Entrevista com Maria Regina Cândido

Oi gente! A entrevistada dessa semana é a Maria Regina Cândido, Professora Associada do Departamento de História da UERJ.

Profa. Dra. Maria Regina Cândido. Foto: arquivo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Pertenço a uma família mineira que adora contar histórias. Narrar fatos, acontecimentos sempre chamou a minha atenção e me levou a cursar jornalismo. Sou formada em Jornalismo e Editoração pela Faculdade Estácio de Sá. Durante esta período, eu descobri a História e decidi que, ao terminar a formação em jornalismo iria ingressar no curso de História. Ao término do curso, ingressei no curso de História na UFRJ.
Durante o primeiro período do curso tive a grata satisfação de conhecer a professora Neyde Theml. A aproximação foi bizarra, pois ela chegou na sala de aula e perguntou quem tinha carteira de motorista e sabia dirigir. Eu, inocentemente, levantei o dedo. Resultado: ela me entregou a chave de seu carro e pediu para eu buscar o Prof. Jean Pierre Vernant no aeroporto Santos Dumont. Imaginem Neyde Theml e Jean Pierre Vernant juntos, foram palestras maravilhosas e sedutoras. Fui convidada para entregar o grupo de pesquisa em sociedades antigas coordenado pela professora Neyde. Entretanto, havia um grande problema, o grupo de estudo não tinha conhecimento de grego antigo (ático). O problema foi superado com as aulas ministradas pela Profa Silvia Damasceno, docente de Grego Antigo da UFF. Na pós-graduação (mestrado e doutorado), a Prof Neyde detinha a prática de enviar os seus orientados para realizar estágio na EFA (Escola Francesa de Atenas) confesso que foi a minha primeira viagem ao exterior. Depois ingressei como professora de História Antiga na UERJ, fundei o NEA/Núcleo de Estudos da Antiguidade e a Revista Eletrônica NEARCO. E foi assim que a História Antiga entrou em minha vida e permanece até a presente data.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Adoro livros sobre História Antiga, devido a influência da orientadora, tive contatos com a historiografia francesa através dos livros de Jean-Pierre Vernant, Pierre Vidal Naquet e Marcel Detienne. Les origines de la pensée grecque, La cuisine de sacrifice en pays grec, L’individu, la mort, l’amour: soi-même et l’autre en Grèce ancienne, Entre mythe et politiqueL’univers, les dieux, les hommes: récits grecs des origines Paris.  A leitura destes livros e outros, ajudou na compreensão da complexidade da sociedade grega em torno de temas sobre teatro, religião e morte.  
O interesse sobre teatro grego acabou predominando, especificamente, as obras do poeta Eurípides. O universo dos trágicos e do teatro me levou ao ter contato com as obras de Jacqueline de Romilly, La Tragédie grecque, La Modernité d’Euripide.Les Grands Sophistes dans l’Athènes de Périclès. Alcibiade ou les dangers de l’ambition. La Grèce antique contre la violence.
Devo acrescentar também as obras de Claude Mossé com os livros Les Institutions grecques, La Tyrannie dans la Grèce antique,La Colonisation dans l’Antiquité, La Fin de la démocratie athénienne. Aspects sociaux et politiques du déclin de la cité grecque au ive siècle av. J.-C.. Como se pode notar, os livros fazem parte dos clássicos da literatura grega contendo ideias, debates e questionamentos assaz interessantes. Eles foram vitais para minha formação como helenista.
Não posso deixar de mencionar a participação, em minha formação, do eminente Prof. Ciro Flamarion Cardoso que sempre me incentivou a criar métodos que dessem conta da minha documentação (os defixiones) fragmentada. Através de sua supervisão que foram criadas as grades metodológicas de análise especificas para textos e de imagens que hoje aplicamos nas pesquisas sob a minha coordenação. Informações sobre as grades de analise metodológicas foram publicadas pela Profa Claudia Beltão/UniRio no livro A Busca do Antigo.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Atualmente, desenvolvo a pesquisa sobre Gregos e Persas sob a ótica do Ritual da Xênia e da rede de conectividade e hospitalidade nos séculos V e IV a.C.: o caso dos atenienses ( esta pesquisa foi aprovada no processo de seleção de bolsista de Produtividade do CNPq e no Prociência FAPERJ/2020.).  O tema sobre a relação entre os gregos e persas parte da personagem Medeia como fio condutor da pesquisa devido a sua origem oriental demarcado pelos seus trajes persas.
Tenho um profundo apreço por imagens de vasos gregos e as uso como suporte de informação. Considero que a indumentária grega associada à vestimenta dos persas em Medeia funciona como um indício e uma forma de comunicação não verbal de parte da elite de Atenas.
O tema desta pesquisa foi o resultado da viagem que fiz ao Irã, para participar do curso de Arqueologia Antiga a convite da Profa Katia Pozzer/UFRGS. As aulas do curso foram ministradas in loco nos sítios arqueológicos do chamado Império Persa no Irã (Teerã, Shiraz, Yazd, Persepolis, Pasargada, Espharan, Firuzabad) sob a supervisão do arqueólogo Prof. Dr. François Desset da Univeridade de Teerã.
A partir de contatos e informações acabei me aproximado de autores ingleses e russos (que publicam em língua inglesa) que analisam o contato dos atenienses com as regiões do Mar Negro.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Os temas de interesse são vastos como a alimentação no mundo grego e romano, a relação entre magia e religião, conhecer melhor a presença dos gregos no Mar Negro.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo?

Sim, as estruturas físicas do teatro grego em diferentes regiões da Grécia: fiquei impressionada com a acústica do Teatro de Epidauro.
Em Roma, a estrutura do Coliseu é de uma das maravilhas do mundo

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Confesso que sou apaixonada por Medeia. O tema sobre a sacerdotisa de Hécate nos permite refletir sobre o lugar social da mulher migrante, estrangeira e considerada bárbara no mundo grego. Medeia detém muitas imagens magnificas que impulsionara a sua difusão iconográfica nos vasos de cerâmica ática. Considero Medeia uma mulher bárbara que detém o domínio de ervas e drogas mágicas, mulher ativa que não se cala diante do poder masculino, esposa e mãe corajosa que mata os filhos em sacrifício visando transforma-los em deuses.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Seria uma honra receber o poeta Eurípides para passar uma tarde com café, chá e bolo de chocolate, já pensou!!! Gostaria de conversar sobre a situação da mulher em Atenas, tanto a mulher grega quanto a mulher estrangeira assim como a relação entre magia, religião e a circulação das práticas da magia dos katadesmoi, seria divino!!
Gostaria de fazer uma entrevista com Medeia (a grega e a romana), dirimir algumas dúvidas, ouvir os seus relatos de mulher barbara vivendo entre os gregos.
Em Roma, gostaria de conversar com o poeta Sêneca sobre a sua versão da tragédia Medeia, a motivação da escolha e o que tinha em mente, qual a mensagem que desejava vincular através da sacerdotisa de Hécate.

Um comentário sobre “Entrevista com Maria Regina Cândido

  1. Falar de Regina Candido é Falar de Cultura, de Inteligência, de Saber, de Docilidade. Tenho o prazer de Conhecê-la e ter recebido Cartão Postal da Grécia quando esteve lá. Pessoa Batalhadora, que sabe tudo de História, não somente do País, mas de Outros Países. Um Beijo Amiga Querida! ♥️

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