PINK FLOYD NAS RUÍNAS DE POMPEIA: QUANDO A PSICODELIA SE ENCONTRA COM A ANTIGUIDADE

Dando continuidade ao tema de reconfiguração de Pompeia no mundo musical, hoje nosso texto se dispõe a analisar a psicodelia, sutilmente aplicada aos níveis da visualidade a partir de cortes e recortes, de uma mescla desordenada de elementos óticos, já vistos na obra de Madimboo (para saber mais, clique aqui), em outras composições. Aqui, tomaremos como centro de nossos olhares – ou, melhor, de nossa escuta – a produção de Pink Floyd realizada nas ruínas de Pompeia (1972), que servirá como ponto de reflexão sobre a repercussão de uma “psicodelia sonora” nos e sobre os ambientes pompeianos. 

Pink Floyd foi uma banda inglesa, formada em Londres no ano de 1965. Conhecido como um grupo musical de rock psicodélico e também de rock progressivo, destacou-se principalmente pela composição de músicas longas, pela experimentação sonora e por letras críticas e filosóficas. Seu primeiro álbum, “The Piper at the Gates of Dawn”, foi lançado em 1967 e chegou a ser o sexto álbum mais vendido do Reino Unido. Desde esse primeiro momento, o grupo musical já explorava letras e passagens instrumentais psicodélicas, fazendo uso da guitarra elétrica e cantando acerca de temas fantasiosos e imaginários como gnomos e contos de fadas. Com a saída do vocalista e guitarrista Syd Barret do grupo em 1968, Roger Waters tornou-se o letrista principal e liderou a produção de álbuns de grande sucesso como “The Dark Side of the Moon” (1973); “Wish You Were Here” (1975); e “The Wall” (1979); todos os três posteriores ao concerto realizado nas ruínas de Pompeia. 

“Pink Floyd: Live at Pompeii” foi um concerto realizado em 1971 e lançado em 1972. Foi dirigido por Adrian Maben, que também teve a ideia de produzir a apresentação da banda em um anfiteatro romano presente em Pompéia. A gravação durou quatro dias e os músicos realizaram um espetáculo ao vivo comum ao que se era feito no período, com exceção de que não havia público no local além da equipe de filmagem. Dentre as músicas que são apresentadas no lançamento do concerto estão: “Echoes”; “Careful With That Axe Eugene”; “A Saucerful Of Secrets; “One Of These Days I’m Going To Cut You Into Little Pieces”; “Set The Controls For The Heart Of The Sun”; “Mademoiselle Nobs”.

Enfatizando as tragédias dos últimos dias de vida da cidade romana, o grupo musical parece, pois, retomar os paradoxos desse destino. O qual, conforme já visto na publicação anterior de Paul e Hales (2011), constitui-se como fator elementar da agitação romântica setecentista e, por consequência, um motivo essencial na retomada da narrativa pompeiana desde então. Ao Pink Floyd integrar o respectivo passado romano em sua produção, a banda acabou por refletir também sobre a continuidade de Pompeia, essa proveniente de uma súbita desaparição – causada pela erupção do Vesúvio. Por consequência, a produção musical se fez capaz de repensar a vivência moderna entre as ruínas romanas, possibilitando refletir sobre uma experiência que se inclui, ao mesmo tempo, em resquícios de uma temporalidade passada e em aspectos de uma vivência de atualidade. 

Nessa mesma linha, nos é interessante perceber que por parte do grupo, existe a recolocação das imagens de Pompeia sob representações oníricas, entre os embates da realidade e da ficção, da vida e da morte, do passado e do presente, ecoando uma fruição imaginativa romântica, tal qual constatado por Recio (2010). Aproximam-se desse caminho o sonho e a morte, trespassados pelos reflexos psicanalíticos deflagrados pelas ambivalências comuns à mente humana e à ressurreição de suas ruínas. Como exemplo, no concerto de Pink Floyd, podemos citar a contraposição da convivência entre o passado, simbolizado nas ruínas, e o presente, expresso visualmente sob a colocação de equipamentos técnicos e de performance em seu anfiteatro. Além disso, a inserção de imagens da cultura material da cidade (como entre os minutos 19:45-20:10) parece, de igual forma, evocar um sentimentalismo sobre o contraditório fim dos espaços pompeianos. 

Por meio de tais conexões, podemos, pois, argumentar que tais elementos, figurados sob representações literárias e psíquicas e perpetuados sobre as dualidades inerentes ao passado e ao presente pompeiano, tornam a ser evocados pelo grupo musical britânico, mas sob uma espécie de “transcrição” desenrolada por uma percepção sonora única. Afinal, sob uma insinuante criatividade atrelada ao mundo dos sonhos, do subconsciente e do inconsciente, cria-se nessas canções performadas no limiar dos vestígios de Pompeia, uma sonoridade que aparenta almejar um novo contato com os “fantasmas” da cidade. Desse modo, é perceptível como acabam por lançar uma percepção musical singular e inovadora no tocante a esse evento da Antiguidade romana, embasada em sons que, perturbando os sentidos, remetem ao mundo dos sonhos através de um ritmo de iminente psicodelia. Como um exemplo desse caráter inaugural, podemos apreender a repercussão dessa musicalidade desde uma sincronia sonora encontrada no álbum “Pompeii” de Triumvirat (1977), cujos ritmos nos recordam, abertamente, uma mesma evocação psicodélica e onírica do passado pompeiano. 

Referências:

PAUL, J.; HALES, S. Introduction: Ruins and reconstructions. In: _____ (Ed.). Pompeii in the Public Imagination from its Rediscovery to Today. New York: Oxford University Press, 2011. p. 1-14.

