Jean Paul Gaultier: Subversão do “Clássico” e do Corpo

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Jean Paul Gaultier é considerado um dos maiores estilistas da contemporaneidade. Desde o início da carreira na década de 1970, Gaultier tornou-se respeitado pelo seu uso de materiais não-convencionais e por suas subversões de vestimentas – como o icônico sutiã de Madonna e a saia masculina (kilt). Estas transgressões no uso da vestimenta são características do estilista, que prova e quebra determinados estereótipos de gênero a partir da vestimenta. 

Em sua coleção prêt-à-porter de 1999, Gaultier evoca a Antiguidade Clássica na passarela e na composição de suas roupas. Utilizando-se do artifício trompe d’oeil, um jogo de luzes e sombras do próprio tecido, o estilista reproduz imagens de estátuas de deusas antigas para criar um efeito de fragmentação – tanto do tecido como do próprio corpo representado. Um tema presente nesta coleção são as esculturas da Antiguidade Clássica, sempre representando mulheres. Na indumentária produzida por Gaultier, temos a representação em forma de imagem de um artefato arqueológico, a escultura. A representação na indumentária do artefato arqueológico opera um diálogo com a escultura, visto que esta é uma das formas de apreensão da moda do que se entende como o corpo, a moda e as texturas da Antiguidade Clássica.

Podemos entender o uso que Gaultier faz do modelo de escultura clássica em sua coleção prêt-à-porter a partir de duas perspectivas. A primeira é uma subversão da alta cultura, visto que esta, ao mesmo tempo em que define o parâmetro da moda, imediatamente descarta o uso de um item quando se torna popular. A biografia de Gaultier indica, dentro desta perspectiva, a busca por inspirações de diferentes movimentos culturais e estéticos populares, transformando sua própria alta costura em um receptáculo das formas daí advindas. Nesse sentido, JPG opera uma dessacralização da alta costura, incorporando o popular dentro dela. 

A segunda perspectiva diz respeito ao tratamento específico da escultura antiga e da retomada da Antiguidade realizada por Gaultier. A alta costura apropria-se do que é antigo como uma forma de demonstrar continuidade diante da efemeridade mercadológica de sua própria indústria e, ao fazer isso, também realiza uma leitura sobre essa Antiguidade, transformando-a em algo não-popular. JPG, por sua vez, brinca com estas ideias, dessacraliza também a Antiguidade Clássica trazendo-a para seu prêt-à-porter e transforma a relação com a nudez.

A sexualização exacerbada do corpo, especialmente feminino, que precisa constantemente ser coberto e controlado, é repensada a partir das esculturas antigas. Estas representam uma nudez natural e poderosa, transformando quem veste, em alguma medida, em uma representação em partes dessas deidades. Há uma subversão na lógica dos sentidos: a escultura, enquanto artefato, representa a nudez. A indumentária, por sua vez, é utilizada para “cobrir” a nudez do corpo, mas ao mesmo tempo representa uma nudez entendida como “clássica” – logo, ela cobre mas também revela certa potência na relação entre o corpo contemporâneo e o artefato antigo.

Além das esculturas, Gaultier utiliza-se da estética dos grafites antigos em algumas peças. O grafite, elemento comum tanto na Antiguidade como na contemporaneidade, pode ser entendido como uma referência imagética popular, trazendo mensagens como amor e safe sex (sexo seguro), demonstrando outras camadas de relação com o século XX. A partir destes exemplos, podemos entender o uso da Antiguidade Clássica nesta coleção de Gaultier a partir de uma noção de ciclo de tendências – a apropriação contemporânea funde-se aos mitos e significados contemporâneos, criando uma peça própria de seu tempo, mas com o objetivo de ser atemporal. Quem a veste, também pode inspirar em si uma própria aura de deidade e de poder. Tudo isso, entretanto, sem que as peças estejam dentro de um ideal inalcançável de alta moda – elas permanecem com seu caráter popular e pronto para vestir.

Referências

BESNARD, Tiphaine A. La Vénus de Milo  dans l’art contemporain (de 1980 à nos jours) :

une icône globalisée. In: thersites 13 (2021): Antiquipop, pp. 84 – 99.

RENAULT, Marnon. Antiquités et pop cultures dans la haute couture et le prêt-à-porter des années 2010. In : thersites 13 (2021) : Antiquipop, pp. 125 – 140.

  •  Ingrid Cristini Kroich Frandji

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