Entrevista com Bernardo Brandão

O entrevistado de hoje é Bernardo Brandão, professor de língua e literatura grega na Universidade Federal do Paraná.

Bernardo Brandão. (Foto: acervo pessoal)

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Desde criança meus pais me falavam dos Antigos, seus mitos e filósofos. Quando era adolescente, as histórias do Asterix, os diálogos de Platão e um rápido estudo do grego me colocaram definitivamente nessa trilha e me fizeram, no vestibular, optar pelas Letras Clássicas.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Entre os antigos, Homero, Heródoto, Platão (a Apologia, o Górgias o Banquete, o Fédon e a República), a Ética de Aristóteles, as Enéadas de Plotino, o Evangelho de João, as Odes de Horácio e as Confissões de Agostinho. Entre os modernos, Os Gregos e o Irracional (E. R. Dodds), O que é Filosofia Antiga (Pierre Hadot), Greek Pilgrimage (John Carroll), Os mestres da verdade na Grécia Arcaica (Marcel  Detienne).

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Acredito que os antigos tenham ainda algo a ensinar a nossa época, em especial a respeito de duas coisas: comunidade e contemplação. Quantas vezes nos vemos como indivíduos isolados, dedicados a trabalhar ou a dissipar o tempo na internet, esquecendo-nos de que somos animais políticos, que construímos a vida boa em comunidade, e que parar para admirar o mistério do mundo, ou seja, para contemplar, é tão necessário ao espírito quanto o alimento ao corpo! Por isso, esses são temas da minha pesquisa: por um lado, o estudo a noção de contemplação nos filósofos da tradição platônica (os medioplatônicos, Plotino, Agostinho) e, por outro, a recepção da Política de Aristóteles na filosofia política contemporânea, em especial na obra de Martha Nussbaum, Michael Sandel e Alasdair MacIntyre.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Queria me dedicar mais a traduções: ainda nos falta muita coisa em português. Estou trabalhando em uma tradução do De Libero Arbitrio de Agostinho, mas gostaria, no futuro, de me fazer outras traduções de textos filosóficos.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Delfos, o centro do mundo para os gregos, onde, por uma feliz coincidência, passei meu aniversário de 30 anos.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Sem dúvida Sócrates, tal como retratado nos diálogos de Platão. Não apenas praticou, mas viveu a filosofia, e nos ensinou os fundamentos do caminho de nossa inteligência em direção à sabedoria: aprendermos a distinguir entre o que de fato sabemos e o que não sabemos.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Plotino, que estudei em meu mestrado e meu doutorado, sobre quem ainda pretendo escrever um livro e que me ensinou a ver o mundo do avesso. Certamente teria muito a conversar com ele.

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