Usos do Passado nas revistas do IHGB

Oi gente, no posto de hoje trazemos um breve resumo da dissertação de mestrado defendida pela integrante do grupo Mariana Fujikawa! Para acessar o trabalho na íntegra, é só clicar aqui.

MASCULINIDADES EM CONSTRUÇÃO: O IHGB, O PASSADO CLÁSSICO (1889-1930)

A identidade brasileira pode ser moldada por diversos aspectos: concepções de raça, de masculinidade, de nacionalidade. Construída por esses conceitos que, por sua vez, são fluídos e modificáveis. No período de 1889 até 1930, intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro se dedicaram a construir uma noção do que deveria ser o homem e o cidadão brasileiro. Essa constituição era feita a partir de discursos, que se pretendiam neutros e verdadeiros. Ademais, um aspecto extremamente recorrente nessas falas era a apropriação de personagens do passado greco-romano.


Assim, ainda que temporalmente distantes, os membros do IHGB utilizavam a Antiguidade Clássica para colocar os modelos de masculinidade e identidade em sua contemporaneidade. Uma questão recorrente para essa construção era a morte: quando intelectuais do Instituto faleciam, havia uma ode a eles, e nesses discursos fúnebres, suas personalidades eram comparadas com a de filósofos, pensadores gregos e romanos. Ao retomarem a intelectualidade da Antiguidade, os membros exaltavam aspectos que eram importantes para seu presente: a noção de um homem que prezava a razão, as letras.


Ainda que o cidadão e homem ideal possuísse como seu âmago a intelectualidade, os membros do Instituto valorizavam também a noção de violência, de guerra, desde que essa fosse defensiva, e visasse preservar as noções de liberdade que possuíam. Assim, a força nunca seria algo ligada com o descontrole, as emoções. Dessa forma, trabalhando com as noções de guerra, violência e de racionalidade, neutralidade, os sócios do IHGB reforçavam que o papel do homem era pertencer ao mundo público. As mulheres, por sua vez, pertenceriam no mundo privado, como aquelas que são descontroladas, levadas por suas emoções. Enquanto que ao homem a cidadania era inerente, para as mulheres o natural seria a maternidade, a casa, o lar.


Ao afirmarem esses posicionamentos de defesa de uma masculinidade racional, batalhadora, pertencente ao mundo público, os intelectuais do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro retomaram o passado clássico, mas não ele em sua totalidade, de uma maneira neutra e verdadeira. Eles optaram por trazer do passado aquilo que desejavam, que corroboraria aquilo que eles defendiam: uma noção de cidadania que era excludente, que seria restrita a uma elite intelectual, masculina, branca. As mulheres, os negros, os indígenas, a população não economicamente favorecida ficaria, na noção desses membros, excluída da noção de cidadania, de mundo público.


Ao realizarem essa construção, então, do que era o masculino, do que era a identidade brasileira, os membros também moldavam o que eles desejavam para o futuro da nação. O passado, o presente e o futuro, assim, estão interconectados nessa construção discursiva. Ainda que essa análise, que gerou a dissertação intitulada “Recepção greco-romana no Rio de Janeiro: Masculinidades em construção (1889-1930)”, tenha focado no período da Primeira República, entendemos e afirmamos que ela possa colaborar para afirmar que as concepções que possuímos sobre o que é ser homem ou o que é ser brasileiro, são construídas historicamente, a partir de discursos. Dessa forma, não são naturais, permanentes, imutáveis. Se considerarmos esses aspectos como construção, podemos afirmar e antever modos menos estáticos e excludentes sobre a masculinidade, a identidade, o Brasil.

Antiga e Conexões Indica: Filmes do Cinema Épico

Imagem: Divulgação.

Olá, pessoal! Esperamos que tenham gostado das dicas de filmes do cinema mudo, e que tenham conseguido assistir. No post de hoje preparamos mais algumas recomendações, mas desta vez incluímos alguns nomes do cinema épico. Esperamos que apreciem a seleção e tenham um bom momento assistindo aos filmes que retomam o passado greco-romano. Lembrando que nós do Antiga e Conexões produzimos uma coletânea de textos temáticos a respeito da recepção dos antigos no cinema.