RECIO, M. R. Pompeya: Vida, muerte y resurrección de la ciudad sepultada por el Vesubio. Madrid: La Esfera de los Libros, 2010.

Link dos vídeos:

Vídeo: “Pink Floyd Live at Pompeii Full”:

Vídeo “Echoes”, Pink Floyd: https://www.youtube.com/watch?v=PGwPSPIhohk

New Triunvirat, Pompeii: https://www.youtube.com/watch?v=ao7YZDmED6k

  • Barbara Fonseca
  • Heloísa Motelewski

Cantando o Desastre: A Recuperação das Imagens sobre os Últimos Dias de Pompeia na Musicalidade Contemporânea

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Por certo, a popularidade de Pompeia está reconhecida em seu destino trágico, em sua paradoxal destruição e conservação pelas obras do Vesúvio. Por isso, não é estranho ouvir narrativas musicalizadas sobre esses eventos pompeianos, os quais, dramatizados e metaforizados, passaram a ser parte das letras de músicas dos mais variados gêneros, tais como o pop, o folk e o MPB. A exemplo de cada um desses estilos, hoje trabalharemos brevemente com as produções de Bastille, de Spaccanapoli e de Madimboo, grupos cujas canções, transitantes entre esses distintos gêneros, abordam, sob diferentes perspectivas, os últimos dias da vida da cidade romana. 

Iniciando pelo hit da banda inglesa, com o sugestivo título “Pompeii”, parte do álbum “Bad Blood” (2013), são reveladores seus anseios de reavivamento dos “fantasmas” pompeianos. Incitando sua trama a partir de um diálogo entre duas das vítimas do vulcão, como indicado por Nĕmčíková (2021), os compositores ecoam, ainda, as noções de uma purgação dos “pecados” de seus conterrâneos: “Oh where do we begin? / The rubble or our sins? / And the walls kept tumbing down / In the city that we love / Grey clouds roll over the hills / Bringing darkness from above” (Em tradução livre: “Oh por onde começamos? / Pelos destroços ou por nossos pecados? / E as paredes seguiram caindo / Na cidade que amamos / Nuvens cinzas rolando pelas colinas / Trazendo a escuridão de cima”). Porém, é extremamente interessante notar como repassam a ação justiceira às mãos das próprias divindades romanas, formando, assim, uma curiosa apropriação da tradição providencialista que, em um caráter essencialmente religioso e cristão, fora principiada entre os românticos da literatura oitocentista. 

Vídeo da música Pompeii, de Bastille (2013)

Nessa mesma linha poética, que desvenda a ação vulcânica como caminho de purgação, encontramos a música “Vesuvio”, do álbum “Lost Souls” (2012) da banda napolitana Spaccanapoli. Um grupo musical dedicado à retomada do passado italiano e da tradição mediterrânica, em performances nos moldes da tarantella e frones, são suas produções essencialmente contextualizadas pelo movimento contracultural italiano. Afinal, conforme apreendido através do histórico delineado por Vacca (2012), é perceptível sua integração na tendência de uma reformulação da música folclórica e tradicional napolitana, reanimando, no entremeio dos processos de globalização, a força dos dialetos locais à musicalidade. Integrando, por esse modo, um cenário contestador, a canção se dirige ao poder destruidor erigido sob a égide do Vesúvio: “Você é o purgador de todo esse povo / que vive em favelas e que vive em necessidade, e ainda, aonde devemos ir? / Antes que o dia amanheça / o rio de lava nos arrastará e nos deixará sem casa / Você é uma montanha, mas que montanha!” (Em tradução livre do inglês1). Dessa forma, pode-se pensar em uma recontextualização do passado destruidor do vulcão, articulada de modo a tecer críticas pertinentes às questões sociais atuais da Itália. 

Vídeo com a gravação da música Vesuvio, de Spaccanapoli (2012)

Por fim, e em um sentido distinto, o grupo musical pernambucano Madimboo, em seu álbum “Flertar é Humano” (2019), recorre aos “Últimos Dias de Pompéia” para refletir sobre as relações amorosas, metaforizando seus percalços e desilusões. Em uma estética e em uma sonoridade de insinuante psicodelia, como observado por Pinheiro (2019), seus produtores retomam a aura onírica da cidade. Mais essencialmente, porém, nos parece haver um realce na retomada das ambiguidades do destino de Pompeia, um dos motivos principais das representações da cidade exterminada e, ao mesmo tempo, preservada, como visto por Paul e Hales (2011). De mesmo modo, chama a atenção o sentimentalismo incontrolável, talvez em uma outra continuidade do ideal romântico sobre o descontrole das ações vesuvianas: “Pode guardar teu latim / Guardei o teu lugar […] Cai o céu entre os meus braços / E o que o sentimento / Não controla / Coração dentro do ventre / O mesmo engano / Me apavora”. 

Videoclipe da música Os Últimos Dias de Pompéia, de Madimboo (2019)

Traçando algumas últimas considerações, gostaríamos de realçar como a manifestação musicalizada sobre as narrativas voltadas ao fim de Pompeia, expressas nos mais diversos gêneros musicais, mantém viva, em seu conjunto, uma noção de providencialismo, de vivacidade do poder da natureza, de animosidade do furor punitivo do Vesúvio. Assim, veiculam os “mitos pompeianos” (ST. CLAIR; BAUTZ, 2012), originários em sua fama pelo romantismo vitoriano de Lytton, pelas tragédias das ficcionais vidas de Nídia, Ione e Glauco.

Notas

1 Letras consultadas em: https://www.allthelyrics.com/forum/showthread.php?t=104769.

Referências

MURARO, Cauê. Baterista do Bastille defende hits e diz que banda tenta ‘ir além do óbvio’. Disponível em: <http://g1.globo.com/musica/lollapalooza/2015/noticia/2015/03/baterista-do-bastille-defende-hits-e-diz-que-banda-tenta-ir-alem-do-obvio.html>. Acesso em: 13 nov. 2021.  

