Antiga e Conexões Indica: Filmes do Cinema Épico

Imagem: Divulgação.

Olá, pessoal! Esperamos que tenham gostado das dicas de filmes do cinema mudo, e que tenham conseguido assistir. No post de hoje preparamos mais algumas recomendações, mas desta vez incluímos alguns nomes do cinema épico. Esperamos que apreciem a seleção e tenham um bom momento assistindo aos filmes que retomam o passado greco-romano. Lembrando que nós do Antiga e Conexões produzimos uma coletânea de textos temáticos a respeito da recepção dos antigos no cinema.

Imagem: Pôster de Medea, 1969.

Medea, de Pier Paolo Pasolini (1969)

Sinopse: Dirigido por Paolo Pasolini, e estrelado por Maria Callas, o filme de 1969 retoma o mito de Medéia e Jasão retratando o roubo do velocino de ouro. A trama é cercada por dramas e acontecimentos épicos. Um bom filme para se distrair e entrar no mundo da mitologia através da ótica de Pasolini.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=3CVsrc7cu_o 

Messalina, de Vittorio Cottafavi (1960)

Sinopse: A trama se passa durante o século primeiro, após a morte de Calígula e da proclamação de Claudius como imperador, tendo então seu casamento arranjado com a jovem sedutora Messalina. Protagonizado por Belinda Lee, o enredo conta com mortes, vinganças e entre outros eventos dramáticos envolvendo a jovem.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=vKE9orT2Zsc

Imagem: Pôster de Messalina, 1960.
Imagem: Pôster de Cleopatra, 1963.

Cleopatra, de Joseph L. Mankiewicz (1963)

Sinopse: O drama é uma adaptação da obra de Carlo Maria Franzero, que conta a história da rainha Cleópatra, estrelado por Elizabeth Taylor e estreado em 1963, o filme americano ganhou grande notoriedade no período que foi lançado, sendo uma importante película do cinema épico americano.

Link para acessar o filme: https://ok.ru/video/947679463989

Os 300 de Esparta, de Rudolph Maté (1962)

Sinopse: O filme de 1962, trata da conhecida batalha das termópilas entre os gregos e os persas, a adaptação é estrelada por Richard Egan. Tal tema foi posteriormente adaptado por Zack Snyder em 2007, vale a pena conferir a película de 1962 e ver como tal tema foi adaptado em diferentes temporalidades.

Link para acessar o filme: https://ultracine.club/filme/os-300-de-esparta

Imagem: Pôster Os 300 de Esparta, 1962.
Imagem: Pôster do filme O Gigante da Maratona, 1959.

O Gigante de Maratona, de Jacques Tourneur  (1959)

Sinopse: A película de Jacques Tourneur conta a história do campeão Fidípides, que durante a primeira guerra médica defende Atenas na batalha de Maratona contra os invasores Persas. O filme é estrelado por Steve Reeves e foi lançado em 1959.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=wUxHcWEoX_A  

  • Renata Cristina Oliveira

Antiga e Conexões Indica: Filmes do Cinema Mudo

Imagem: Divulgação.

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Hoje gostaríamos de compartilhar com vocês nossas indicações sobre cinema! Para a finalização do nosso projeto sobre os estudos de recepção nas produções cinematográficas, preparamos uma listinha de recomendações especiais de filmes mudos com o enredo ligado à Antiguidade greco-romana. Repletos de drama, aventura, romance ou comédia, esperamos que façam vocês se divertir e apreciar essas leituras visuais excepcionais sobre o mundo antigo. Um bom filme!

Cabiria, de Giovanni Pastrone (1914)

Sinopse: Produção cinematográfica italiana, foi dirigida por Giovanni Pastrone em 1914. Seu enredo tem como ponto principal os conflitos entre romanos e cartagineses, especialmente expressos ao longo da história de vida de Cabiria, menina romana capturada por fenícios. É, certamente, um dos clássicos do cinema mudo italiano.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=KN4YszmBpLk

Imagem: Pôster de Cabiria, 1914.

Imagem: Pôster de Quo Vadis?, 1913.

