A Recepção da Antiguidade na Música

Imagem de divulgação no Instagram @antigaeconexoes

Olá, pessoal! Estamos preparando as próximas publicações a partir de um novo eixo temático, a recepção da Antiguidade na Música. Dentro deste eixo, escolhemos alguns temas específicos: os usos de espaços da Antiguidade como palco para performances musicais contemporâneas; músicas que pensam a Antiguidade como temática principal; músicas que utilizam a Antiguidade de maneira mais pontual, ou seja, produzindo alusões contemporâneas a partir do que se entende sobre a Antiguidade.

A música era considerada uma das musas durante a Antiguidade. Seu nome, Euterpe, significa deleite, o que já demonstra a relação próxima entre a Música, os sentidos humanos e o prazer. Ao longo da História, a Música ocupou diferentes espaços nas mais diversas sociedades, e nas últimas décadas podemos observar o papel que esta arte ocupa em demonstrar problemas sociais, englobar identidades e, acima de tudo, divertir as pessoas. A relação entre as obras da Antiguidade e a Música não é algo novo, visto que óperas dos séculos XVIII e XIX vão se embasar em obras mitológicas sobre o período antigo. Este tipo de produção musical recupera a Antiguidade exatamente como uma continuidade da tradição clássica, algo comum no período de formação dos Estados Nacionais europeus e na construção de identidades. Entretanto, nosso foco será nas percepções da Antiguidade em músicas na contemporaneidade, ressaltando o caráter popular das apropriações do passado antigo. Nesse sentido, algumas questões norteiam nossas escolhas dentro deste eixo temático: como e por qual motivo a recuperação da Antiguidade na música popular contemporânea ocorre, quais elementos são recuperados, qual a relevância do tema dentro de gêneros musicais específicos, e por que os espaços da Antiguidade são utilizados?

A retomada da Antiguidade na música, seja a partir de músicas e álbuns totalmente dedicados ao tema, seja em referências mais pontuais, demonstra a atualidade destas temáticas e sua permanência na contemporaneidade. Sua utilização pode ser analisada como algo comum ao imaginário popular das últimas décadas, e a um conhecimento pelo passado que cada vez mais é mediado – muitas músicas, como analisaremos, terão como base produções cinematográficas e não as fontes diretamente da Antiguidade. As músicas que tratarão do tema de maneira mais exaustiva, como aquelas pertencentes ao Heavy Metal e suas vertentes, também produzirão uma leitura da Antiguidade que relaciona uma estética do estilo a alguns temas recorrentes nos relatos mitológicos e históricos. 

Além disso, a utilização de um espaço antigo em performances contemporâneas – aqui podemos citar como exemplo mais conhecido o Live in Pompeii, do Pink Floyd – demonstra de maneira bastante expressiva a relação entre passado e presente que comumente discutimos nos estudos da recepção: a retomada de um espaço antigo é sinal de sua permanência (aqui, seja em um sentido estético ou acústico), mas também sua apropriação para algo novo, um novo tipo de experiência com a arte.

Acreditamos que este eixo pode auxiliar nas discussões sobre estas diferentes leituras que a música faz da Antiguidade, promovendo sempre esta última enquanto uma permanência interessante na contemporaneidade e mostrando esta conexão entre antigos e modernos. Esperamos que vocês gostem dos textos tanto quanto nós gostamos – e nos divertimos e conhecemos coisas novas – enquanto estávamos preparando-os. E um último informe: ainda nesse mês teremos uma live no YouTube, então fiquem ligados nas nossas redes sociais!

Referências:

FLETCHER, Kristopher F. B.; OSMAN, Umurhan. (Eds.). Classical Antiquity in Heavy Metal Music. London, New York: Bloomsbury Academic, 2019.

MOORMANN, Eric M. Pompeii’s Ashes: The Reception of the Cities Burned by the Vesuvius in Literature, Music and Drama. Berlin: De Gruyter, 2015.