Imagem: Pôster de Medea, 1969.

Medea, de Pier Paolo Pasolini (1969)

Sinopse: Dirigido por Paolo Pasolini, e estrelado por Maria Callas, o filme de 1969 retoma o mito de Medéia e Jasão retratando o roubo do velocino de ouro. A trama é cercada por dramas e acontecimentos épicos. Um bom filme para se distrair e entrar no mundo da mitologia através da ótica de Pasolini.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=3CVsrc7cu_o 

Messalina, de Vittorio Cottafavi (1960)

Sinopse: A trama se passa durante o século primeiro, após a morte de Calígula e da proclamação de Claudius como imperador, tendo então seu casamento arranjado com a jovem sedutora Messalina. Protagonizado por Belinda Lee, o enredo conta com mortes, vinganças e entre outros eventos dramáticos envolvendo a jovem.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=vKE9orT2Zsc

Imagem: Pôster de Messalina, 1960.
Imagem: Pôster de Cleopatra, 1963.

Cleopatra, de Joseph L. Mankiewicz (1963)

Sinopse: O drama é uma adaptação da obra de Carlo Maria Franzero, que conta a história da rainha Cleópatra, estrelado por Elizabeth Taylor e estreado em 1963, o filme americano ganhou grande notoriedade no período que foi lançado, sendo uma importante película do cinema épico americano.

Link para acessar o filme: https://ok.ru/video/947679463989

Os 300 de Esparta, de Rudolph Maté (1962)

Sinopse: O filme de 1962, trata da conhecida batalha das termópilas entre os gregos e os persas, a adaptação é estrelada por Richard Egan. Tal tema foi posteriormente adaptado por Zack Snyder em 2007, vale a pena conferir a película de 1962 e ver como tal tema foi adaptado em diferentes temporalidades.

Link para acessar o filme: https://ultracine.club/filme/os-300-de-esparta

Imagem: Pôster Os 300 de Esparta, 1962.
Imagem: Pôster do filme O Gigante da Maratona, 1959.

O Gigante de Maratona, de Jacques Tourneur  (1959)

Sinopse: A película de Jacques Tourneur conta a história do campeão Fidípides, que durante a primeira guerra médica defende Atenas na batalha de Maratona contra os invasores Persas. O filme é estrelado por Steve Reeves e foi lançado em 1959.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=wUxHcWEoX_A  

  • Renata Cristina Oliveira

Antiga e Conexões Indica: Filmes do Cinema Mudo

Imagem: Divulgação.

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Hoje gostaríamos de compartilhar com vocês nossas indicações sobre cinema! Para a finalização do nosso projeto sobre os estudos de recepção nas produções cinematográficas, preparamos uma listinha de recomendações especiais de filmes mudos com o enredo ligado à Antiguidade greco-romana. Repletos de drama, aventura, romance ou comédia, esperamos que façam vocês se divertir e apreciar essas leituras visuais excepcionais sobre o mundo antigo. Um bom filme!

Cabiria, de Giovanni Pastrone (1914)

Sinopse: Produção cinematográfica italiana, foi dirigida por Giovanni Pastrone em 1914. Seu enredo tem como ponto principal os conflitos entre romanos e cartagineses, especialmente expressos ao longo da história de vida de Cabiria, menina romana capturada por fenícios. É, certamente, um dos clássicos do cinema mudo italiano.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=KN4YszmBpLk

Imagem: Pôster de Cabiria, 1914.

Imagem: Pôster de Quo Vadis?, 1913.

Quo Vadis?, de Enrico Guazzoni (1913)

Sinopse: Por muitos considerado como um dos primeiros longa-metragens da história do cinema, o filme italiano, de direção de Enrico Guazzoni, foi produzido no ano de 1913. Sua narrativa está voltada ao governo de Nero, destacando-se em sua perspectiva sobre as histórias de martírio cristãs. 

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=irmfIbMgJrk

L’Odissea, de Francesco Bertolini (1911)

Sinopse: Adaptação cinematográfica da Odisseia de Homero, a produção, dirigida por Bertolini, Padovan e De Liguoro em 1911, é igualmente um dos exemplos da indústria cinematográfica italiana. Vale ressaltar, também, que foi um dos títulos que competiram na feira mundial “Turin International”, comemorando o aniversário de unificação italiana.

