O Rasgar da Tecedura Neoclássica: A Moda e a Antiguidade por Emma Hart

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Hoje iniciamos a publicação de nossos textos temáticos voltados para os Estudos de Recepção na moda. Assim, decidimos por partir do contexto de evocação neoclássica das tendências na indumentária, considerando um recorte histórico que envolve os séculos XVIII e XIX. Afinal, como nos fornece a leitura de Rhinehart (2021), são esses períodos históricos marcados pela constituição de uma moda expressamente receptora de elementos greco-romanos. Tal tendência fora, conforme demonstra o autor, introduzida no mundo europeu a partir do foco napolitano setecentista, ao que refletimos sobre uma possibilidade concreta de afiliação histórica ao momento do encontro das ruínas de Pompeia. Integraria, assim, uma tendência de chamamento artístico das imagens da cidade soterrada, de criação de uma temática criativa aos oitocentos, tal qual o estudado por Romero-Recio (2010). 

É, desse modo, no entremeio desse arcabouço visual que a moda neoclássica se fundamenta, tratando da cultura material em suas criações estéticas, a exemplo do uso de colunas no vestuário à la grecque. Extrapolando os limiares europeus, a nova moda teria efetiva encarnação nas expressividades das chamadas “estátuas viventes”, pessoas que agem de modo a tomar e a incorporar na vida cotidiana a indumentária encontrada em esculturas clássicas. Porém, vale ressalvar aqui o fator de que, como todo movimento receptivo, essa apropriação não se dá em termos estritos, mas sim de acordo com leituras atuais sobre esse passado, adequando-se suas funcionalidades e ideais ao tempo presente. Sendo assim, podemos considerar como ecoam tais assimilações sob os signos de um estilo, vocábulo apropriado segundo as designações de Miller (2013). É, pois, um caminho de exteriorizar a individualidade, de convocar caracteres para uma definição de subjetividade, especialmente cunhada, aqui, a partir dos aspectos de uma época passada. 

Em tal linha, podemos encontrar, então, a relevância da agência feminina na produção modista a partir de seus desvelos para com a apropriação de elementos neoclássicos. Tendo como panorama histórico as sociedades europeias do século XVIII e XIX, notamos como essa absorção da materialidade greco-romana se dá em movimentos ora de correspondência, ora de rompimento, no que tange aos padrões comportamentais esperados às mulheres. Por conseguinte, nos deparamos, nesse grande palco contextual, com a figura de Emma Hart, também conhecida como Lady Hamilton, uma personagem essencialmente transgressora ao se revestir da Antiguidade. Isso pois, ao fazê-lo, não se limitava a manter seus componentes à superfície, mas os incorporava devidamente à orientação do agir pessoal, dando bases concretas à uma performance

Por essa forma, a dama inglesa usou da moda de modo a entrelaçar suas atitudes ao passado, cuja exibição faz-se sentir sob os impactos de sua encenação corporal no seio das representações teatrais e cinematográficas dos finais do século XIX e início do século XX (BREWSTER; JACOBS, 2016). Com isso, visualizamos como a roupa torna-se não apenas continuidade do corpo, como examina Miller (2013), mas peça formante da corporeidade. Estátua vivente, Emma Hart, à atuação diante de seus convidados, conforme relata Romero-Recio (2010), fingia-se alegorias e mitos de Roma e Grécia, em atitudes que seriam retratadas e a levariam a ser modelo para outras moças, de seu tempo e da posteridade. Assim, ao aliar indumentária e representação performática, fundou moldes de atuação feminina inovadoras, repensando as possibilidades de apropriação greco-romana na moda. Foi, portanto, um extrapolar do Neoclássico, um rasgar de seus tecidos entrelaçados à trama social vigente, nomeadamente efetivado com sua ação de “estátua viva”, ou seja, com sua performatividade – tema este que será aprofundado em futuras publicações. 

Referências:

BREWSTER, Ben; JACOBS, Lea Acting. In: _____. Theatre to Cinema: Stage Pictorialism and the Early Feature Film. Oxford: Oxford University Press, 2016. p. 65-110.

MILLER, Daniel. Por que a indumentária não é algo superficial. In: _____. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. p. 21-65.

RHINEHART, Robert. Romans on the Runway: Classical Reception in Contemporary High Fashion. 2021. 86f. Tese (Senior Honor em Estudos Clássicos) – Departamento de Clássicos, University of North Carolina, Chapel Hill, 2021. 

ROMERO-RECIO, Mirella. Pompeya: Vida, muerte y resurrección de la ciudad sepultada por el Vesubio. Madrid: La Esfera de los Libros, 2010. 

  • Heloisa Motelewski 

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