  • Ingrid Cristini Kroich Frandji

Antiga e Conexões Indica: Filmes do Cinema Mudo

Imagem: Divulgação.

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Hoje gostaríamos de compartilhar com vocês nossas indicações sobre cinema! Para a finalização do nosso projeto sobre os estudos de recepção nas produções cinematográficas, preparamos uma listinha de recomendações especiais de filmes mudos com o enredo ligado à Antiguidade greco-romana. Repletos de drama, aventura, romance ou comédia, esperamos que façam vocês se divertir e apreciar essas leituras visuais excepcionais sobre o mundo antigo. Um bom filme!

Cabiria, de Giovanni Pastrone (1914)

Sinopse: Produção cinematográfica italiana, foi dirigida por Giovanni Pastrone em 1914. Seu enredo tem como ponto principal os conflitos entre romanos e cartagineses, especialmente expressos ao longo da história de vida de Cabiria, menina romana capturada por fenícios. É, certamente, um dos clássicos do cinema mudo italiano.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=KN4YszmBpLk

Imagem: Pôster de Cabiria, 1914.

Imagem: Pôster de Quo Vadis?, 1913.

Quo Vadis?, de Enrico Guazzoni (1913)

Sinopse: Por muitos considerado como um dos primeiros longa-metragens da história do cinema, o filme italiano, de direção de Enrico Guazzoni, foi produzido no ano de 1913. Sua narrativa está voltada ao governo de Nero, destacando-se em sua perspectiva sobre as histórias de martírio cristãs. 

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=irmfIbMgJrk

L’Odissea, de Francesco Bertolini (1911)

Sinopse: Adaptação cinematográfica da Odisseia de Homero, a produção, dirigida por Bertolini, Padovan e De Liguoro em 1911, é igualmente um dos exemplos da indústria cinematográfica italiana. Vale ressaltar, também, que foi um dos títulos que competiram na feira mundial “Turin International”, comemorando o aniversário de unificação italiana.

Imagem: Enquadramento da abertura de L’Odissea, 1911.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=PRGfVOlVbLQ

Imagem: Pôster de Three Ages, 1923.

The Three Ages, de Buster Keaton (1923)

Sinopse: Comédia de Buster Keaton, foi produzida pelo cinema estadunidense em 1923. Apresenta comparações divertidas entre as formas de amar no mundo pré-histórico, romano e moderno, revelando uma comicidade interessante sobre os dramas amorosos comuns ao cinema.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=_namYNU0wvQ

Ben Hur, a Tale of the Christ, de Fred Niblo (1925)

Sinopse: Inspirado no romance homônimo de Wallace (1880), o filme foi produzido nos Estados Unidos sob a direção de Fred Niblo. Aliando elementos romanos e cristãos, conta a conhecida história de Ben-Hur, príncipe judeu traído por seu amigo romano, Messala. Um ótimo filme para compreender os primeiros passos do cinema épico!

Link para acessar o filme: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ben_Hur_A_Tale_of_the_Christ_(1925).webm

Imagem: Pôster de Ben-Hur, a Tale of the Christ, 1925.

  • Heloisa Motelewski

A Recepção da Antiguidade no Cinema

Foto preta e branca de trem nos trilhos ao lado de fumaça

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Cena do filme La Caduta di Troia, de Patrone e Borgnetto (1911)

Olá, pessoal! Com o fim dos textos temáticos centrados na Recepção dos Clássicos pelas vanguardas, estamos agora preparando mais publicações, com um novo tema! A partir de hoje, nossos textos terão como assuntos centrais a Recepção dos Clássicos no cinema, contemplando as produções cinematográficas italianas e hollywoodianas, do Cinema Mudo e do Cinema Épico. 

