Antiguidade Queer: o nu e a obra de Pierre et Gilles.

Desde algum tempo, tem se buscado pensar a Antiguidade fora dos padrões acadêmicos do isolamento da tradição conservadora, do alto conhecimento, ou do gozo estético por padrões perpetrados tanto na História e História da Arte quanto arte mais tradicional. O interesse por justificar a importância sempre atual do estudo do passado grego e romano, bem como por estudar as diferentes formas de apreender e se relacionar com esse período, tem levado intelectuais a se preocupar cada vez mais com as apropriações dos clássicos no presente, ou como preferimos nomear aqui nesse blog, as conexões entre o passado Antigo e o mundo que vivemos.

Na arte, a memória de Roma e de Grécia sempre foi motivo de inspiração. Quem não se lembra de algumas pinturas de arte renascentista ou moderna que exaltam a mitologia grega ou romana? “O Nascimento de Vênus”, de Sandro Boticceli, “Baco e Ariadne” de Tiziano Vicelli, “O Reino de Flora” de Nicolas Poussin ou “O Rapto das Sabinas” de Jaques-Louis David. Pinturas elaboradas entre os séculos XV e XIX buscaram retratar momentos históricos ou mitológicos das culturas antigas na tentativa de manter dessa cultura também os padrões estéticos, a admiração pelo corpo considerado belo, aquele de proporções apolíneas.

Mas enquanto esse corpo nu da obra de arte se diferencia bastante do nu que vemos no cotidiano, em sites ou canais eróticos ou mesmo em revistas de pornografia, Pierre e Gilles buscam associar os dois, levando a realidade atual para o passado de beleza admirável das obras de arte de inspiração mitológica. O casal, que começou a trabalhar junto desde 1976, é formado por um fotógrafo e um pintor, e realiza obras de pintura sobre fotografias misturando as habilidades de cada artista. Nessas composições, entretanto, verificamos diferentes traços da representação artística tradicional associados a padrões estéticos do cotidiano, a elementos e cores exageradas, enfim, a uma estética que nos leva a pensar em pop-art mas também no camp, essa busca queer por realizar algo de bonito a partir de elementos simples e corriqueiros. É comum encontrar em suas composições de ar sagrado sobreposições de luzes de sirene, triângulos de carro, chapéus de marinheiro que lembram fantasias baratas de festas simples etc.

Talvez uma das suas obras mais conhecidas a fazer referência a Antiguidade seja a composição “Mercurio” (2001), que foi amplamente divulgada no ano de 2013 como propaganda da exposição Masculin/Masculin do museu de Orsay. De um lado da folha, os panfletos retratavam a pintura “O pastor Páris” de Desmarais (1787), de outro, a obra de Pierre et Gilles, dois nus de posições semelhantes. O realismo proporcionado pela fotografia, a pintura de tom sensual, o tom escuro e místico que envolvem o deus contrastam com a forma comportada e fria da pintura setecentista e, ao mesmo tempo, levam a admiração do corpo nas artes plásticas a se confundir com a admiração erótica normalmente vivida no cotidiano e não na academia.

Outras obras desse duo de artistas, como tem sido conhecido, propõem diálogos ainda mais vivos entre o passado e o presente, como Medusa em uma blusa comum, ou Narciso nu diante da água, e até Prometeu ou Ganimedes revertendo alguns conceitos da mitologia. Entretanto, suas misturas queer ou camp entre presente e passado antigo não precisam ser vistas apenas como uma representação desinformada. Revertendo com algum riso os cânones da pintura acadêmica, Pierre e Gilles podem nos ajudar a perceber que o apolíneo, o belo imaculado não constituiu sozinho a realidade desse passado antigo, como não constitui sozinho a do nosso presente. Suas representações nos fazem pensar com facilidade a uma antiguidade que tem sido cada vez mais revista: uma do cotidiano, do riso, do erótico misturado ao belo: a das pinturas e esculturas dionisíacas, ou de escritos como o Satíricon, a Priapeia, os textos de Luciano de Samosata ou de Epicuro, e de histórias como as de Adriano e Antinoo.

Sugestões de link:
Análise sobre a conexão entre a Antiguidade e o pensamento Queer:
https://books.openedition.org/momeditions/3350#ftn4

Catálogo de algumas obras dos autores
http://www.muma-lehavre.fr/sites/default/files/atoms/files/fp_2017_pierre-et-gilles.pdf
https://www.templon.com/new/artist.php?la=fr&artist_id=290

  • Alexandre Cozer

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