Imagem: Enquadramento da abertura de L’Odissea, 1911.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=PRGfVOlVbLQ

Imagem: Pôster de Three Ages, 1923.

The Three Ages, de Buster Keaton (1923)

Sinopse: Comédia de Buster Keaton, foi produzida pelo cinema estadunidense em 1923. Apresenta comparações divertidas entre as formas de amar no mundo pré-histórico, romano e moderno, revelando uma comicidade interessante sobre os dramas amorosos comuns ao cinema.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=_namYNU0wvQ

Ben Hur, a Tale of the Christ, de Fred Niblo (1925)

Sinopse: Inspirado no romance homônimo de Wallace (1880), o filme foi produzido nos Estados Unidos sob a direção de Fred Niblo. Aliando elementos romanos e cristãos, conta a conhecida história de Ben-Hur, príncipe judeu traído por seu amigo romano, Messala. Um ótimo filme para compreender os primeiros passos do cinema épico!

Link para acessar o filme: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ben_Hur_A_Tale_of_the_Christ_(1925).webm

Imagem: Pôster de Ben-Hur, a Tale of the Christ, 1925.

  • Heloisa Motelewski

Cinema e Recepção – Coletânea de Textos Temáticos

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Semana passada publicamos nosso primeiro material, referente aos primeiros meses de trabalho deste ano. Hoje, divulgamos seu segundo volume, no qual reunimos as produções vinculadas à temática da recepção nas produções cinematográficas. Com elas, e seguindo a proposta do primeiro volume, anexamos imagens e dicas de leitura para uma maior interatividade. Assim, procuramos poder propagar nossos trabalhos, alcançando novos espaços de discussão e de estudos. Esperamos que todas e todos apreciem essa leitura!

Para acessar o material: https://issuu.com/antigaeconexoes/docs/publica_o_antiga_e_conex_es_-_vol._ii

E como mencionamos em nossas redes, também estamos disponibilizando as duas coletâneas para download, em formato pdf. Para acessá-los, é só clicar nos links abaixo:

Volume I – Recepção na Obra de Giorgio De Chirico: https://drive.google.com/file/d/1_M4386e7SolF1nYHtiBgz0lERrA4yI2z/view?usp=sharing

Volume II – Cinema e Recepção: https://drive.google.com/file/d/1mHNBZ-dFZcjM7DaP_ecYz6Rt6j-2_9aJ/view?usp=sharing

Recepção na obra de Giorgio de Chirico – Coletânea de textos temáticos

Olá, pessoal!

Como havíamos anunciado na semana passada, preparamos um material para vocês com base nas pesquisas que nosso grupo de estudos desenvolveu durante o primeiro semestre de 2021. Neste primeiro volume da nossa coletânea temática, agrupamos os textos em que trabalhamos arte e vanguarda, centradas na obra do pintor italiano Giorgio de Chirico. Junto aos textos incluímos também dicas de leitura e imagens para que o conteúdo se torne mais interativo e didático.

Com essas coletâneas buscamos oferecer uma nova fonte de divulgação dos nossos estudos, que possa atingir novos públicos e ser utilizado para além de uma leitura informativa, bem como material de estudo. Esperamos que apreciem a leitura!
Para acessar o material: https://issuu.com/antigaeconexoes/docs/volume_i

História Antiga e Conexões com o Presente: Produções

Na imagem: May McAvoy como Esther no filme Ben-Hur (1925) e Giorgio De Chirico.

Olá, pessoal! Esperamos que estejam todos bem!

Com nossa última postagem, acabamos por finalizar o eixo de textos temáticos voltados para o Cinema e Recepção. Assim, estamos mais próximos de finalizar as nossas atividades do primeiro semestre de 2021, e para esse encerramento, estamos preparando um material super interessante!

Nele vamos reunir todas as nossas produções realizadas nesse primeiro período do ano, separadas segundo os temas de Recepção e Vanguarda e de Cinema e Recepção. Para isso, buscamos dar um caráter mais visual e dinâmico para os nossos textos, congregados em um material de estudo e divulgação que será publicado nos próximos dias. Então, fiquem atentos às nossas redes sociais e às nossas publicações, e não percam o lançamento!