O cinema, tido hoje como a sétima arte, também já foi considerado a Décima Musa, atribuição especialmente vinculada a seu momento de criação, o século XIX. Nesse período, o cinema se formou, essencialmente, a partir da articulação com diversas expressões artísticas, tornando-se, assim, um reflexo da dinamicidade das interações que estabelecia com essas outras produções. Além disso, foram primordiais as contribuições das novas propostas tecnológicas para a construção de tal identidade do cinema, um fator ainda determinante nas produções cinematográficas da atualidade. Desse modo, quando compostos sobre temas históricos, os filmes são constituídos, conforme relatam Michelakis e Wyke (2013), enquanto uma expressão propositalmente montada sobre o passado, impulsionando a criação de uma percepção mais vívida sobre a presença dos antigos em suas cenas. Por essa forma, o cinema combina, intrinsicamente as obras históricas, as temporalidades passada e presente, tendo como suporte uma experiência visual complexa. Nesta, são passíveis de serem percebidas, então, a contestação ou reprodução dos ideais de época, sejam estéticos, nacionalistas ou de valores sociais, contribuindo, por conseguinte, para a formação ou reformulação de um sentimento próprio de identidade. Nesse âmbito, os filmes se transformam, pois, em construtores e transmissores de uma “consciência histórica moderna” (WYKE, 1997), se estruturando enquanto meios particulares de releituras do passado. 

Neste ponto, vale abrir um espaço para considerar que tal perspectiva historiográfica sobre o cinema se consolidou nas teorias mais recentes. Isso pois, ao decorrer das transformações das percepções historiográficas sobre o uso de documentos históricos, acentuadamente pela extensão de sua definição a todo vestígio humano, o cinema, visto em um primeiro momento como representação fidedigna de seu contexto de produção, passou a ser encarado enquanto um discurso, seja ele do momento de sua criação, seja da época que retrata.  

Tendo em vista essas considerações sobre as relações entre passado e cinema, voltaremos nosso olhar, então, a dois momentos particulares de produção cinematográfica. Inicialmente, ao tratar do Cinema Mudo, teremos como ponto de partida aqueles filmes criados pela indústria italiana. Ressalta-se, portanto, o grande investimento destinado às suas companhias aos primórdios do século XX, elaborando uma aproximação particular entre o passado romano e o presente da Itália, e superando as apresentações teatrais por seus exímios mecanismos cinematográficos. Passando, então, ao Cinema Épico, dispensaremos uma especial atenção às produções de Hollywood, segundo o famoso “tradicional hollywoodiano”, marcado pela publicidade e pela extravagância – a qual se fazia cada vez mais exacerbada após o advento das produções televisivas, iniciadas à década de 1950. 

Assim, nota-se como as tecnologias e a Antiguidade são combinadas de modo a configurar, no cinema, uma consciência específica sobre o passado greco-romano, o vinculando, das mais diversas maneiras, à sua contemporaneidade. Por esse modo, veremos como os filmes, em suas relações com outros documentos, históricos ou artísticos, formam uma noção própria sobre o mundo antigo, e, também, como associam, seja pela perpetuação ou pela quebra, os valores da atualidade e as representações da Antiguidade. 

Por fim, comunicamos que, ainda esse mês, estaremos organizando mais uma live para o nosso canal do Youtube, dando continuidade a esse eixo temático de Recepção e Cinema. Então fiquem ligados nas nossas redes sociais, que lá vamos divulgar mais informações sobre o evento!

Bibliografia consultada:

MICHELAKIS, P.; WYKE, M. Introduction: silent cinema, Antiquity and ‘the exhaustless urn of time’. In: ______. The Ancient World in Silent Cinema. Nova York: Cambridge University Press, 2013. p. 1-24.WYKE, M. Projecting the past: Ancient Rome, Cinema and History. Nova York/Londres: Routledge, 1997.

WYKE, M. Projecting the past: Ancient Rome, Cinema and History. Nova York/Londres: Routledge, 1997.