NĔMČÍKOVÁ, Hana. Intertextuality and Popular Music: Bastille. 2021. Tese (Bacharelado) – Faculdade de Humanidade, Tomas Bata University in Zlín, 2021. 

PAUL, Joanna; HALES, Shelley. Introduction: Ruins and reconstructions. In: _____ (Ed.). Pompeii in the Public Imagination from its Rediscovery to Today. New York: Oxford University Press, 2011. p. 1-14.

PINHEIRO, P. H. Em dançante disco de estreia, trio pernambucano Madimboo prova que “Flertar é Humano”. 2019. Disponível em: <https://www.tenhomaisdiscosqueamigos.com/2019/10/28/madimboo-flertar-humano/&gt;. Acesso em: 13 nov. 2021.

REAL World. Spaccanapoli – Real World Records. Disponível em: <https://realworldrecords.com/artists/spaccanapoli/>. Acesso em 13 nov. 2021. 

RECIO, Mirella Romero. Pompeya: Vida, muerte y resurrección de la ciudad sepultada por el Vesubio. Madrid: La Esfera de los Libros, 2010. 

ST CLAIR, William; BAUTZ, Annika. Imperial decadence: the making of the myths in Edward Bulwer-Lytton’s The Last Days of Pompeii. Victorian Literature and Culture, n. 40, p. 359-396, 2012. 

VACCA, Giovanni. Music and Countercultures in Italy: the Neapolitan Scene. Volume!, v. 9, n. 1, 2012. ]

  • Heloisa Motelewski

Entre Hades e o Inferno: Como o Metal Traduz a Antiguidade para o Presente

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Ao falar da antiguidade grega existe sempre um problema de conexões de como traduzir os temas dos mitos para uma audiência do século 21. Hades é um dos casos mais peculiares sendo o nome de ambos o deus do submundo grego e do próprio submundo, no curta-metragem de animação produzido pela Disney: A deusa da primavera (1939) o deus dos mortos aparece vestindo roupas vermelhas e chifres tendo uma aparência que remete as representações de satã, além do que o submundo aparece com vastos campos de fogo, criaturas que parecem demônios caricaturados sendo algo que remete muito ao inferno cristão. A representação mais famosa da Disney de Hades aparece porém em Hércules(1997) que apesar de usar a versão romana de seu nome uma vez que a escrita do semideus em grego era: Héracles é baseado na mitologia grega, o deus Hades é o principal vilão do filme e aparece como traiçoeiro e maquiavélico em seu papel como antagonista que visa usurpar o papel de rei dos deuses de seu irmão Zeus, a autenticidade do filme com a mitologia grega é questionável uma vez que Zeus mesmo aparece como um fiel e devoto pai de família, algo que qualquer pessoa que já leu algum mito grego acharia absurdo. Apesar de o filme não fazer explícitas associações entre o deus Hades e o diabo cristão, o filme ainda faz aproximações, em especial com Agonia e Pânico os lacaios do deus que novamente remetem a demônios cristãos caricaturados.

A associação de Hades com o diabo é algo comum e não é exclusivo nem da Disney nem do cinema. O mesmo ocorre nos videogames, por exemplo, na série God of War o deus é uma figura colossal, monstruosa e deformada com um elmo que apresenta chifres e um submundo encoberto por chamas, o Jogo Hades (2020) não difere dessa conexão onde em especial o segundo mundo Asphodel apresenta rios de lava, é descrito como “fedendo a enxofre”, apesar de o inferno ter diversas interpretações a discrição: “Fogo e enxofre” encontrada em especial no livro do apocalipse é a mais comum. No videogame Hades é então possível ver que apesar das diversas figuras gregas a aproximação do submundo com o inferno é perceptível, essa fusão que não escapou aos desenvolvedores, Darren Korb o compositor das músicas do jogo e dublador de Zagreus o protagonista do jogo disse “I wanted Hades to have a metal rock component because it’s in hell. It’s just right there for the taking” o que em uma tradução de minha autoria ficaria algo como: “Eu queria que Hades(o jogo) tivesse um componente de rock metal porque se passa no inferno. Faz todo sentido” chegamos então ao tema desse segmento a música e aqui vemos uma interessantíssima conexão a do inferno com o metal.

Tal conexão é pouquíssimo surpreendente, afinal o rock metal normalmente apresenta um profundo teor anticristão e em especial anticlerical, e o que pode ser mais anticlerical do que o diabo e o inferno? A antiguidade e em especial a mitologia também são elementos do metal em especial do Black Metal, Christodoulos Apergis discorre sobre isso no terceiro capítulo de Classical antiquity in heavy metal music, capítulo esse intitulado “Screaming Ancient Greek Hymns: The Case of Kawir and the Greek Black Metal Scene” explica que a associação com a mitologia e com os rituais pagãos gregos é necessário lembrar que a música tinha papel central nas praticas religiosas da antiga Grécia, os hymms referidos eram canções feitas para exaltar a glória dos heróis e deuses da mitologia. O Black metal, que comumente faz referências satanistas, torna mais aparente que ao tomar inspiração da mitologia grega tem a intenção de o fazer a partir da rejeição do cristianismo ao exaltar os rituais pagãos, e nesse ponto a relação do metal com do paganismo começa a fazer sentido se levadas pelo teor do anticristianismo encontrado no Black Metal.            