Quo Vadis?, de Enrico Guazzoni (1913)

Sinopse: Por muitos considerado como um dos primeiros longa-metragens da história do cinema, o filme italiano, de direção de Enrico Guazzoni, foi produzido no ano de 1913. Sua narrativa está voltada ao governo de Nero, destacando-se em sua perspectiva sobre as histórias de martírio cristãs. 

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=irmfIbMgJrk

L’Odissea, de Francesco Bertolini (1911)

Sinopse: Adaptação cinematográfica da Odisseia de Homero, a produção, dirigida por Bertolini, Padovan e De Liguoro em 1911, é igualmente um dos exemplos da indústria cinematográfica italiana. Vale ressaltar, também, que foi um dos títulos que competiram na feira mundial “Turin International”, comemorando o aniversário de unificação italiana.

Imagem: Enquadramento da abertura de L’Odissea, 1911.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=PRGfVOlVbLQ

Imagem: Pôster de Three Ages, 1923.

The Three Ages, de Buster Keaton (1923)

Sinopse: Comédia de Buster Keaton, foi produzida pelo cinema estadunidense em 1923. Apresenta comparações divertidas entre as formas de amar no mundo pré-histórico, romano e moderno, revelando uma comicidade interessante sobre os dramas amorosos comuns ao cinema.

Link para acessar o filme: https://www.youtube.com/watch?v=_namYNU0wvQ

Ben Hur, a Tale of the Christ, de Fred Niblo (1925)

Sinopse: Inspirado no romance homônimo de Wallace (1880), o filme foi produzido nos Estados Unidos sob a direção de Fred Niblo. Aliando elementos romanos e cristãos, conta a conhecida história de Ben-Hur, príncipe judeu traído por seu amigo romano, Messala. Um ótimo filme para compreender os primeiros passos do cinema épico!

Link para acessar o filme: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ben_Hur_A_Tale_of_the_Christ_(1925).webm

Imagem: Pôster de Ben-Hur, a Tale of the Christ, 1925.

  • Heloisa Motelewski

Cinema e Recepção – Coletânea de Textos Temáticos

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Semana passada publicamos nosso primeiro material, referente aos primeiros meses de trabalho deste ano. Hoje, divulgamos seu segundo volume, no qual reunimos as produções vinculadas à temática da recepção nas produções cinematográficas. Com elas, e seguindo a proposta do primeiro volume, anexamos imagens e dicas de leitura para uma maior interatividade. Assim, procuramos poder propagar nossos trabalhos, alcançando novos espaços de discussão e de estudos. Esperamos que todas e todos apreciem essa leitura!

Para acessar o material: https://issuu.com/antigaeconexoes/docs/publica_o_antiga_e_conex_es_-_vol._ii

E como mencionamos em nossas redes, também estamos disponibilizando as duas coletâneas para download, em formato pdf. Para acessá-los, é só clicar nos links abaixo:

Volume I – Recepção na Obra de Giorgio De Chirico: https://drive.google.com/file/d/1_M4386e7SolF1nYHtiBgz0lERrA4yI2z/view?usp=sharing

Volume II – Cinema e Recepção: https://drive.google.com/file/d/1mHNBZ-dFZcjM7DaP_ecYz6Rt6j-2_9aJ/view?usp=sharing

A masculinidade moderna construída no imagético da Grécia Antiga no épico “Jasão e os Argonautas” (1963)

Imagem de divulgação do Instagram

Dando sequência a série de textos sobre a antiguidade no cinema, hoje, o tema da postagem será o filme “Jasão e os Argonautas” de 1963, do diretor Don Chaffey. A obra em questão virou tópico de análise sobre diversas questões a pensar sobre a recepção no cinema épico entre os membros do blog. Assim, para esse texto, atentei-me a observar a construção da masculinidade e da identidade do herói na figura do protagonista Jasão.

No filme, baseado nos contos da mitologia grega, Jasão é um herói que parte em busca do “Velo de Ouro” – uma pele de cordeiro dourada – com supostos poderes mágicos que trariam a paz e a ordem para o reino de Tessália, o qual estava em estado de instabilidade após a morte de seu pai, o rei Esão. Ao recrutar os melhores homens gregos para o acompanharem em seu percurso, o protagonista, cumprindo uma profecia, segue com a proteção pessoal da deusa Hera, a qual intervém na vida dos “argonautas” (nome derivado do barco em que navegavam, Argo) a partir de uma espécie de jogo de tabuleiro contra seu cônjuge, Zeus.