  • Heloisa Motelewski

Hades: a possibilidade da contracultura nos jogos

Imagem de divulgação no Instagram

Lançado em 2020 e produzido pela Supergiant Games, Hades é um jogo eletrônico de modelo RPG de ação. No jogo assumimos o papel de Zagreus, um deus rebelde tentando escapar do submundo e de seu rigoroso pai Hades para poder encontrar sua mãe, Perséfone. Durante sua aventura, Zagreus encontra diversos personagens da mitologia grega, entre eles estão: Sísifo, as Erínias, Teseu, o minotauro, etc… A representação dos deuses gregos no jogo é um pouco relevada em razão que essa de grande forma ignora a violência cometida pelos deuses contra mortais, porém nesse texto desejo comentar sobre a narrativa do jogo como uma potencial forma de questionar representações heteronormativas de maneira similar a contracultura

Tendo seu auge na década de 1960, a contracultura foi um movimento de utilização dos meios de comunicação de massa para o questionamento dos padrões sociais, já comentado anteriormente no blog o filme Satyricon(1969) está nesse contexto sua trama demonstra diversos questionamentos de masculinidade e sexualidade. Em Hades vemos semelhantes discursos que conflitam com uma visão heteronormativa, em enfoque está o protagonista Zagreus que se dá a entender como bissexual, ao demonstrar interesse em Megera (Uma das Erínias e uma mulher) e em Tânatos (a personificação da morte e um homem) outros momentos ocorrem quando Zagreus interage com Afrodite, a deusa grega do amor, e essa comenta sobre a atração do personagem por homens e mulheres.

Esse tipo de representação é rara em jogos eletrônicos que normalmente são bastante hostis à comunidade LGBTQ+. Final Fight (1989), por exemplo, um jogo de estilo Beat ‘em up (que no Brasil geralmente é traduzido como jogo de briga de rua ou vulgarmente como jogo de porradaria), os personagens derrotam hordas de inimigos, entre eles a personagem conhecida como Poison mulher extremamente sexualizada com curvas volumosas e roupas reveladoras e os produtores, preocupados com a polêmica da possibilidade de se espancar uma mulher na rua, optaram por indicar que Poison é uma mulher transexual. Essa decisão implica uma lógica  que agredir uma mulher trans é mais correto ou legítimo do que uma mulher cis, o que é um discurso profundamente transfóbico e ,até hoje, suas aparições seguintes na série Street Fighter, são extremamente controversas e, normalmente, gera discussões acaloradas entre os fãs.

Isso nos faz questionar sobre a qualidade da representação de uma mulher trans quando essa existe apenas para deixar o jogador confortável em agredi-la, outro exemplo ocorre no jogo The King of Fighters(1994) com o personagem Benimaru esse é um dos lutadores do jogo, e sua característica mais chamativa são suas roupas e movimentos extravagantes isso acompanhado com o tom agudo da sua voz fez os jogadores questionarem quanto a sua sexualidade. Nas versões seguintes do jogo toda vez que a oponente de Benimaru é uma mulher a animação de entrada altera para uma espécie de cantada, nesse ponto podemos questionar também um óbvio machismo no qual o papel de uma mulher é de afirmar a viralidade de um homem

Tais interpretações também são comuns no cinema trago como exemplo o filme Tróia (2004) onde não só o romance de Aquiles (Brad Pitt) com Pátroclo (Garrett Hedlund) é rescrito, já que tornam-se primos, ao invés de amantes, papel dado a sacerdotisa Briseis (Rose Byrne) similar ao caso de Benimaru, quando tendo sua sexualidade questionada o homem exerce sua virilidade conquistando uma mulher

Falando em Aquiles e Pátroclo, os dois também aparecem em Hades. Toda vez que Zagreus morre em combate no submundo (o que acontece com bastante frequência no jogo) ele retorna ao palácio de seu pai onde conversa com os membros da corte e um desses personagens é Aquiles, que foi encarregado por Hades em treinar Zagreus. Aquiles é um dos personagens com que Zagreus possui maior afinidade no início do jogo e ele comenta sobre seu único arrependimento é não ter passado mais tempo com o amor de sua vida. Bem em uma de suas excursões por Elísio Zagreus encontra com esse amor, Pátroclo, que apesar de ressentido ainda ama Aquiles. O jogador pode então escolher por reunir os dois, em nenhum momento a proeza militar de ambos é  questionada, com Aquiles sendo o mestre de armas de Zagreus e Pátroclo exaltado em Elísio; seu romance é tido como um amor que conquista a tudo inclusive a morte.

