Máscaras, espadas e machado: assimilações e trocas entre poetas e artesãos em Atenas Clássica

Teatro de Dionísio em Atenas. Fonte: © Galina Mikhalishina/Shutterstock.com

O capítulo Máscaras, espadas e machado: assimilações e trocas entre poetas e artesãos em Atenas Clássica foi escrito pelos historiadores Alexandre Cerqueira Lima e Talita Nunes Silva e se encontra no livro Teatro Grego e Romano: História, Cultura e Sociedade, organizado por Ana Livia Bomfim Vieira e Claudia Beltrão da Rosa. Nesse capítulo, Lima e Silva escrevem sobre a relação entre as peças de teatro e as produções artesanais em cerâmica feitas em Atenas no período clássico. O texto é dividido em duas partes, sendo a primeira escrita por Lima e a segunda por Silva. A introdução aborda como o regime democrático em Atenas abre espaço para encenações teatrais cômicas, estabelecendo o teatro do período como a “vitrine” da pólis, ou seja, um meio de demonstração e circulação de ideias e representações – seja para os próprios cidadãos atenienses ou para estrangeiros. Outro ponto importante para o qual Lima chama atenção é o caráter de sacralidade da produção teatral, que protegia a expressão de opiniões políticas. Além disso, o autor indica que a existência de pinturas em cerâmicas criadas a partir de temas ou passagens de peças teatrais demonstra como o teatro passou a ser uma manifestação cultural importante no repertório dos artesãos da Ática.

Em seguida, Lima aborda a questão do espaço para a representação, na qual ambos os teatrólogos e os ceramistas encontram limitações. O espaço do teatro está presente na obra do escritor teatral, como é possível observar em indicações de atores se dirigindo diretamente para a plateia e se movimentando para fora do palco. Lima relaciona essa dimensão teatral com o conceito de espaço heterotópico elaborado por Michel Foucault – no sentido que, no teatro, o espaço físico real é sobreposto por diversos espaços ilusórios durante as peças. As máscaras são um elemento importante nesse aspecto, porque são elas que permitem essa separação entre o ator e o seu personagem. Além disso, elas são consideradas unidades formais mínimas que indicam que uma cena representada na cerâmica, por exemplo, seja uma imagem de teatro.

Na segunda parte do capítulo, Talita Nunes Silva coloca essas questões em prática ao analisar a figura da personagem Clitemnestra na iconografia da cerâmica. A autora aponta que a arma específica utilizada pela personagem para realizar seus homicídios é fonte de diversos debates, já que, na tradição literária anterior às tragédias de Ésquilo, a descrição da arma era extremamente vaga – a única indicação era ser uma arma de dois gumes. No Período Arcaico, havia um conceito na tradição iconográfica que representava essa arma como uma espada, e é com essa arma que os assassinatos foram retratados nas peças de teatro de Ésquilo. Partindo da análise de algumas figuras em cerâmica do período entre 480 a 440 a.C. que retratam a personagem também com uma espada, Silva busca verificar se essa representação pode classificar Clitemnestra como uma figura “transgressora”. Segundo a autora, a utilização da espada, que é tradicionalmente associada ao masculino, demonstra uma postura viril e atribui um caráter racional aos assassinatos. Portanto, ao associar a manipulação premeditada da espada a Clitemnestra, ocorre a representação de uma mulher bem-nascida assassina, masculina e consequentemente transgressora. Silva conclui que, mais importante do que definir se as figuras em cerâmica encontradas são uma assimilação direta da dramaturgia de Ésquilo, é perceber sua existência como indicação de que, na iconografia do Período Clássico, coexistia uma percepção de Clitmenestra como uma figura transgressora ao comportamento feminino tradicional da sociedade ateniense.

Referências

LIMA, Alexandre Carneiro Cerqueira; SILVA, Talita Nunes. “Máscaras, espadas e machado: assimilações e trocas entre poetas e artesãos em Atenas Clássica”. In: Teatro Grego e Romano: História, Cultura e Sociedade. VIEIRA, Ana Livia Bomfim; ROSA, Claudia Beltrão da (og.). São Luís: Café e Lápis; Ed. UEMA, 2015.

  • Letícia Schevisbisky de Souza

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