Entrevista com Luciane Munhoz de Omena

A entrevistada de hoje é Luciane Munhoz de Omena, professora da Faculdade de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Goiás (UFG).

Luciane Munhoz de Omena. Foto: acervo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Quando cursava o Ensino Fundamental, estudei em um colégio Adventista. Como todos sabemos, é um ensino religioso, logo, o professor de religião produzia uma apologia ao cristianismo e nos ensinava que a sociedade romana se fundamentava em pecado, destruição e pornografia. Eu sempre me senti incomodada com este discurso; por isso, passei a ler a bíblia e frequentar a biblioteca, buscando temas sobre o império romano. Passados alguns anos, decidi cursar a Faculdade de História. Estando na Universidade Federal de Ouro Preto\UFOP, conheci o professor Dr. Fábio Faversani. Com ele, desenvolvi um estudo acerca das estratégias de afirmação social das mulheres romanas em Metamorfoses, de Lúcio Apuleio. É importante ressaltar que iniciei esta pesquisa no segundo semestre do curso, 1995. Quando finalizei a Faculdade de História, 1998, ingressei no Mestrado na Faculdade de História-Unicamp, sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Paulo A. Funari. O projeto visava à compreensão das práticas de poder em Sêneca, De Clementia. Ao finalizar a dissertação em 2003, iniciei meu doutoramento na Faculdade de História na Universidade de São Paulo, sob a orientação do prof. Dr. Norberto Luís Guarinello. Na tese, propus analisar as relações sociais entre o Princeps e a plebs na cidade de Roma com base nas obras de Sêneca. Em 2015, sob a orientação do Prof. Dr. Pedro Paulo A. Funari, realizei meu pós-doutoramento estudando memória e luto na sociedade imperial a partir dos vestígios materiais (Mausoléu de Augusto) e textuais (e.g. consolatórias de Sêneca). Ademais, ao longo dos meus 11 anos de docente na UFG, tenho orientado pesquisas acerca das tragédias gregas e latinas, Tito Lívio, Horácio, Sêneca, Quinto Cúrcio, Suetônio, Sêneca, Tácito, Apuleio, entre outros autores.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Aprecio muitos autores, mas para citar de forma rápida, vou elencar alguns: O trabalho e os dias de Hesíodo, Apocolocyntoses e De Beneficiis de Sêneca, Uita de Flávio Josefo, Os Doze Césares de Suetônio, Troianas de Eurípides, Medéia de Sêneca, obras de Machada de Assis, como, por exemplo, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Clarice Lispector, Baudelaire, Ítalo Calvino, entre outros

Quais são os seus temas atuais de pesquisa?

Meu atual projeto intitula-se – Morte e Memória no Império Romano à época do Principado (27 a.C. – 192 d.C). Nele, recentes estudos têm apontado um contínuo crescimento de análises sobre a maneira como as pessoas morrem, tratamento dos corpos, tipos de sepulturas, local de deposição no sítio, artefatos, construções identitárias em sarcófagos e relevos, além da paisagem funerária. Ao levar em consideração a relevância das representações mortuárias no Mediterrâneo Ocidental, analiso, em termos históricos, a experiência social da morte, à medida que engloba a forma como os mortos na sociedade romana imperial passam a ser lembrados ou, dependendo das circunstâncias, condenados ao apagamento. Em função da temática, o arcabouço documental contempla vestígios materiais, tal como o Mausoléu de Augusto, as narrativas textuais, como, por exemplo, Sêneca e Apuleio, assim como também abarco ainda a epigrafia sepulcral de Mediolanum e a necrópole de Isola Sacra, ao norte de Ostia, fundada à época da construção dos portos de Cláudio (41-54 d.C.) e Trajano (77-117 d.C.).

Posto isto, interessa-me ressaltar, que analiso as imagens mortuárias nos túmulos, nas procissões funerárias e no luto prolongado inserindo-os em um cenário político e social, pois, como suponho, tais celebrações, mesmo em nome dos mortos, transformavam-se em veículos de comunicação e instrumentos de poder. Normalmente, abordo ainda as seguintes questões:

1. A compreensão do ritual funerário, entendido como um conjunto de atos repetidos que se inserem em uma dimensão simbólica, bem como o seu desenrolar no espaço da cidade, para compreender, dessa forma, os símbolos e as insígnias da cerimônia. Neste sentido, estudo os rituais fúnebres como expressões festivas, pois, tal como proponho, as festas produzem identidades entre os participantes, o compartilhamento do símbolo comemorado, se inscrevem em uma memória social e apresentam também motivações diversas que se traduzem em conflitos e hierarquias sociais.

2. Analiso ainda as imagens da morte que se associam à atuação do feminino na corte e nas províncias imperiais (Ostia e Mediolanum), tanto no espaço doméstico quanto no público. Tais imagens trazem à tona um passado “ressignificado” e “reinventado”, o qual legitima a auctoritas do imperator. Sêneca (AdMarciam de Consolatione I. 7) construiu a reputação da domus de Augusto indicando, em especial a valorização de Lívia ao associá-la à imagem masculina de uiri com a uirtus; com isso, incorporou coragem e glória eterna no cortejo fúnebre de seu filho (Sêneca. AdMarciam de Consolatione IV, 3). Assim, produzo reflexões sobre a função feminina no luto prolongado e sua associação com a prática da uirtus, os rituais femininos de purificação essenciais à familia funesta e o papel masculino no cortejo fúnebre, sobretudo, o discurso no rostrum. Logo, contemplo análises sobre o papel da família de seus membros na produção de memória social do morto.

3. Além disso, busco compreender as dimensões mais particulares e emocionais da lembrança do falecido; com isso, produzo reflexões sobre a presença de afetividade nas relações familiares que, intensificadas pela perda, provocavam, em alguns casos, a extensão do luto prolongado, gerando, dessa forma, a morte social dos enlutados e do próprio falecido.

4. Para finalizar, a pesquisa abarca igualmente o espaço funerário na necrópole de Ostia (e igualmente o Campo de Marte e Via Appia) e, dessa forma, incorporo questões sobre a construção dos túmulos e sua sinalização na paisagem como um dispositivo de poder, já que a aristocracia competia por espaços de memória na cidade dos mortos. Neste contexto, levo em consideração o estilo, ocupantes, dimensões, materiais, forma, decoração, tipo de escrita, periodização, localização, tema e dedicante; para, com isso, desenvolver pesquisas acerca das relações familiares, relações de gênero, festividades dos mortos, infância, magistraturas, ofícios e as dimensões mais particulares e emocionais no modo como se lembravam dos mortos na sociedade romana.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Desejo continuar com os estudos acerca da arqueologia da morte.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Como respondi na primeira questão, o Colégio Adventista levou-me a querer estudar as sociedades mediterrânicas.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

A minha personagem favorita é a Medeia, porque, a partir dela, vê-se a atuação feminina em um universo falocêntrico.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria para um café? Sobre o que conversariam?

Conversaria com Sêneca e discutiria assuntos sobre as relações de poder e morte na sociedade romana.  

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