Cenas de competições na antiguidade

Na antiga Atenas ocorriam diferentes festas religiosas e cívicas, uma delas era o Festival das Panateneias em homenagem a deusa políade. Era uma celebração que abrangia jogos competitivos, procissão, sacrifícios e banquete. Nos jogos ocorriam diversas provas como as corridas de curta e longa distância, as lutas, os lançamentos de disco e de dardo e as corridas de bigas. Em muitas dessas competições o prêmio dos vencedores era o azeite sagrado das oliveiras de Atena, entregue em ânforas de cerâmica com as cenas dos jogos de um lado e da deusa Atena Promachos do outro.

Neste post um dos objetivos é notar que nas figurações atléticas, a distinção entre algumas provas é feita pelo gesto. Por exemplo: a distinção entre corridas de curta (figura 1) e longa distância (figura 2) é feita pela posição dos braços e das mãos e a distinção entre o pancrácio (figura 3) e o boxe (figura 4) passa pelo tipo de envolvimento entre os lutadores. Sendo o pancrácio uma luta de maior contato físico, diferente do boxe.

Figura 1: Ânfora Panatenaica, cerca de 500 a.C.

Fonte: Museu do Louvre, foto de Camilla Martins.

Figura 2: Ânfora Panatenaica, 333-332 a.C. (arconte Nikrokrates).

Fonte: Museu Britânico, coleção online.

Figura 3: Ânfora Panatenaica, 365-360 a.C.

Fonte: Museu Britânico, coleção online.

Figura 4: Ânfora Panatenaica, 336 a.C. ou mais antigo.

Fonte: Museu Britânico, coleção online.

Shear, ao comentar a ocorrência de tais provas nas ânforas panatenaicas, afirma que a chave para identificar o evento é a representação dos braços e das mãos dos corredores. Os braços daqueles de curta distância ficavam afastados do corpo, enquanto as mãos estavam muitas vezes na altura da cabeça e sempre estendidas. E os de longa distância mantinham seus braços baixos e próximos de seu corpo, com as suas mãos fechadas em punhos (SHEAR, 2012, p. 81).

De maneira geral, o elemento marcante em todas essas imagens é o corpo masculino nu. Ele expressa os valores de homens livres, apontando a força, a agilidade, o vigor, o potencial guerreiro desses corpos e, também, o potencial de vitória. São todas qualidades que enaltecem a honra e mostram que podem aproximar os atletas do divino, pois durante a competição são heróis, são como deuses, sendo às vezes guiados por divindades (MARTINS, 2014, p. 68) – como é o caso de imagens nas quais a deusa Vitória aparece junto dos esportistas, podendo ser o juiz em pessoa ou a protetora de algum deles (figura 4).

Pode-se pensar que esses valores marcados no corpo do atleta expressam, ainda, a vontade de serem lembrados. Afinal, na cultura grega um homem somente teria fama, no sentido de honra, caso de alguma maneira ficasse na memória das demais pessoas, o que é uma espécie de ser imortal e eterno. Enfatiza-se: na memória dos outros, por isso, a cultura física dos helenos visaria uma relação com o mundo, com as demais pessoas (MARTINS, 2014, p. 68).

Por fim, o outro objetivo deste post é perceber que nas cenas de lutas e lançamento de dardo os homens possuem músculos mais fortes e peso um pouco mais avantajado, enquanto nas provas de corrida eles possuem músculos definidos, mas são mais esbeltos e magros. Isso faz pensar na provável diferença alimentar entre eles e, também, na diferença entre os treinos. Apesar de ambos estarem inseridos em uma cultura física que valorizava o belo e o jovem, possuíam maneiras diversas de se relacionar com essa cultura, cuidados de si distintos, que mostram uma ação, pois toda a alimentação e atividade física são no sentido de individualizar o atleta agindo livremente no mundo. Segundo Duarte (2010, p. 106)

os exercícios ascéticos da Antiguidade nada mais eram do que diversas formas de ação do indivíduo sobre si mesmo, por meio das quais ele visava governar-se ao regrar e determinar sua dieta, suas relações sexuais, suas amizades e seu próprio corpo. Encontram-se aí o que Foucault denominou as ‘práticas de si’ ou ‘o cuidado de si’, comportamentos que não constituíam um sistema de prescrições ou proibições morais universais, mas apenas um conjunto de regras impostas a si mesmo, as quais determinavam certo estilo de vida.

De forma geral, Foucault mostra a possibilidade do passado como o lugar de uma experiência distinta da do presente e também autônoma, construída por práticas de liberdade. Além disso, rompe com a ideia de tradição e de progresso positivo, linear. Uma interpretação para essa cultura física, nesse sentido, são as práticas de si, as quais Rago (2009) explica serem formadas com a construção de si a partir de códigos de ética e de práticas de liberdade.

Conceitos que permitem pensar sobre as maneiras de se educar o corpo, isso em um mundo onde a estética corporal e a própria vida estão no discurso do capital e na mídia; apontando para um mundo de beleza, de perfeição e de harmonia. Nessa reflexão, o momento atual é “muito diferente da experiência do cuidado de si do paganismo, que em suas diferentes modalidades, não consiste em uma atividade solitária, não se destina a separar o indivíduo da sociedade, mas supõe as relações sociais, pois ocorre nos marcos da vida social e comunitária.” (RAGO, 2009, p. 262).

Assim, defende-se que o atleta no espaço público dos jogos mediante sua dietética, sua cultura física e seu corpo nu, estiliza, individualiza, sua ação segundo critérios que lhe permitem manter seus valores de honra e de glória vivos na memória dos demais.

Bibliografia
BRITISH MUSEUM. Collection Online. Disponível em: <http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/search.aspx&gt; Acesso em: 08/08/2018.
DUARTE, André. Vidas em Risco: crítica do presente em Heidegger, Arendt e Foucault. São Paulo: Forense Universitária, 2010.
MARTINS, Camilla. A Iconografia dos Vasos Panatenaicos de Atenas entre 566 A.C. e 320 A.C. 136p. Dissertação (Pós-graduação em História). Universidade Federal do Paraná.
SHEAR, Julia. The tyrannicides, their cult and the Panathenaia: a note. The Journal of Hellenic Studies, vol. 132, p. 107-119, 2012. RAGO, Margareth. Dizer sim à existência. In: RAGO, Margareth; LARROSA, Jorge (Org.). Para uma vida não-fascista. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p.253-265

  • Camilla Miranda Martins

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