O retorno aos clássicos pode assim demonstrar visões de passado conservadoras como no filme Troia onde o herói é viril porque é hétero e homem como também novos tipos de representações onde o herói continua sendo herói pouco importando sua sexualidade, demonstra como são possíveis novas narrativas não apenas sobre a mitologia grega, mas também das representações não heteronormativas em um ambiente como o dos jogos.

  • Vitor Gabriel Maidl

FESTA DA PRIMAVERA: ANTIGUIDADE E CELEBRAÇÃO

Você já se perguntou como surgiram as celebrações de sua cidade? Quais os símbolos e significados conduzidos, através dos tempos, por essas festividades? O post dessa semana dedica-se a apresentar aos estudantes, pesquisadores e entusiastas da Antiguidade Clássica, como a ‘Festa da Primavera’ marcou a sociedade curitibana do final do século XIX e início do XX.

Como parte deste grupo plural e de múltiplas origens, a capital paranaense nos ofereceu, para além de residência, os ingredientes necessários para nutrir a paixão pela História Antiga e suas conexões com o presente.

CURITIBA E A APOTEOSE DA NATUREZA

A Festa da Primavera, culto idealizado pelo príncipe dos poetas paranaenses, Emiliano Pernetta e seu colega Dario Vellozo, simbolista notável da época, tinha entre suas principais intenções promover, mediante uso da arte e da poesia, um ambiente de sociabilidade para a elite letrada, enquanto exaltava a influência da cultura helênica.

Homenagem a deusa Clóris, personificação da primavera grega, a cerimônia contava com a participação de homens, vestidos em túnicas brancas, com ramos de oliveira nas mãos e coroas de louros em suas cabeças, enquanto liam e interpretavam poemas, rememoração viva do teatro grego.

A participação feminina também era numerosa, consentida por seus pais-inventores, se deu principalmente no Templo das Musas, o sentimento da instituição de uma “Nova-Helade” inundava o espetáculo, no local que hoje conhecemos como sede do Instituto Neo Pitagórico. Particularidades que podem ser observadas nas imagens a seguir:

(Foto: acervo Museu da Imagem e do Som)
 (Acervo: Instituto Neo-Pitagórico)

Popularmente conhecida como “Rua das Flores”, a XV de Novembro, tornou-se ponto imprescindível dentro do roteiro de visita a cidade de Curitiba e um dos principais cenários para a celebração da Festa da Primavera, na virada do século.

Construída em petit pavé, alterna entre pedras brancas e pretas, desenhos de araucárias surgem e a vegetação escolhida como o símbolo do estado ganha plena forma. Fotografias registraram os desfiles anuais em que carruagens, cobertas por arcos de flores, atravessavam a região central do município, acompanhadas por uma multidão. Das sacadas dos casarões era possível observar o cotidiano urbano em suspensão. A solenidade interrompia o repetir das atividades rotineiras e as duas temporalidades partilhavam o existir, momentos responsáveis pela produção de um material de valor iconográfico inestimável, o coração do comércio vigente conquista o preservar de seu passado.

(Acervo: Casa da Memória – FCC online/pergamum)
(Fonte: Jornal Folha)

Desse modo, a representação das civilizações antigas como fonte de estudos, desencadeou uma via de comunicação entre o passado, daquele que já viveu, com o presente de quem observa. Os canais converteram-se em instrumentos colaborativos na compreensão do homem, dentro de uma República recém-instaurada, suporte necessário para entender como esse processo reverberou no comportamento da sociedade curitibana, entre 1890 e 1930.

