Entrevista com Lourdes M. G. Conde Feitosa

A entrevistada de hoje é Lourdes M. G. Conde Feitosa, professora do curso de História da Universidade do Sagrado Coração, Bauru/SP.

Lourdes Feitosa. Foto: acervo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

O interesse especial pela História Antiga surgiu com a minha participação no Núcleo de Estudos Antigos e Medievais (NEAM), logo que iniciei a faculdade na Unesp em Assis. Foi com as leituras, pesquisas e conversas que ali tive com os professores e colegas que fui seduzida pela antiguidade.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

É difícil escolher, pois cada um deles tem a sua importância em ampliar os nossos horizontes, mas destaco duas obras da historiografia contemporânea que foram impactantes para mim durante a minha graduação, que são os livros de Paul Veyne – A vida privada no Império Romano e o de Catherine Salles – Nos submundos da Antiguidade. Isso foi nos anos de 1980 e por meio deles tive informações então inusitadas sobre a antiguidade greco-romana, como bem mostram os títulos, e que me encantaram ao proporem reflexões a respeito do matrimônio e a aceitação, ou não, da maternidade; sobre a família, os libertos, os escravos; o papel das festas e da religiosidade, dentre muitos outros. Deste universo de temas, um livro marcante e inspirador, mas publicado quando eu já estava no Mestrado, seguramente foi o do Pedro Paulo Funari – Cultura Popular na Antiguidade Clássica.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Os meus temas de pesquisa abrangem as questões de gênero e sexualidade. A partir delas, uma gama de possiblidades se coloca. Recentemente, a pesquisa realizada foi sobre como o corpo e a sexualidade do passado romano são apresentados em produções fílmicas denominadas como Documentários, realizadas por canais de TV paga de alcance mundial. A proposta foi a de problematizar, em específico, a sexualidade romana projetada em Sex in the Ancient World: Pompeii e o conceito do filme documentário como representante do passado histórico.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

O corpo é um tema que me atrai bastante e vinculado a ele está o uso de diferentes roupas e a sua conexão com as relações de gênero e o lugar social ocupado. A Arqueologia mostra que na cidade de Pompéia havia uma ampla produção e comércio de tecidos. Desses estabelecimentos foram encontrados treze officinae lanificariae, responsáveis pela lavagem e tratamento das fibras; sete officinae textoriae, nas quais aquelas eram cardadas, alongadas, fiadas e tecidas e, para a finalização do processo, as officinae tinctoriae (nove na cidade), responsáveis pelo tingimento. Também temos disponíveis pinturas que mostram estes aspectos. Assim, esta é uma possibilidade para o futuro.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Gosto de brincar que o mundo greco-romano me conquistou antes que eu me desse conta. Sou originária de Gália, que fica perto de Pompéia, ambas cidadezinhas do interior de São Paulo assim nomeadas em homenagem às suas homônomas do Império Romano, e, somado a isso, o meu marido se chama Hércules! Estaria escrito nas estrelas? Bem, o que posso mensurar foi a sensação especial que senti ao visitar o sítio arqueológico de Pompéia e lá é que tive a real dimensão de que estudar o passado é tratar de pessoas como nós, com os seus dilemas, angústias e alegrias. Com certeza, foi ao caminhar pelas ruas da cidade, sentar na arquibancada do anfiteatro e me imaginar participante de um espetáculo ou da escrita de um dos tantos grafites deixados nas paredes é que me senti fortemente conectada com os pompeianos do século séc. I d.C.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

Realço não um personagem, mas um símbolo – o falo, que é muito representado no cotidiano romano e para nós motivo das mais variadas reações.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Seria muito interessante um bate papo com aqueles aos quais tenho dedicado grande parte de meu esforço acadêmico, que são os populares de Pompéia. Ouvir mais das histórias destas pessoas ali nascidas ou originárias das mais diversas partes do império devido à escravidão, e que ali construíram o se modo de ser e viver.

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