A História de Édipo na Nouvelle Vague Japonesa, o mito, o cinema e a política

O Funeral das Rosas — Bara no sôretsu (Toshio Matsumoto, 1969) | by Larissa  Goya Pierry | Subvercine | Medium
Cartaz do filme “O Funeral das Rosas”. Imagem: divulgação.

É notável que os gregos e romanos já foram temas de diversas produções cinematográficas, desde filmes infantis como “Hércules” da Disney até os “300 de Esparta” ou “Gladiador”. Porém, neste post pretendo abordar uma obra cinematográfica um pouco mais underground, que fez parte do movimento da Nouvelle Vague japonesa, trata-se do filme “O Funeral das Rosas” (Bara no Sōretsu), de Toshio Matsumoto, lançado em 1969. O filme conta a história de Eddie, uma mulher trans que ao longo de sua jornada assassina a própria mãe, e possui relações com o seu pai, ou seja, a história traz uma adaptação do mito de Édipo do grego Sófocles, que viveu no século V a.C apogeu da escrita na Grécia antiga. A tragédia de Édipo é um clássico que já foi adaptado e debatido em diversas áreas, desde a filosofia, história, literatura, psicologia e entre outras.


Nos anos 1960 na França houve a ascensão da Nouvelle Vague rompendo com as tradições estabelecidas pelos cineastas que já estavam no mercado. O nome foi dado pela imprensa na época para se referir a filmes que eram muitas vezes independentes, dirigidos por pessoas mais jovens que não possuíam muita experiência no mercado do audiovisual e eram interpretados por atores não tão famosos quanto os das antigas grandes produções. Os filmes que muitas vezes eram gravados nas próprias ruas da cidade foram muito bem aceitos pelo público, principalmente o mais jovem. Alguns nomes importantes do movimento são François Trufautt, Jean-Luc Godard, e Agnés Varda. É bem provável que você já tenha ouvido falar ou assistido algum filme dirigido por um deles, afinal o movimento ganhou muita importância ao redor do mundo e o fenômeno não ficou restrito só a França, algo similar estava acontecendo em outros países.


No caso do Japão a Nouvelle Vague ou Nūberu bāgu, tem o surgimento associado a um grupo da Nova Esquerda japonesa, a qual ascendeu no período pós-guerra em conflito com a esquerda institucionalizada representada pelo Partido Comunista Japonês (PCJ). A esquerda institucionalizada angariava um discurso que propagava o medo da volta ao passado pré-moderno, ou que o povo japonês se tornasse vítima de um regime autoritário, nesse sentido, defendia o que acreditava ser a paz e a democracia alcançada no pós-guerra. Já a Nova Esquerda não acreditava que se quer houvesse existido essa paz e democracia no Japão pós-guerra, defendendo que as ações políticas deviam ser baseadas não em um medo das pessoas se tornarem vítimas, mas sim atacassem o capitalismo e a democracia liberal.

No contexto da renovação do tratado de Cooperação Mútua e Segurança entre o Japão e os Estados Unidos, assinado em 1970, a decisão de permanecer com o pacto foi visto pela Nova Esquerda como uma complacência do Japão, e não como se este estivesse em uma posição de vítima tal como alegava o PCJ. A nova esquerda se fortaleceu ainda mais durante o período da guerra do Vietnam, onde o Japão forneceu suporte logístico para o Estados Unidos, gerando revolta nos jovens que faziam parte do movimento. Algumas das características importante da Nova Esquerda Japonesa presentes nos filmes da Nūberu bāgu, são as de que ambos contavam com a participação da juventude e faziam críticas a modernidade e a crença de um progresso linear. A radicalização na maneira da produção cinematográfica acompanhou o processo político de radicalização da Nova Esquerda.


A temática mitológica é vista em diversos filmes da Nūberu bāgu, em geral há uma retomada dos mitos que remontam ao período do Japão pré-moderno, mas também como é o caso de “O Funeral das Rosas”, existe uma abordagem de mitos ocidentais. Ao utilizar esses mitos os cineastas buscavam uma maneira de subverter alguns símbolos do passado pré-moderno para abordar questões do presente. Ao recontar o mito de Édipo, Toshio Matsumoto traz algumas questões a respeito da inevitabilidade dos comportamentos sociais e de acordo com David Pinho Barros, (PhD em estudos interartísticos, literários e culturais pela Universidade do Porto), o filme mostra que a revolução proposta pela Nova Esquerda estava se dando mais no campo social do que no político. Afinal, de acordo com ele, a obra de Matsumoto apresenta um retrato onde as regras que regem o universo social se passam em um microcosmo diferente da esfera maioritária, indicando então essa diferença entre o desfecho da revolução nas camadas políticas e sociais.

REFERÊNCIAS
BARROS, David Pinho. Édipos, Sísifos e Onis: Reescrita de mitos em Matsumoto, Teshigahara e Shindô. In: Teatro do mundo v.06, 2012. p. 165-174.
DE VARGAS, Ferran. Japan’s New Left and New Wave. An Ideology’s Perspective as an Alternative to That of National Cinema. In: Arts, Multidisciplinary Digital Publishing Institute, 2019.
MARIE, Michel. A Nouvelle Vague. In: Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 30, n. 19, p. 165-180, 2003.

  • Renata Cristina de Oliveira

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