Assim, a compreensão do corpo social como um coletivo, a criação de uma identidade, legitimada pela identificação daquilo que entendemos como origem, portanto íntegra, frente à face da democracia grega e da liberdade por ela edificada, transpassavam o universo da festividade em curso trivial. A colisão entre teoria e objeto, oferecem novas visões acerca dos estudos clássicos.

Referências
CHEVITARESE, A.L.; CORNELLI, G.; SILVA, M.A.O. A Tradição Clássica e o Brasil. Brasília, Fortium, 2008.
CLAVAL, P. A festa religiosa. Ateliê Geográfico, Goiânia, v. 8, n. 1, p. 6- 29. 2014.
MURICY, Andrade. O símbolo: à sombra das araucárias (Memórias). Conselho Federal de Cultura e Departamento de Assuntos Culturais, 1976.

  • Letícia Bail

Fora do Lugar, Edward Said

Capa do livro Fora do Lugar. Companhia das Letras. Imagem: reprodução.

O livro Fora do Lugar foi escrito por Edward Said pouco antes de seu falecimento em 2003 aos 68 anos de idade, a publicação original é de 1999 e começou a ser escrita pelo intelectual em maio de 1994, enquanto se restabelecia das sessões iniciais de quimioterapia para o tratamento de leucemia. Said, nascido em Jerusalém, foi crítico literário e cultural nos EUA, escreveu vários artigos acerca da questão palestina e livros como Orientalismo e Cultura e Imperialismo. Em Fora do Lugar, o autor tornou a escrita uma ferramenta de prazer em meio ao sofrimento do tratamento de câncer.

O livro trata da vida de Said até 1962, quando terminou o doutorado, sempre nos mostrando um pouco de presente, de como caminhava seu tratamento e de algumas ações recentes relacionadas a isso. A descrição, essencialmente, aborda os lugares onde viveu (Jerusalém, de 1935 até 1947; Cairo, de 1947 até 1951; uma cidadezinha no Líbano, entre 1946 e 1969, durante os verões; e Nova York, a partir de 1951, indo passar os verões no Cairo, isso até ser banido por 15 anos do país por causa de ações ilegais do comércio de seu pai durante os anos Nasser), as escolas e os amigos de cada uma dessas localidades e a família. Tudo sempre com o pano de fundo da Segunda Guerra Mundial, da perda da Palestina e do estabelecimento de Israel, do fim da monarquia egípcia, dos anos Nasser, da guerra de 1967, da emergência do movimento palestino, da guerra civil libanesa e do processo de paz de Oslo.

As memórias de Edward Said nos permitiram pensar a respeito da escrita autobiográfica do autor, refletindo sobre seu intenso sentimento de deslocamento, de exilado, o que influencia na constituição de sua identidade. Na escrita de si, o pensador se identifica como um fora do lugar e ao longo de toda narrativa constrói a imagem disso, mostrando-nos como, desde muito jovem, era um desarticulado, inclusive, chegando ao fim de sua vida, como alguém dissonante.

Nesse seu processo de autoarquivamento, Said mostra-nos a sua necessidade de estabelecer uma conexão entre a sua vida presente e o passado no mundo árabe, a fim de manter a disciplina na escrita, combatendo o sofrimento da doença, e tecendo a sua própria existência. Assim, a leitura das memórias de Said nos possibilitou a reflexão a respeito de que a memória é constituída por traços, cuja construção e reconstrução é sempre parcial, formando certa imagem do passado.

Para nós, especificamente, esse pensamento, gera um questionamento a respeito de como determinada memória da Antiguidade é feita e apresentada ao público atualmente nos museus – seria uma Antiguidade objetos expostos com intenções legitimadoras? De constituir a identidade de um lugar?

Enfim, além dessas questões, outras também surgiram a partir dessa leitura do livro de Said em conjunto com o nosso interesse pelo mundo antigo: os museus e demais lugares de memórias, bem como os pesquisadores, realizam a construção de identidades, no tempo-espaço? Com quais tipos de objetos e traços? Os legitimadores? Os deslocados?

  • Camilla Miranda Martins