O ator principal, Todd Armstrong, faz o papel de um Jasão jovem, bonito e forte, “viril”, que constitui um tipo de ideal de masculinidade não somente na parte física mas também comportamental. Seguindo uma espécie de “jornada do herói”, o enredo do filme tem uma estrutura simples, nessa fórmula, a imagem do que deveria ser o “homem” na sociedade moderna é construída utilizando um imagético da Grécia antiga.

Jasão expressa poucos sentimentos e se atém ao caráter valente do herói que não pode demonstrar fraquezas. Quando o personagem encontra Medeia, sacerdotisa de Hecate e filha do Rei Eetes, perdida no mar e a resgata, tem-se o início do que seria um futuro relacionamento entre os dois. Entretanto, Medeia tem uma imagem também idealizada e a atitude de Jasão a ela é de objetificação. Em uma das cenas finais, quando Medea se reencontra com o protagonista e decide que seguiria ao seu lado, traindo seu pai, o emocional representado é quase nulo, como se apenas existisse um acordo que daria sentido a ideia do “mocinho” ficar com a bela mulher da história.

Além disso, a construção visual do corpo também faz parte da narrativa, tanto para o homem quanto para a mulher. Jasão, enfrentado todos os percalços do épico se vê obrigado a lutar, a liderar, a ser forte, por outro lado, Medeia é uma mulher sedutora, sensual e de beleza física impressionante destinada a acompanhar o herói de forma a representar uma recompensa a ele.

Pensando na Recepção do mundo antigo a partir de filmes como “Jasão e os Argonautas”, os chamados filmes peplum, podemos observar os usos do passado na construção das narrativas modernas. Além do aproveitamento textual dos mitos gregos, o cinema também abre a possibilidade da construção visual através da imagem em movimento, na obra em questão, o modelo de masculinidade descreve o imaginário da figura do homem ocidental e de sua masculinidade idealizada, um fabrico da sociedade moderna.

Bibliografia consultada:

ELLEY, Derek. The Epic Film: Myth and History. London: Routledge, 1984.

KIMMEL, Michael. Manhood in America: A Cultural History. 2nd. ed. New York: Oxford University, 2006.

  • Guilherme Bohn dos Santos

Cleópatra de 1963 construindo a visão coletiva da rainha egípcia

Elizabeth Taylor como Cleópatra. Imagem: divulgação

Em 1963, a empresa americana 20th Century fox lança o filme Cleópatra, com duração de cinco horas e com um orçamento de 31 milhões de dólares, o que pode não parecer muito mas se corrigirmos a inflação isso seriam aproximadamente 263 milhões hoje em dia. Para se ter uma ideiam esse foi o orçamento de Star Wars: Episódio VIII – Os Últimos Jedi, lançado em 2017. Star Wars, somente nos EUA, arrecadou 1.3 bilhões de dólares, enquanto Cleópatra arrecadou apenas 57 milhões e quase levou a empresa a falência. Diante disso, a pergunta aqui é: por que? Po rque 20th Century Studios tomou tamanha aposta com o filme?

Sheldon Hall e Steve Neale nos ajudam a responder essa pergunta em Epics, spectacles, and blockbusters. Segundo os autores, a marca dos anos 60 foi a politica dos roadshows, popularizados pelo filme Os dez mandamentos (1953). Essa era basicamente a prática da venda do filme com assentos sendo reservados, para lucrar com esse método o atrativo do filme seria sua qualidade e proporções, isso explica a longa extensão dos filmes que chocam as audiências atuais acostumadas com filmes de no máximo duas horas e meia, enquanto Os dez mandamentos tem uma duração de mais de três horas. As empresas apostavam em histórias que atrairiam o grande público, em especial o estilo sandália e espada marcou essa era, sendo assim a proposta de retratar um épico deveria retornar os custos gigantescos dessas produções, entretanto isso apenas move a questão de porque Cleópatra? A resposta é simples, porque deu certo antes.

