Cleópatra de 1963 construindo a visão coletiva da rainha egípcia

Elizabeth Taylor como Cleópatra. Imagem: divulgação

Em 1963, a empresa americana 20th Century fox lança o filme Cleópatra, com duração de cinco horas e com um orçamento de 31 milhões de dólares, o que pode não parecer muito mas se corrigirmos a inflação isso seriam aproximadamente 263 milhões hoje em dia. Para se ter uma ideiam esse foi o orçamento de Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi, lançado em 2017. Star Wars, somente nos EUA, arrecadou 1.3 bilhões de dólares, enquanto Cleópatra arrecadou apenas 57 milhões e quase levou a empresa a falência. Diante disso, a pergunta aqui é: por que? Po rque 20th Century Studios tomou tamanha aposta com o filme?

Sheldon Hall e Steve Neale nos ajudam a responder essa pergunta em Epics, spectacles, and blockbusters. Segundo os autores, a marca dos anos 60 foi a politica dos roadshows, popularizados pelo filme Os dez mandamentos (1953). Essa era basicamente a prática da venda do filme com assentos sendo reservados, para lucrar com esse método o atrativo do filme seria sua qualidade e proporções, isso explica a longa extensão dos filmes que chocam as audiências atuais acostumadas com filmes de no máximo duas horas e meia, enquanto Os dez mandamentos tem uma duração de mais de três horas. As empresas apostavam em histórias que atrairiam o grande público, em especial o estilo sandália e espada marcou essa era, sendo assim a proposta de retratar um épico deveria retornar os custos gigantescos dessas produções, entretanto isso apenas move a questão de porque Cleópatra? A resposta é simples, porque deu certo antes.

Retratar Cleópatra VII em formato cinematográfico já tinha sido feito antes com grande sucesso em especial as versões de 1917 e 1934. O primeiro é um filme mudo estrelando Theda Bara, o segundo um épico em preto e branco estrelando Claudette Colbert. Em Reception Studies, Lorna Hardwick levanta uma questão essencial para o entendimento dos estudos de recepção, esses passam por diversos filtros através das diversas produções, e as Cleópatra(s) dessa forma se inspiram em suas versões subsequentes, o que é demonstrado pela semelhante estrutura das três histórias que tomam como base a peça shakespeariana Antônio e Cleópatra, a qual data do século XVII, e representa Cleópatra como uma mulher que seduz homens poderosos para a ajudar em seus planos.

Cleópatra de 1963 porém não obteve o sucesso das versões anteriores, retorno Sheldon Hall e Steve Neale para justificar como o fracasso de bilheterias desse filme paradoxalmente o fez tão importante para os estudos de recepção, segundo os autores os executivos agora presos com um filme que nenhuma sala de cinema queria e a empresa passado por problemas financeiros foram forçados a tomar uma solução drástica, vender o filme para companhias de televisão, tal medida recuperou os gastos da empresa, mas também fez algo, marcou o fim de uma era, se antes a politica dos roadshows tinha mantido o cinema como uma comodidade exclusiva o filme para a televisão abriu as portas para o grande público, mas também fez algo a mais esse filme mudou a nossa visão da rainha egípcia.

Nas duas versões anteriores, apesar de ser o nome dela no título, as coisas não acontecem por causa de Cleópatra, elas acontecem para ela. A personagem não é central da trama e sim uma vítima dela. Tanto em 1917 quanto em 1934, a morte da rainha ocorre como um triunfo do vilão Octaviano. Ela morre para evitar as humilhações que sofrerá nas mão dele, Cleópatra morre porque a trama a levou a isso. No último capítulo de sua obra, Hardwick levanta uma questão essencial para o entendimento dos estudos das recepções dos antigos. Toda obra ao dialogar com o presente e com o passado traz novos sentidos para o assunto, o exemplo usado no último capítulo, são os das peças do dramaturgo grego Sófocles.

Camille Paglia vai se referir a Cleópatra como a primeira Femme Fatale e Cleópatra de Elizabeth Taylor é exatamente isso, ela é tudo menos vitima, ao contrário. Todos os membros da trama são vítimas dela, seu intelecto assim como sua sedução formam a marca de seus planos. A personagem é bela, maquiavélica e acima de tudo perigosa, até mesmo a sua morte é uma ação ardilosa que fracassa o plano de Octaviano. Conforme explica Hardwick, as recuperações dos antigos formam as imagens deles frente ao grande público, mas isso é possível somente se essa interpretação atingir o grande público. Se hoje em dia continua-se a discutir a interpretação de Taylor quanto as questões de, como por exemplo, raça e gênero, é porque esse filme foi capaz de marcar uma geração. Mais do que abrir um épico para o grande público, ele também formou a visão coletiva de Cleópatra VII. O filme talvez não tenha sido um sucesso de bilheterias, mas por causa disso ele tornou-se o memorável clássico que ainda é motivo de debate cinquenta anos após seu lançamento.

Referencias

HARDWICK, Lorna. Reception studies. 2003.

HALL, Sheldon. NEALE, Steve.Epics, spectacles, and blockbusters: A Hollywood history. Wayne State University Press, 2010.

  • Vitor Gabriel Maidl

Um comentário sobre “Cleópatra de 1963 construindo a visão coletiva da rainha egípcia

  1. Muito bem-vindas essas postagens sobre recepção e cinema. Obrigada. Uma sugestão sobre Cleópatra: uma postagem sobre o filme do Bressane, que fez uma pesquisa (por muitos anos) muito cuidadosa sobre a rainha (aliás, valeria a pena uma pesquisa sobre o trabalho/acervo dele) Bressane possui um material iconográfico muito rico, como ele indicou nessa mesa redonda organizada pela Renata Cazarini: https://cineclubematrizesclassicasuff.wordpress.com/biblioteca/

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