Entrevista com Kátia Pozzer

Nossa entrevistada de hoje é Kátia Pozzer, professora do curso de História, de História da Arte e do Programa de Pós-Graduação de História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Kátia Pozzer. Foto: acervo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Foi quando fiz a disciplina de História Antiga Oriental com a Profa. Loiva Otero Félix, me apaixonei pelo Hammu-rabi, pelas leituras das fontes!

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

“Lorsque les dieux faisaient l’homme” do Jean Bottéro e do Samuel Noah Kramer, o “Código de Hammu-rabi” do Emanuel Bouzon, “Sociedades do Antigo Oriente Próximo” do Ciro Flamarion Cardoso, “História Antiga do Norberto Guarinello”, “Antigo Oriente” do Mario Liverani, “Women in Babylon” da Zainab Bahrani entre outros….

Quais são os seus temas atuais de pesquisa?

Atualmente estou trabalho em um projeto de pesquisa intitulado Arte, História e Cultura Material – um estudo sobre os selos-cilindros da Mesopotâmia, desenvolvida no Laboratório de Estudos da Antiguidade Oriental (LEAO).

Existem duas formas mais comuns de selos no antigo Oriente Próximo. O mais antigo e mais difundido foi selo tipo carimbo. O selo-cilindro surge no período de Uruk (IV milênio AEC) e precede a invenção da escrita.
Como objeto, o selo era portador de significados, era símbolo de poder, de autoridade e status social. Eles poderiam servir como oferendas votivas ou funerárias, como presente aos deuses ou, ainda, como amuletos protetores. Os selos tiveram um importante papel na economia e na administração e ainda testemunharam a influência e a difusão de diferentes culturas no antigo Oriente Próximo.
A característica básica associada aos selos é a sua capacidade de fazer uma marca reconhecível a partir da imagem gravada em sua superfície. O processo de gravação é chamado de “entalhe”.

Sua principal funcionalidade era imprimir uma marca de propriedade sobre pedaços de argila utilizados para selar tabletes de argila, para fechar fechaduras de portas ou recipientes, por exemplo.
O motivo representado sobre os cilindros consistia geralmente em cenas figuradas e seu uso era o signo distintivo de uma classe social elevada, como os reis, os escribas, os mercadores, os homens de negócio. Cada motivo era único e imutável. O motivo era gravado vazado (era feito um entalhe) na superfície do cilindro e este é a razão pela qual se designa esta arte pelo termo de glíptica. Quando se desenrola o selo a imagem aparece em positivo.

Esta pesquisa tem como objetivo investigar a iconografia de selos cilíndricos pertencentes a várias tradições da Mesopotâmia, em uma perspectiva multidisciplinar que articula a história da arte, arqueologia e história. A pesquisa envolve a análise de temas como figuras antropomórficas e/ou geométricas, animais (reais e imaginários), vegetação e paisagem, arquitetura, divindades, representação feminina, símbolos e atributos, bem como referências a temas literários. 

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Sinceramente ainda não pensei, esse trabalho com as imagens dos selos é maravilhoso, cabem vários mundos ali….

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Tive duas grandes experiências emocionais relacionadas ao mundo antigo: a visita a Porta de Ishtar no Vorderasiatisches Museum em Berlim, onde chorava compulsivamente e as pessoas começaram a se aglomerar a minha volta para entender por que… e aí dou de cara com um casal iraquiano que também chorava e nos sentimos unidos no amor pela história e pelo patrimônio do Oriente. E a outra foi quando entrei em Persépolis, no Irã, aquilo é gigantesco, muito impactante, também chorei abraçada em uma iraniana que se emocionou com a minha emoção…

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que?

A deusa Ishtar porque nos diz que o Oriente era múltiplo, com mulheres muito poderosas no imaginário popular; o rei Hammu-rabi, porque o prólogo e o epílogo do código são uma mensagem política potente, rígida, mas com princípios éticos que andam esquecidos nos dias hoje…..e o Dario, porque fez um império sem igual, mandou aplainar uma face de uma montanha, o Rochedo de Behistum,  de uma superfície de 7m X 18m para fazer uma inscrição trilíngue falando de suas conquistas e construindo boa parte da magnífica Persépolis criando uma arte nova, incorporando a diversidade cultural do império que se queria universal.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Ah, eu chamaria o Assurbanípal, rei da Assíria (668-631 AEC) e falaríamos sobre as dificuldades de administrar o império, a reforma do palácio em Nínive e os jardins com aquedutos, plantas e animais “dos quatro cantos da terra” que ele mandou fazer…

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