Até onde sabemos Darren Korb não teve a intenção de inserir um conteúdo explicitamente anticristão ao produzir a trilha sonora de Hades, porém ao o fazer ele bebe de todas essas questões e nesse ponto quando se ouve uma lira sendo harmonizada com uma guitarra elétrica após passar a frustração de morrer pelas mãos do minotauro pela centésima vez, possamos pensar em como nossas visões de passado e antiguidade também são permeadas por questões presentes, como as figuras mitológicas aparecem para nós e como a música possibilita fazer sentido a todas essas relações. E, ao ver que as associações de Hades com o diabo e do submundo com o inferno muito longe de naturais estão em um âmbito da recepção e do uso dos clássicos, é também possível entender nosso papel na construção dos sentidos que damos as coisas que parecem ser tão distantes.

Referências

APERGIS, Christodoulos. Screaming Ancient Greek Hymns: The Case of Kawir and the Greek Black Metal Scene. In: FLETCHER, K. F. B.; UMURHAN, Osman (Edição). Classical Antiquity in Heavy Metal Music. Londres: Bloomsbury Publishing, 2019. p. 77 – 96.

QUILLFELDT, Thomas. How rock band influenced hades’ soundtrack. Laced, 26 de Jan de 2021. Disponível em: <https://www.lacedrecords.co/blogs/news/how-rock-band-influenced-hades-soundtrack> Acesso em 10 de Nov. de 2021.

  • Vitor Gabriel Maidl

O Mito de Sísifo em Andrew Bird

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Olá, pessoal! Dando seguimento na temática de música e recepção, no post de hoje pretendo trazer reflexões de como a questão mitológica aparece no cenário indie e alternativo. Muitas bandas e artistas desses gêneros trazem referências aos antigos e a mitologia, como é o caso da cantora Björk, com sua música de título Venus As A Boy, ou com a banda Peach Pit na música Alright Aphrodite, ainda na canção Persephone da banda Tamino, enfim, esses são só alguns exemplos de como a mitologia pode ser encontrada no cenário das músicas indies. Porém, pretendo somente tratar de um caso, do cantor e compositor Andrew Bird, que em algumas de suas canções faz alusão à temática mitológica, como em sua composição mais famosa que leva o nome de Sisyphus, em alusão ao mito de Sísifo.

Sísifo é o personagem mitológico, descrito como um homem de esperteza notável, filho de Éolo e rei da Tessália. Ele teria desafiado os deuses e recebido então um castigo pior que a morte, sendo obrigado a empurrar uma pedra para o topo de uma montanha, ao chegar ao topo a pedra rolava para baixo da montanha e Sísifo havia de recomeçar o trabalho, assim incessantemente. O personagem mitológico ficou bastante conhecido pela retomada que o filósofo argelino Albert Camus faz de sua narrativa, a recuperação do personagem se faz para tratar a respeito de questões existenciais, se a vida valeria ou não ser vivida, onde o filósofo discorre a respeito de questões da modernidade, como a relação do homem com a rotina, do sentimento absurdo causado pela relação de estranheza do homem com o mundo, das fugas para tal sentimento, chamadas por ele de “saltos”, e de diversas questões a respeito da modernidade. Em sua narrativa ele transforma o personagem em um herói do absurdo que cumpre sua fatídica tarefa, superando o sentimento de desrealização com o mundo e positivando seu castigo, como coloca Camus “É preciso imaginar o sísifo feliz”.

Na música do cantor e compositor norte americano, que faz parte do seu álbum denominado “My finest work yet” de 2019, a questão da tarefa de Sísifo é explorada, porém diferente da narrativa de Camus. Andrew apresenta outras opções para o personagem, onde já na primeira estrofe da música, questiona: “Did he jump or did he fall as he gazed into the maw of the morning mist?”, em tradução livre seria: “Ele pulou ou caiu enquanto olhava para o abismo da manhã enevoada?”, Bird continua a música dizendo que “ele levantou os pulsos dizendo ‘para o inferno com isso’, e  só deixou a pedra rolar?”; nessa versão do mito, Sísifo não cumpre seu castigo, deixando que a pedra rolasse, esmagando tudo que se encontrava abaixo, sendo o refrão da música: “Let it roll, let it crash down low /There’s a house down there but I lost it long ago /Let it roll, let it crash down low /See my house down there but I lost it long ago/ Lost it long ago”, ou seja na versão de Bird, Sísifo não cumpre seu castigo, mas salta para o abismo, deixando a pedra rolar cidade abaixo, Andrew Bird diz “A história esquece os moderados/ aqueles que sentam recalcitrantes e taciturnos/ Você sabe eu prefiro voltar e queimar do que escalar esse edifício.” Na versão de Bird, diferente de Camus, é preferível o salto e a revolta do que aceitar o castigo imposto pelos deuses, Sísifo prefere voltar para o castigo no submundo a se entregar a tarefa absurda de empurrar a pedra para o topo novamente.

Esse é só um exemplo de como os mitos podem ser retomados na música. Aqui a questão é de cunho existencial, mas como citado muitas outras bandas e cantores apresentaram suas versões sobre os mitos em diversas de suas letras, abordando diferentes temáticas com suas reflexões, propondo então leituras diferente de narrativas antigas que podem trazer muitas considerações sobre temáticas não somente referente a antiguidade, mas também com o cenário contemporâneo.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

Prometeu Negro: A recepção do mito clássico no rap

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O rap (ritmo e poesia), em linhas gerais, é a expressão musical do movimento Hip-Hop, uma cultura essencialmente negra e periférica desde sua origem, surgida nos guetos dos Estados Unidos e com influência jamaicana e africana. No Brasil, não foi diferente. Aqui, o rap ganhou notoriedade com o fenômeno dos Racionais Mc’s, verdadeiros cronistas da época que traziam em suas punchlines¹ o cotidiano da periferia, sobretudo a realidade do crime e da violência policial.  Desde então, em meio a efervescência de nomes e produções surgidos na música rap, temos Beni KTT, rapper carioca, produtor e fundador da Produtora Audiovisual Máfia da Caneta.

