Os Clássicos na Moda do Funk e do Rap – Texto 1: Ressignificando o Luxo de Versace

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

A Versace, marca italiana da moda de alto luxo e uma das maiores do ramo, traz em sua identidade visual um logotipo bastante conhecido, a cabeça da Medusa. O designer fundador da assinatura, Gianni Versace, teve uma infinidade de inspirações do passado clássico na construção da personalidade de sua marca principalmente pelo local onde nasceu. Reggio di Calabria, região de forte presença grega e romana na antiguidade, forneceu a Gianni diversas fontes imagéticas para que fundasse a Versace em 1978 em Milão.

Tradicionalmente no mito grego antigo, a Medusa era uma górgona, espécie de criatura de aparência grotesca e rude que transformava em pedra aqueles que a olhassem diretamente nos olhos. Com o passar do tempo, a imagem da Medusa foi se transformando de monstro em uma bela e atraente mulher. A presença de cobras no lugar dos cabelos só aparece mais tardiamente e é associada à descrição do poeta romano Ovídio. De acordo com o relato, dada a sua expressiva beleza e, por ciúmes de Atena, foi condenada a carregar serpentes no lugar das madeixas. As representações imagéticas antigas do mito foram se alterando ao longo da história apesar de continuarem sendo bastante populares. Dessa forma, a Medusa carrega consigo até hoje a ideia de uma beleza mística, que chama atenção e atrai, mas deve ser observada com cuidado.

Na Versace, desde seus primeiros desfiles até os mais atuais, é bastante comum encontrarmos a Medusa estampada nas mais variadas peças da marca. Sem cobras na cabeça mas com um rosto bastante harmonioso, se faz presente nos designs mais luxuosos, que chamam atenção pela extravagância, cores e pelas estampas nada discretas. O logotipo carrega mundo afora uma nítida recepção dos clássicos. Em contrapartida, estando atrelada ao mercado de luxo de alto valor e, destinada a um público de elevado poder aquisitivo, o uso do passado antigo, nesse caso, acaba também por reforçar o molde do clássico como sinônimo de excelência, pureza e superioridade.

Por outro lado, tais elementos podem ser totalmente adaptados e ressignificados quando absorvidos por outras culturas ou grupos de expressão artística, como é o caso do Funk e do Rap na proposta deste texto. Tanto o Funk atual, propriamente brasileiro, como o Rap nacional e internacional, têm sua origem na música negra americana de meados do século XX. Por se tratar de um gênero nascido e desenvolvido por grupos afro-descentes e de posições mais desfavorecidas socialmente, os artistas retratam com maestria as vivências dos lugares onde cresceram. É bastante comum nas letras, tanto do Funk como do Rap, estarem presentes histórias reais ou fictícias de personagens que sofreram severas opressões, sobretudo pela questão racial e econômica, e que ascenderam socialmente através da música. 

Exibir uma “vida boa” e cantar bens conquistados através do esforço de seu trabalho é um plano extremamente comum nestes gêneros. Casa, carro, jóias e roupas figuram entre os principais. A frase que figura como símbolo desse tema é “a favela venceu”. Entretanto, nesse quesito, é de extrema importância pensar que, a cultura material, para além de uma visão simplista, constitui também o sujeito e o coletivo em suas realidades. Ou seja, a “ostentação” do Funk não é superficial, mas remete a toda a trajetória e experiências de vida dos artistas. 

Hoje é mais comentado

Pilotando um importado

Degustando um destilado

Na certa, é favela

Afirmou que tô mudado

Elegante enjoado

Mais pra frente, mais ousado

Na chave de quebra

Trecho de “Pois é” de Oldilla com participação de MC Kadu, MC Paiva, MC Lemos, MC GP e MC Dena. 

Nessa visão, a moda é objeto fundamental de tal lógica. Retomando a Versace, marca extensivamente usada por cantores do Rap e do Funk e que se tornou tema de títulos e letras como em “Colar da Versace” de Mc Hariel e Andressinha ou “Versace” do trio americano de rap Migos (entre outros tantos exemplos), é um símbolo da conquista de um elevado padrão de vida. Entre as indumentárias de destaque da marca está o tênis Chain Reaction, desenvolvido pelo designer norte-americano Salehe Bembury e acompanhado pelo rapper 2 Chainz em sua campanha. No modelo, são expostos elementos de inspiração claramente antiga, como chaves gregas e um solado que parece remeter ao branco dos idealizados mármores greco-romanos, mas que materializa o formato das famosas correntes “cubanas” usadas por rappers e MCs do funk. No Brasil, o cantor MC Davi, um dos mais destacados da cena, traz em seu guarda roupa 9 pares de diferentes cores e estampas da silhueta do Chain Reaction. 

Pensando propriamente a recepção dos clássicos, o uso de marcas como a Versace por artistas de origem humilde nos propõe uma nítida subversão de um discurso de ordem e excelência. Se elementos da antiguidade clássica foram e ainda são matéria de legitimação de relações de poder, quando transportados para outros contextos culturais, são capazes de alterar um modelo hegemônico e atribuir novos significados a estes mesmos itens. O ideal construído de pureza grega agora toca o chão das favelas e ghettos. 

Rapper 2 Chainz usando Versace – Fonte da Imagem: Site oficial da Versace.

Referências:

SETTIS, Salvatore. The Future of the ‘Classical’. Tradição de: Allan Cameron. Cambridge: Polity Press, 2006.

MILLER, D. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

  • Guilherme Bohn dos Santos

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