Retratar Cleópatra VII em formato cinematográfico já tinha sido feito antes com grande sucesso em especial as versões de 1917 e 1934. O primeiro é um filme mudo estrelando Theda Bara, o segundo um épico em preto e branco estrelando Claudette Colbert. Em Reception Studies, Lorna Hardwick levanta uma questão essencial para o entendimento dos estudos de recepção, esses passam por diversos filtros através das diversas produções, e as Cleópatra(s) dessa forma se inspiram em suas versões subsequentes, o que é demonstrado pela semelhante estrutura das três histórias que tomam como base a peça shakespeariana Antônio e Cleópatra, a qual data do século XVII, e representa Cleópatra como uma mulher que seduz homens poderosos para a ajudar em seus planos.

Cleópatra de 1963 porém não obteve o sucesso das versões anteriores, retorno Sheldon Hall e Steve Neale para justificar como o fracasso de bilheterias desse filme paradoxalmente o fez tão importante para os estudos de recepção, segundo os autores os executivos agora presos com um filme que nenhuma sala de cinema queria e a empresa passado por problemas financeiros foram forçados a tomar uma solução drástica, vender o filme para companhias de televisão, tal medida recuperou os gastos da empresa, mas também fez algo, marcou o fim de uma era, se antes a politica dos roadshows tinha mantido o cinema como uma comodidade exclusiva o filme para a televisão abriu as portas para o grande público, mas também fez algo a mais esse filme mudou a nossa visão da rainha egípcia.

Nas duas versões anteriores, apesar de ser o nome dela no título, as coisas não acontecem por causa de Cleópatra, elas acontecem para ela. A personagem não é central da trama e sim uma vítima dela. Tanto em 1917 quanto em 1934, a morte da rainha ocorre como um triunfo do vilão Octaviano. Ela morre para evitar as humilhações que sofrerá nas mão dele, Cleópatra morre porque a trama a levou a isso. No último capítulo de sua obra, Hardwick levanta uma questão essencial para o entendimento dos estudos das recepções dos antigos. Toda obra ao dialogar com o presente e com o passado traz novos sentidos para o assunto, o exemplo usado no último capítulo, são os das peças do dramaturgo grego Sófocles.

Camille Paglia vai se referir a Cleópatra como a primeira Femme Fatale e Cleópatra de Elizabeth Taylor é exatamente isso, ela é tudo menos vitima, ao contrário. Todos os membros da trama são vítimas dela, seu intelecto assim como sua sedução formam a marca de seus planos. A personagem é bela, maquiavélica e acima de tudo perigosa, até mesmo a sua morte é uma ação ardilosa que fracassa o plano de Octaviano. Conforme explica Hardwick, as recuperações dos antigos formam as imagens deles frente ao grande público, mas isso é possível somente se essa interpretação atingir o grande público. Se hoje em dia continua-se a discutir a interpretação de Taylor quanto as questões de, como por exemplo, raça e gênero, é porque esse filme foi capaz de marcar uma geração. Mais do que abrir um épico para o grande público, ele também formou a visão coletiva de Cleópatra VII. O filme talvez não tenha sido um sucesso de bilheterias, mas por causa disso ele tornou-se o memorável clássico que ainda é motivo de debate cinquenta anos após seu lançamento.

Referencias

HARDWICK, Lorna. Reception studies. 2003.

HALL, Sheldon. NEALE, Steve.Epics, spectacles, and blockbusters: A Hollywood history. Wayne State University Press, 2010.

  • Vitor Gabriel Maidl

A Recepção da Antiguidade no Cinema

Foto preta e branca de trem nos trilhos ao lado de fumaça

Descrição gerada automaticamente com confiança baixa

Cena do filme La Caduta di Troia, de Patrone e Borgnetto (1911)

Olá, pessoal! Com o fim dos textos temáticos centrados na Recepção dos Clássicos pelas vanguardas, estamos agora preparando mais publicações, com um novo tema! A partir de hoje, nossos textos terão como assuntos centrais a Recepção dos Clássicos no cinema, contemplando as produções cinematográficas italianas e hollywoodianas, do Cinema Mudo e do Cinema Épico. 