A recepção da Antiguidade Clássica no rap, embora pouco estudada e comentada, não é nova, nem ínfima. É bastante significativo o número de raps que encontram na Antiguidade Clássica Grega ou Romana uma simbologia que reflete questões próprias do humano, sobretudo o repertório mitológico, que é muitas vezes fonte de inspiração para inúmeros rappers, como podemos observar em Pandora (Sant, Tiago Mac, Bukola 2Tey, 2019), no Minotauro de Borges (Baco Exu do Blues, 2019), em Afrodite da Quebrada (Rart MC, 2017), em Medusa (Nectar Gang; Qualy, 2017), em Hades (Xamã, 2017), em Afrodite (Nocivo Shomon, 2016) e, ainda, em Caixa de Pandora (Caos do Suburbio, 2016), apenas para citar alguns. Entre estes tantos exemplos, temos Prometeu,rap de Beni, publicado no álbum Negros (2016), que ganhou videoclipe tempos depois e trata de um dos mitos cosmogônicos greco-romamos mais conhecidos, o mito de Prometeu, registrado pela primeira vez em Hesíodo (Theog., 517-616; Op. et dies, 42-105). Em linhas gerais, o mito de Prometeu conta a história do Titã Prometeu, que entra em conflito com Zeus ao roubar dele o fogo e entregá-lo aos mortais. Por isso, Zeus (ou Júpiter) envia aos homens um mal, podemos dizer, travestido, com o qual eles se alegrarão, a primeira mulher, Pandora. Além de condená-lo a uma tortura eterna no Monte Cáucaso, onde ficou acorrentado tendo seu fígado (ou coração) sendo regenerado e comido todos os dias por uma águia. Em algumas versões, Prometeu é o próprio criador dos homens.

Imagem: Capa do álbum Negros (2016). Créditos: Beni.

Em entrevista generosamente concedida por Beni para essa pesquisa, o rapper afirmou que seu primeiro contato com o mito de Prometeu foi através do jogo eletrônico “God of War”, baseado nas mitologias grega e nórdica. O Prometeu de Beni nos apresenta um novo olhar para o célebre mito com questões que nos levam a perguntar por que Prometeu teria roubado e entregado o fogo aos mortais: por amor, ódio ou loucura? Em seu rap, Beni se apropria desse conhecido personagem mítico e apresenta Prometeu como um herói, um benfeitor. Um outro aspecto bastante relevante no rap de Beni é que o mito de Prometeu é tomado de forma primorosa pelo rapper em analogia à trajetória do povo negro no Brasil e no mundo. O fogo, como representação da inteligência e da sabedoria, que os retira das trevas e da ignorância, como afirmado por Sottomayor (2001), parece ganhar um novo sentido nas mãos de Beni, que faz desse símbolo uma tomada de consciência do povo negro, o que pressupõe que ela outrora não existia. Isto é, os mortais viviam nas trevas, pois não tinham consciência de sua condição miserável frente aos deuses, assim como os negros, até que Prometeu cometendo um ato humanitário entrega-lhes essa força divina, o fogo:

“O roubo do fogo sagrado foi certo na pontaria

Siga, siga, siga, siga

A luta é constante, então siga

Batalha de gigante, então siga

Não perca-se, avante!”

Beni constrói um Prometeu Negro brasileiro? Por quê? O que é recuperado pelo rapper brasileiro ou não do mito clássico em suas várias versões? Essas são algumas questões que pretendemos ainda responder com a pesquisa “A recepção crítica do mito de Prometeu no rap de Beni: reflexões sobre raça e identidade”.

Beni - Prometeu Prod:Beni (Video Clipe Oficial)

Imagem: Divulgação.

Agradecimentos

Ao rapper Beni pela generosa concessão da entrevista, à Professora Renata Senna Garraffoni pelo convite em publicar neste blog,  à Professora Priscila Matsunaga pelas contribuições e pela sua leitura crítica e à minha orientadora querida e sempre presente, Professora Katia Teonia.

Notas

¹ A expressão é utilizada no rap para se referir às “linhas de soco” usadas pelos rappers, ou seja, versos fortes, chamativos, apelativos, para chamar atenção na track.

Referências bibliográficas

SOTTOMAYOR. Ana Paula Q. O Fogo de Prometeu. Hvmanitas, Porto, vol. III, p. 133-140, 2001. p. 138.

PROMETEU. Compositor e intérprete: Beni. In: Negros. Produzido por Máfia da Caneta. [S.l], 2016. Disponível em: Beni – Prometeu Prod:Beni (Video Clipe Oficial) – YouTube. Acesso em: 22 março. 2021. Faixa 2. (3 min)

  • Karoline Lima – Bacharelanda em Letras Português e Latim (UFRJ) 

Orientação: Prof.ª Katia Teonia Costa de Azevedo

Zé ramalho e a adaptação do mito na música “Filhos de Ícaro”

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Dando sequência aos textos sobre música e recepção da antiguidade, hoje traremos a figura do cantor Zé Ramalho e seu uso dos mitos antigos nas canções.

Dos diversos atributos que a mídia confere ao revolucionário cantor e compositor paraibano Zé Ramalho, recebem maior destaque seus aspectos místicos e visionários, que bradam um discurso de resistência a norma e ao “verdadeiro” estabelecidos pela parte dominante da sociedade. Na elaboração de suas canções, o autor mistura sons que vêm do Rock com métricas e melodias próprias do sertão, ao mesmo tempo, cria estruturas que transmitem um sentimento de anunciação aos ouvintes. Em sua identidade poética, o cantor também utiliza de referências a antiguidade clássica em diversas de suas músicas. Se aproveitando principalmente dos mitos gregos, produziu sentidos atuais para os contos lendários a partir da elaboração de alegorias e comparações.