Os papéis de masculinidade entre Maximus Decimus Meridius e Spartacus

Diretor Ridley Scott revela estar trabalhando em roteiro de sequência de  'Gladiador' - Monet | Filmes
Russel Crowe como Maximus, filme Gladiador (2000). Imagem: divulgação.

O filme Gladiador (2000), de Ridley Scott, foi um sucesso de bilheteria quando lançado. Concorreu em doze categorias do Oscar 2001 e ganhou cinco estatuetas, dentre elas, a de Melhor filme, Melhor Ator para Russell Crowe, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Figurino. 

Gladiador narra a história de um General romano, Maximus Decimus Meridius, que, por não aceitar a traição de Commodus – na trama, assassino de seu pai Marcus Aurelius -, é capturado pela guarda pretoriana. Ao conseguir fugir, descobre que sua família também foi assassinada a mando de Commodus e passa por um momento de grande sofrimento, tanto psicológico quanto físico, até que é encontrado desmaiado por um mercador de escravos. Ao passar a viver como escravo, começa a batalhar em jogos gladiadores, até que, em busca de sua vingança, chega em Roma e se depara com Commodus. Esse enredo é, na verdade, uma história criada por Hollywood. Contudo, o que buscamos pensar em nosso texto não são os fatos históricos presentes no filme, mas sim o papel de masculinidade que Maximus interpreta.  

Podemos entender Maximus como um símbolo de virilidade, afinal, ele é forte, corajoso, honrado e um grande líder. Em resumo, o ex-general acaba por incorporar em sua personagem diversas qualidades bem aceitas no projeto de masculinidade viril dos anos 2000. Além disso, Maximus pode ser considerado como um sex symbol, afinal, é interpretado por Russell Crowe, um exemplo de ideal de beleza masculina do período: alto, musculoso e branco.

O personagem principal, caracterizado como um símbolo viril e sexual, também representa em seu figurino esses elementos. Maximus não usa sandálias, afinal, essas são consideradas na sua contemporaneidade ocidental como um estilo de calçado feminino. Dessa maneira, o Gladiador batalha de botas. Ainda, sua armadura é constituída de forma que ressalta seu corpo forte e musculoso, com ombros largos devido às ombreiras, cintos de couro colados ao abdômen e couraças nos braços, criando, assim, certa sensação de poder. 

Para entendermos melhor a construção desse papel de masculinidade, podemos aqui comparar a personagem de Maximus com outro famoso gladiador do cinema hollywoodiano: Spartacus, do ano de 1960. O filme  foi trabalhado por nós três semanas atrás (para ler sobre, clique aqui), nele, o escravo que se tornou gladiador e depois realizou uma das grandes revoltas da Roma Antiga, é estrelado por Kirk Douglas, também um galã do cinema estadunidense no período.

Foto de Kirk Douglas - Spartacus : Foto Kirk Douglas - AdoroCinema
Início da luta entre Draba e Spartacus. Imagem: divulgação

Ao sabermos que Douglas seria um sex symbol, conseguimos traçar comparações entre ambos os personagens e seus papéis de masculinidade. Douglas, em oposição à Crowe, é um homem forte e atlético, mas não corpulento. Spartacus, além disso, está sempre limpo e de barba feita, mudando essa estética apenas em seus momentos de fraqueza e de derrota. Enquanto isso, Maximus sempre aparece com a barba por fazer e com o corpo repleto de marcas de batalha. 

Ademais, a roupa de Spartacus é consideravelmente mais curta que a de Maximus. O primeiro, passa boa parte do filme com uma túnica cinza ou marrom, muitas vezes acima de seu joelho, completando seu vestuário calçando sandálias. Quando lutou contra Draba, suas roupas – ou a ausência delas –  chamaram-nos a atenção. Ambos estão sem camisa, apenas com uma proteção no braço que empunha a arma, e na parte de baixo do corpo, usam o que mais se parece com uma sunga. Essa constituição é quase inimaginável para o filme Gladiador, em que até mesmo a túnica do personagem principal é na altura do joelho ou o passa. Entretanto, não por isso Spartacus deve ser considerado pouco másculo. O personagem também representa as mesmas qualidades que Maximus: forte, corajoso, honrado e um grande líder. 

