, e mesclando com objetos atuais como coletes salva vidas e pneus, Weiwei cria um encontro único de temporalidades e narrativas, dores e angustias, de sobrevivência e esperança. Não é à toa que, ao ser perguntado por Orbist qual sua palavra favorita, respondeu: agir! As viagens retratadas em um diálogo entre passado e presente se configuram em ação, luta e busca pela liberdade!

Raiz já passou por algumas cidades e fica ainda no Brasil por mais um tempo. Está em Curitiba, no Museu Oscar Niemayer, MON, até 28 julho de 2019. Vai lá, vale a pena!

  • Renata Senna Garraffoni

Para saber mais:

Sobre a exposição Raiz no MON, curadoria de Marcello Dantas:

http://www.museuoscarniemeyer.org.br/exposicoes/exposicoes/aiweiwei

Ai Weiwei entrevistado por Hans Ulrich Obrist, Cobogó, 2018.

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