Acentuando sua face visionária de mensagens apocalípticas, anúncios de liberdade e visões de futuro, Zé Ramalho se engaja politicamente mais uma vez ao lançar seu terceiro álbum em 1981, “A Terceira Lâmina”. Como fala Petrônio Fernandes Beltrão, “a profecia agonizante de um devir de liberdade ante a situação social do Brasil na época da ditadura militar”. (BELTRÃO, 2012). Das faixas desse álbum, a canção “Filhos de Ícaro”, que já em seu título traz consigo o mundo antigo, é uma crítica incisiva não somente ao regime, como também à alienação e acomodação da população brasileira diante da situação do período.

No conhecido mito, Ícaro e seu pai, Dédalo, acabaram aprisionados no labirinto que eles mesmo haviam construído na ilha de Creta para recluir o Minotauro. Na tentativa de fuga, os dois elaboraram asas feitas de cera para que pudessem voar para fora das paredes do labirinto. Entretanto, Ícaro, ignorando os conselhos do pai para não voar muito perto do Sol, se aproximou do astro que, com o calor, derreteu suas asas e acabou por matar Ícaro ao derrubá-lo no mar.

Zé Ramalho, na música citada, canta os seguintes versos:

“As alturas merecem todas as asas
Homens de plumas
Antes do sol derreter
As unhas desse meu pássaro”

Em sua crítica ao povo por sua neutralidade em relação a ditadura, Zé Ramalho faz uma alegoria do povo como Ícaro e do regime militar como o Sol. O cantor pede para que “façam coisas pela liberdade” sem se deixarem levar pelos ideais do regime que atraíam parte da população. Caso contrário, assim como Ícaro caiu no mar ao tentar admirar o Sol de perto, os cidadãos poderiam acabar “caindo” no discurso da ditadura se decidissem por aceitá-la de forma neutra.

Se pensarmos os poetas gregos da antiguidade como transmissores de uma memória coletiva através da tradição literária cantada, podemos pensar também no sujeito-cantor Zé Ramalho como um escritor que, transcrevendo o mito antigo para seu mundo atual, performa suas mensagens em nome de causas sociais e atribui novos sentidos a essa esfera da história clássica. Dessa forma, ao adaptar o mito, Zé Ramalho acaba por criar uma releitura da antiguidade em seu cenário contemporâneo.

Link da música

Bibliografia consultada

BELTRÃO, P. F. A Insurgência, o Visionarismo e a Nordestinidade como marcas identitárias do Sujeito-Poeta-Cantor Zé Ramalho. 2012. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal da Paraíba.

VERNANT, Jean-Pierre, 1914. Mito e religião na Grécia antiga. Trad. Joana Angelica D’avila Melo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

  • Guilherme Bohn dos Santos

Pão e Circo no Brasil: “Tropicália ou Panis et Circencis”

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Olá pessoal! O texto de hoje, conforme apresentado semana passada, trabalhará Recepção e Música. Para dar início às nossas análises, trazemos aqui a música “Panis et Circencis” interpretada por Os Mutantes no disco de nome “Tropicália ou Panis et Circencis”, lançado no ano de 1968. “Tropicália ou Panis et Circencis” é considerado o marco do Tropicalismo no Brasil, sendo o manifesto musical do movimento. Desse álbum participaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Os Mutantes, Tom Zé, Capinam, Torquato Neto e Rogério Duprat.

Conforme descreveu Caetano Veloso, o movimento cultural intitulado de Tropicália objetivava romper com a música popular brasileira e buscava dar origem a “algo diferente de tudo”. Isto é, os tropicalistas eram considerados contraculturais e combinaram manifestações da cultura brasileira com tendências estrangeiras, criando músicas a partir de uma mistura de baião, caipira, pop, rock dentre outros estilos. Ainda, os tropicalistas se caracterizavam pelo excesso, usavam roupas coloridas, cabelos compridos e, a partir da violência estética, protestavam contra a música brasileira bem comportada. Segundo discutem Gonçalves e Silva (2018, p.  238), “a Tropicália surgiu em uma época bastante agitada, trazendo como objetivos ampliar os horizontes, fossem esses políticos, comportamentais, sociais, sexuais ou artísticos. Partindo de uma juventude que se opunha à falta de liberdade, especialmente infligida no Brasil com o golpe militar de 1964 e o recrudescimento da ditadura em 1968”. 

O disco-manifesto tropicalista tem em seu nome a referência a famosa frase da Roma Antiga “panem et circenses”, em português, “pão e circo”. A noção de “Pão e Circo” passou no século XIX, a partir do trabalho de historiadores como Friedländer e Mommsen, a explicar um suposto ócio e alienação da plebe romana. Nesse sentido, afirmar que alguma situação se assemelha ou é um “pão e circo” tornou-se uma crítica não apenas aos romanos, mas também foi repensada em diversas outras situações contemporâneas, como no caso da música Panis et Circencis. 

“Panem et circenses” vêm da Sátira X de Juvenal e conforme discute a Profa. Dra. Renata Garraffoni (2004, p. 80), a máxima de Juvenal, se descolada de seu contexto, “nos remete à tentadora possibilidade de interpretar os romanos como desinteressados pelos acontecimentos políticos a sua volta e amante dos prazeres de fácil acesso. No entanto, se recorremos a Sátira X percebemos uma situação muito distinta: nesta sátira Juvenal elabora uma dura crítica àqueles que vão ao templo pedir aos deuses riqueza, glória, beleza e juventude”. Ou seja, o entendimento da noção de “Pão e Circo” foi repensado na historiografia mais recente, e a partir de trabalhos como o de Garraffoni, percebemos que a crítica de Juvenal não volta-se ao ócio e a alienação, mas sim àqueles que faziam pedidos fúteis aos deuses, bem como os romanos que viviam em excessos.