O cinema, tido hoje como a sétima arte, também já foi considerado a Décima Musa, atribuição especialmente vinculada a seu momento de criação, o século XIX. Nesse período, o cinema se formou, essencialmente, a partir da articulação com diversas expressões artísticas, tornando-se, assim, um reflexo da dinamicidade das interações que estabelecia com essas outras produções. Além disso, foram primordiais as contribuições das novas propostas tecnológicas para a construção de tal identidade do cinema, um fator ainda determinante nas produções cinematográficas da atualidade. Desse modo, quando compostos sobre temas históricos, os filmes são constituídos, conforme relatam Michelakis e Wyke (2013), enquanto uma expressão propositalmente montada sobre o passado, impulsionando a criação de uma percepção mais vívida sobre a presença dos antigos em suas cenas. Por essa forma, o cinema combina, intrinsicamente as obras históricas, as temporalidades passada e presente, tendo como suporte uma experiência visual complexa. Nesta, são passíveis de serem percebidas, então, a contestação ou reprodução dos ideais de época, sejam estéticos, nacionalistas ou de valores sociais, contribuindo, por conseguinte, para a formação ou reformulação de um sentimento próprio de identidade. Nesse âmbito, os filmes se transformam, pois, em construtores e transmissores de uma “consciência histórica moderna” (WYKE, 1997), se estruturando enquanto meios particulares de releituras do passado. 

Neste ponto, vale abrir um espaço para considerar que tal perspectiva historiográfica sobre o cinema se consolidou nas teorias mais recentes. Isso pois, ao decorrer das transformações das percepções historiográficas sobre o uso de documentos históricos, acentuadamente pela extensão de sua definição a todo vestígio humano, o cinema, visto em um primeiro momento como representação fidedigna de seu contexto de produção, passou a ser encarado enquanto um discurso, seja ele do momento de sua criação, seja da época que retrata.  

Tendo em vista essas considerações sobre as relações entre passado e cinema, voltaremos nosso olhar, então, a dois momentos particulares de produção cinematográfica. Inicialmente, ao tratar do Cinema Mudo, teremos como ponto de partida aqueles filmes criados pela indústria italiana. Ressalta-se, portanto, o grande investimento destinado às suas companhias aos primórdios do século XX, elaborando uma aproximação particular entre o passado romano e o presente da Itália, e superando as apresentações teatrais por seus exímios mecanismos cinematográficos. Passando, então, ao Cinema Épico, dispensaremos uma especial atenção às produções de Hollywood, segundo o famoso “tradicional hollywoodiano”, marcado pela publicidade e pela extravagância – a qual se fazia cada vez mais exacerbada após o advento das produções televisivas, iniciadas à década de 1950. 

Assim, nota-se como as tecnologias e a Antiguidade são combinadas de modo a configurar, no cinema, uma consciência específica sobre o passado greco-romano, o vinculando, das mais diversas maneiras, à sua contemporaneidade. Por esse modo, veremos como os filmes, em suas relações com outros documentos, históricos ou artísticos, formam uma noção própria sobre o mundo antigo, e, também, como associam, seja pela perpetuação ou pela quebra, os valores da atualidade e as representações da Antiguidade. 

Por fim, comunicamos que, ainda esse mês, estaremos organizando mais uma live para o nosso canal do Youtube, dando continuidade a esse eixo temático de Recepção e Cinema. Então fiquem ligados nas nossas redes sociais, que lá vamos divulgar mais informações sobre o evento!

Bibliografia consultada:

MICHELAKIS, P.; WYKE, M. Introduction: silent cinema, Antiquity and ‘the exhaustless urn of time’. In: ______. The Ancient World in Silent Cinema. Nova York: Cambridge University Press, 2013. p. 1-24.WYKE, M. Projecting the past: Ancient Rome, Cinema and History. Nova York/Londres: Routledge, 1997.

WYKE, M. Projecting the past: Ancient Rome, Cinema and History. Nova York/Londres: Routledge, 1997.