Com essas breves comparações, questionamos a construção da figura do homem romano a partir desses filmes, visto que, conforme trabalhamos, esses personagens principais podem se parecer mais com o período de criação destas obras do que damos a atenção. Seguindo esse caminho, evidenciamos a existência de diferentes tipos de masculinidade ao longo dos anos e assim, somos capazes de compreender a possibilidade de diversas masculinidades, as quais podem passar longe da heteronormativa viril.

Referências:

Vídeo “Roma no Cinema”, do canal Mitologia Greco-Romana no Cinema. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=-a-9c6wtbJo&t=4015s&ab_channel=MitologiaGreco-RomananoCinema

  • Barbara Fonseca

A masculinidade moderna construída no imagético da Grécia Antiga no épico “Jasão e os Argonautas” (1963)

Imagem de divulgação do Instagram

Dando sequência a série de textos sobre a antiguidade no cinema, hoje, o tema da postagem será o filme “Jasão e os Argonautas” de 1963, do diretor Don Chaffey. A obra em questão virou tópico de análise sobre diversas questões a pensar sobre a recepção no cinema épico entre os membros do blog. Assim, para esse texto, atentei-me a observar a construção da masculinidade e da identidade do herói na figura do protagonista Jasão.

No filme, baseado nos contos da mitologia grega, Jasão é um herói que parte em busca do “Velo de Ouro” – uma pele de cordeiro dourada – com supostos poderes mágicos que trariam a paz e a ordem para o reino de Tessália, o qual estava em estado de instabilidade após a morte de seu pai, o rei Esão. Ao recrutar os melhores homens gregos para o acompanharem em seu percurso, o protagonista, cumprindo uma profecia, segue com a proteção pessoal da deusa Hera, a qual intervém na vida dos “argonautas” (nome derivado do barco em que navegavam, Argo) a partir de uma espécie de jogo de tabuleiro contra seu cônjuge, Zeus.

O ator principal, Todd Armstrong, faz o papel de um Jasão jovem, bonito e forte, “viril”, que constitui um tipo de ideal de masculinidade não somente na parte física mas também comportamental. Seguindo uma espécie de “jornada do herói”, o enredo do filme tem uma estrutura simples, nessa fórmula, a imagem do que deveria ser o “homem” na sociedade moderna é construída utilizando um imagético da Grécia antiga.

Jasão expressa poucos sentimentos e se atém ao caráter valente do herói que não pode demonstrar fraquezas. Quando o personagem encontra Medeia, sacerdotisa de Hecate e filha do Rei Eetes, perdida no mar e a resgata, tem-se o início do que seria um futuro relacionamento entre os dois. Entretanto, Medeia tem uma imagem também idealizada e a atitude de Jasão a ela é de objetificação. Em uma das cenas finais, quando Medea se reencontra com o protagonista e decide que seguiria ao seu lado, traindo seu pai, o emocional representado é quase nulo, como se apenas existisse um acordo que daria sentido a ideia do “mocinho” ficar com a bela mulher da história.

Além disso, a construção visual do corpo também faz parte da narrativa, tanto para o homem quanto para a mulher. Jasão, enfrentado todos os percalços do épico se vê obrigado a lutar, a liderar, a ser forte, por outro lado, Medeia é uma mulher sedutora, sensual e de beleza física impressionante destinada a acompanhar o herói de forma a representar uma recompensa a ele.

Pensando na Recepção do mundo antigo a partir de filmes como “Jasão e os Argonautas”, os chamados filmes peplum, podemos observar os usos do passado na construção das narrativas modernas. Além do aproveitamento textual dos mitos gregos, o cinema também abre a possibilidade da construção visual através da imagem em movimento, na obra em questão, o modelo de masculinidade descreve o imaginário da figura do homem ocidental e de sua masculinidade idealizada, um fabrico da sociedade moderna.

Bibliografia consultada:

ELLEY, Derek. The Epic Film: Myth and History. London: Routledge, 1984.