A pergunta que fica, assim, após desconstruir tal noção pautada no século XIX, é: por que essa remetia-se e ainda, para alguns, remete-se ao ócio e alienação? Para entender essa concepção, é preciso compreender o contexto de sua formação, a qual partiu de uma ótica burguesa para criticar os que não trabalhavam e se faziam contrários à ordem capitalista. Viver de Pão e Circo, no caso, no ócio e na suposta alienação, seria caminhar na contramão dos anseios burgueses.

Voltando ao álbum e mais especificamente a música tropicalista intitulada “Panis et Circencis”, percebemos que os artistas direcionaram diversas críticas ao seu momento histórico, como também à alienação, justamente da burguesia. O álbum-manifesto conta com diversas músicas, com diversas temáticas, como Lindonéia, interpretada por Nara Leão, em que se trabalha a história de uma suburbana desaparecida; Parque Industrial, uma forma de satirizar o patriotismo o desenvolvimento da industrialização no país; e Baby, que se constitui enquanto crítica ao consumismo e a cultura de massa. 

Panis et Circencis, por sua vez, é uma crítica a família burguesa e sua organização familiar. A música busca a liberdade dos moldes conservadores e da ditadura militar. Conforme afirmou Paulo Gaudêncio (TROPICÁLIA, 2012) em 1968, antes de pedir para Os Mutantes cantarem a música, “O jovem quer ser adulto, o que o jovem não quer é ser como o adulto que ele tem diante dele: um adulto quadrado, chato, que não sabe viver, moralista, um adulto realmente nada atraente”. Assim, ao vincular o nome da canção à noção de Pão e Circo, proferir “As pessoas na sala de jantar, são ocupadas em nascer e morrer” e repetir insistentemente “Essas pessoas na sala de jantar” melodicamente, Os Mutantes – e os tropicalistas – expressaram o que para eles seria  Pão e Circo, a alienação para com a qual buscavam romper. 

Interpretação da Música em 1969 por Os Mutantes


Música Remasterizada do álbum “Tropicália ou Panis et Circencis”

Referências

GARRAFFONI, Renata Senna. Técnica e destreza nas arenas romanas: uma leitura da gladiatura no apogeu do Império. 2004. 269 f. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2004.

Podcast Diálogos Olimpianos. 45. A Expressão Pão e Circo. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/6Q1fIO2IGC9Gy52PjKWTdY?si=Eg-gdLcGQ5K9DC2ZxEKcdA&nd=1. Acesso em 10. out. 2021.

SILVA, Bruno Sanches Mariante; GONÇALVES, Jessica Yohana. Contracultura e transgressão: uma análise do álbum “tropicalia ou panis et circencis”(1968). CLIO: Revista de Pesquisa Histórica, v. 36, n. 1, p. 234-254, 2018.

Tropicália. Direção de Marcelo Machado. São Paulo: BossaNovaFilms e Record Entretenimento, 2012 (82 min).

  • Barbara Fonseca

Live: Tradizer, Transcantar: Poesia Antiga no Presente

Boa tarde, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Nós estamos preparando um evento super interessante para a próxima semana! É com muita alegria que recebemos Guilherme Gontijo Flores e Rodrigo Tadeu Gonçalves para a palestra “Tradizer, Transcantar: Poesia Antiga no Presente”, que acontecerá no dia 19/10, às 19h! Estão todas/os convidadas/os!

O formulário de inscrições pode ser acessado por esse link: https://docs.google.com/forms/d/e/1FAIpQLSfpZiP3fRDnDZyd2H18t3oclsw0gJ79Z_1G_N8ZQtKumHxJgw/viewform?usp=sf_link

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A Recepção da Antiguidade na Música

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Olá, pessoal! Estamos preparando as próximas publicações a partir de um novo eixo temático, a recepção da Antiguidade na Música. Dentro deste eixo, escolhemos alguns temas específicos: os usos de espaços da Antiguidade como palco para performances musicais contemporâneas; músicas que pensam a Antiguidade como temática principal; músicas que utilizam a Antiguidade de maneira mais pontual, ou seja, produzindo alusões contemporâneas a partir do que se entende sobre a Antiguidade.

A música era considerada uma das musas durante a Antiguidade. Seu nome, Euterpe, significa deleite, o que já demonstra a relação próxima entre a Música, os sentidos humanos e o prazer. Ao longo da História, a Música ocupou diferentes espaços nas mais diversas sociedades, e nas últimas décadas podemos observar o papel que esta arte ocupa em demonstrar problemas sociais, englobar identidades e, acima de tudo, divertir as pessoas. A relação entre as obras da Antiguidade e a Música não é algo novo, visto que óperas dos séculos XVIII e XIX vão se embasar em obras mitológicas sobre o período antigo. Este tipo de produção musical recupera a Antiguidade exatamente como uma continuidade da tradição clássica, algo comum no período de formação dos Estados Nacionais europeus e na construção de identidades. Entretanto, nosso foco será nas percepções da Antiguidade em músicas na contemporaneidade, ressaltando o caráter popular das apropriações do passado antigo. Nesse sentido, algumas questões norteiam nossas escolhas dentro deste eixo temático: como e por qual motivo a recuperação da Antiguidade na música popular contemporânea ocorre, quais elementos são recuperados, qual a relevância do tema dentro de gêneros musicais específicos, e por que os espaços da Antiguidade são utilizados?