KIMMEL, Michael. Manhood in America: A Cultural History. 2nd. ed. New York: Oxford University, 2006.

  • Guilherme Bohn dos Santos

As nuances modernas do Spartacus de Stanley Kubrick

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Kirk Douglas como Spartacus. Imagem: divulgação

Spartacus, dirigido por Stanley Kubrick, escrito por Dalton Trumbo e estrelado por Kirk Douglas, continua a ser um dos filmes mais aclamados pelo público e pela crítica. Lançado em 1960, tornou-se um dos maiores sucessos do gênero épico, com seis indicações ao Oscar – das quais venceu quatro. Baseado no livro homônimo de 1951 escrito por Howard Fast, Spartacus narra a história de um escravo romano em busca por liberdade. Neste texto, não pretendo tratar da relação entre os documentos antigos que tratam da revolta de Spartacus e sua representação cinematográfica. Meu objetivo aqui é analisar alguns elementos próprios da sociedade estadunidense presentes no filme, salientando o uso do mundo romano como uma forma de legitimação de questões e narrativas do século XX.

Assim como outras obras cinematográficas, Spartacus estabelece um movimento duplo na relação passado-presente: ao mesmo tempo em que constrói uma imagem do passado romano no século I antes da era comum, também traz elementos da sociedade estadunidense do século XX. Diferentes valores são codificados para as telas do cinema e, no caso específico de Spartacus, procuram legitimar sua importância a partir da relação com o passado mítico romano.

Os filmes épicos emergem no pós-1945 como o gênero ideal para demonstrar as inovações tecnológicas do cinema, ao mesmo tempo em que, enquanto uma mídia massificada, refletem vários temas recorrentes da sociedade estadunidense. A liberdade é um destes temas: enquanto elemento basilar da própria formação enquanto nação, esta é representada, em Spartacus, na relação conflituosa entre corrupção e poder.

A luta entre Spartacus e Draba é bastante significativa neste sentido. Draba, gladiador negro e mais experiente, interpretado por Woody Strode, seria o vencedor por suas habilidades. Entretanto, há um entendimento mútuo, refletido tanto nos personagens como na construção das cenas, que os dois homens, mesmo em lados opostos, não são realmente inimigos. A partir desta constatação, Draba não mata Spartacus, mas ataca Crassus e é morto no processo. Mais do que um mártir pela liberdade (a ideia do martírio messiânico é uma temática recorrente no filme), Draba é um modelo moral, evidenciando a influência do contexto de produção do filme. Draba é, acima de tudo, uma representação do protagonismo negro na luta por direitos civis no século XX. Ainda que esta visão sobre Draba possa ser considerada positiva, é importante lembrar que o personagem negro virtuoso é um motivo comum no cinema estadunidense, e sempre está atrelado a uma ideia de ensinamento ao herói branco, o que também fica evidenciado em Spartacus.

Após a morte de Draba, Spartacus reflete sobre a própria natureza de suas ações, passando a negar a violência que o faria tornar-se tal qual seus detratores – os romanos. Spartacus incentiva a organização dos gladiadores, que formariam o pilar de uma sociedade mais justa, diferente da corrupção e da violência de Roma. A solidariedade entre os menos favorecidos representada em Spartacus funciona como uma alegoria ao ideal comum de busca pela liberdade, virtude fundacional dos EUA.

Nesse sentido, a adaptação de Kubrick codifica uma visão de um sonho de liberdade americano. Spartacus, representado pelo ícone de masculinidade e selfmade man Kirk Douglas, passa por uma jornada espiritual para alcançar a liberdade diante do sacrifício, e esta liberdade é conquistada pela comoção e pela solidariedade entre os pares. Mesmo tratando de temas caros à sociedade (como a luta por direitos civis), e pendendo para uma interpretação menos conformista e mais revolucionária (Howard Fast e Dalton Trumbo foram incluídos em lista de envolvidos com o Partido Comunista), Spartacus é acima de tudo uma narrativa sobre a importância da liberdade como ideal civilizatório.

Referências:

WINKLER, Martin W (ed.). Spartacus: Film and History. Oxford: Blackwell Publishing, 2007.

  • Ingrid Frandji