A retomada da Antiguidade na música, seja a partir de músicas e álbuns totalmente dedicados ao tema, seja em referências mais pontuais, demonstra a atualidade destas temáticas e sua permanência na contemporaneidade. Sua utilização pode ser analisada como algo comum ao imaginário popular das últimas décadas, e a um conhecimento pelo passado que cada vez mais é mediado – muitas músicas, como analisaremos, terão como base produções cinematográficas e não as fontes diretamente da Antiguidade. As músicas que tratarão do tema de maneira mais exaustiva, como aquelas pertencentes ao Heavy Metal e suas vertentes, também produzirão uma leitura da Antiguidade que relaciona uma estética do estilo a alguns temas recorrentes nos relatos mitológicos e históricos. 

Além disso, a utilização de um espaço antigo em performances contemporâneas – aqui podemos citar como exemplo mais conhecido o Live in Pompeii, do Pink Floyd – demonstra de maneira bastante expressiva a relação entre passado e presente que comumente discutimos nos estudos da recepção: a retomada de um espaço antigo é sinal de sua permanência (aqui, seja em um sentido estético ou acústico), mas também sua apropriação para algo novo, um novo tipo de experiência com a arte.

Acreditamos que este eixo pode auxiliar nas discussões sobre estas diferentes leituras que a música faz da Antiguidade, promovendo sempre esta última enquanto uma permanência interessante na contemporaneidade e mostrando esta conexão entre antigos e modernos. Esperamos que vocês gostem dos textos tanto quanto nós gostamos – e nos divertimos e conhecemos coisas novas – enquanto estávamos preparando-os. E um último informe: ainda nesse mês teremos uma live no YouTube, então fiquem ligados nas nossas redes sociais!

Referências:

FLETCHER, Kristopher F. B.; OSMAN, Umurhan. (Eds.). Classical Antiquity in Heavy Metal Music. London, New York: Bloomsbury Academic, 2019.

MOORMANN, Eric M. Pompeii’s Ashes: The Reception of the Cities Burned by the Vesuvius in Literature, Music and Drama. Berlin: De Gruyter, 2015.

  • Ingrid Cristini Kroich Frandji

Usos do Passado nas revistas do IHGB

Oi gente, no posto de hoje trazemos um breve resumo da dissertação de mestrado defendida pela integrante do grupo Mariana Fujikawa! Para acessar o trabalho na íntegra, é só clicar aqui.

MASCULINIDADES EM CONSTRUÇÃO: O IHGB, O PASSADO CLÁSSICO (1889-1930)

A identidade brasileira pode ser moldada por diversos aspectos: concepções de raça, de masculinidade, de nacionalidade. Construída por esses conceitos que, por sua vez, são fluídos e modificáveis. No período de 1889 até 1930, intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro se dedicaram a construir uma noção do que deveria ser o homem e o cidadão brasileiro. Essa constituição era feita a partir de discursos, que se pretendiam neutros e verdadeiros. Ademais, um aspecto extremamente recorrente nessas falas era a apropriação de personagens do passado greco-romano.


Assim, ainda que temporalmente distantes, os membros do IHGB utilizavam a Antiguidade Clássica para colocar os modelos de masculinidade e identidade em sua contemporaneidade. Uma questão recorrente para essa construção era a morte: quando intelectuais do Instituto faleciam, havia uma ode a eles, e nesses discursos fúnebres, suas personalidades eram comparadas com a de filósofos, pensadores gregos e romanos. Ao retomarem a intelectualidade da Antiguidade, os membros exaltavam aspectos que eram importantes para seu presente: a noção de um homem que prezava a razão, as letras.


Ainda que o cidadão e homem ideal possuísse como seu âmago a intelectualidade, os membros do Instituto valorizavam também a noção de violência, de guerra, desde que essa fosse defensiva, e visasse preservar as noções de liberdade que possuíam. Assim, a força nunca seria algo ligada com o descontrole, as emoções. Dessa forma, trabalhando com as noções de guerra, violência e de racionalidade, neutralidade, os sócios do IHGB reforçavam que o papel do homem era pertencer ao mundo público. As mulheres, por sua vez, pertenceriam no mundo privado, como aquelas que são descontroladas, levadas por suas emoções. Enquanto que ao homem a cidadania era inerente, para as mulheres o natural seria a maternidade, a casa, o lar.


Ao afirmarem esses posicionamentos de defesa de uma masculinidade racional, batalhadora, pertencente ao mundo público, os intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro retomaram o passado clássico, mas não ele em sua totalidade, de uma maneira neutra e verdadeira. Eles optaram por trazer do passado aquilo que desejavam, que corroboraria aquilo que eles defendiam: uma noção de cidadania que era excludente, que seria restrita a uma elite intelectual, masculina, branca. As mulheres, os negros, os indígenas, a população não economicamente favorecida ficaria, na noção desses membros, excluída da noção de cidadania, de mundo público.


Ao realizarem essa construção, então, do que era o masculino, do que era a identidade brasileira, os membros também moldavam o que eles desejavam para o futuro da nação. O passado, o presente e o futuro, assim, estão interconectados nessa construção discursiva. Ainda que essa análise, que gerou a dissertação intitulada “Recepção greco-romana no Rio de Janeiro: Masculinidades em construção (1889-1930)”, tenha focado no período da Primeira República, entendemos e afirmamos que ela possa colaborar para afirmar que as concepções que possuímos sobre o que é ser homem ou o que é ser brasileiro, são construídas historicamente, a partir de discursos. Dessa forma, não são naturais, permanentes, imutáveis. Se considerarmos esses aspectos como construção, podemos afirmar e antever modos menos estáticos e excludentes sobre a masculinidade, a identidade, o Brasil.