  • Heloisa Motelewski

A História de Édipo na Nouvelle Vague Japonesa, o mito, o cinema e a política

O Funeral das Rosas — Bara no sôretsu (Toshio Matsumoto, 1969) | by Larissa  Goya Pierry | Subvercine | Medium
Cartaz do filme “O Funeral das Rosas”. Imagem: divulgação.

É notável que os gregos e romanos já foram temas de diversas produções cinematográficas, desde filmes infantis como “Hércules” da Disney até os “300 de Esparta” ou “Gladiador”. Porém, neste post pretendo abordar uma obra cinematográfica um pouco mais underground, que fez parte do movimento da Nouvelle Vague japonesa, trata-se do filme “O Funeral das Rosas” (Bara no Sōretsu), de Toshio Matsumoto, lançado em 1969. O filme conta a história de Eddie, uma mulher trans que ao longo de sua jornada assassina a própria mãe, e possui relações com o seu pai, ou seja, a história traz uma adaptação do mito de Édipo do grego Sófocles, que viveu no século V a.C apogeu da escrita na Grécia antiga. A tragédia de Édipo é um clássico que já foi adaptado e debatido em diversas áreas, desde a filosofia, história, literatura, psicologia e entre outras.


Nos anos 1960 na França houve a ascensão da Nouvelle Vague rompendo com as tradições estabelecidas pelos cineastas que já estavam no mercado. O nome foi dado pela imprensa na época para se referir a filmes que eram muitas vezes independentes, dirigidos por pessoas mais jovens que não possuíam muita experiência no mercado do audiovisual e eram interpretados por atores não tão famosos quanto os das antigas grandes produções. Os filmes que muitas vezes eram gravados nas próprias ruas da cidade foram muito bem aceitos pelo público, principalmente o mais jovem. Alguns nomes importantes do movimento são François Trufautt, Jean-Luc Godard, e Agnés Varda. É bem provável que você já tenha ouvido falar ou assistido algum filme dirigido por um deles, afinal o movimento ganhou muita importância ao redor do mundo e o fenômeno não ficou restrito só a França, algo similar estava acontecendo em outros países.


No caso do Japão a Nouvelle Vague ou Nūberu bāgu, tem o surgimento associado a um grupo da Nova Esquerda japonesa, a qual ascendeu no período pós-guerra em conflito com a esquerda institucionalizada representada pelo Partido Comunista Japonês (PCJ). A esquerda institucionalizada angariava um discurso que propagava o medo da volta ao passado pré-moderno, ou que o povo japonês se tornasse vítima de um regime autoritário, nesse sentido, defendia o que acreditava ser a paz e a democracia alcançada no pós-guerra. Já a Nova Esquerda não acreditava que se quer houvesse existido essa paz e democracia no Japão pós-guerra, defendendo que as ações políticas deviam ser baseadas não em um medo das pessoas se tornarem vítimas, mas sim atacassem o capitalismo e a democracia liberal.

No contexto da renovação do tratado de Cooperação Mútua e Segurança entre o Japão e os Estados Unidos, assinado em 1970, a decisão de permanecer com o pacto foi visto pela Nova Esquerda como uma complacência do Japão, e não como se este estivesse em uma posição de vítima tal como alegava o PCJ. A nova esquerda se fortaleceu ainda mais durante o período da guerra do Vietnam, onde o Japão forneceu suporte logístico para o Estados Unidos, gerando revolta nos jovens que faziam parte do movimento. Algumas das características importante da Nova Esquerda Japonesa presentes nos filmes da Nūberu bāgu, são as de que ambos contavam com a participação da juventude e faziam críticas a modernidade e a crença de um progresso linear. A radicalização na maneira da produção cinematográfica acompanhou o processo político de radicalização da Nova Esquerda.


A temática mitológica é vista em diversos filmes da Nūberu bāgu, em geral há uma retomada dos mitos que remontam ao período do Japão pré-moderno, mas também como é o caso de “O Funeral das Rosas”, existe uma abordagem de mitos ocidentais. Ao utilizar esses mitos os cineastas buscavam uma maneira de subverter alguns símbolos do passado pré-moderno para abordar questões do presente. Ao recontar o mito de Édipo, Toshio Matsumoto traz algumas questões a respeito da inevitabilidade dos comportamentos sociais e de acordo com David Pinho Barros, (PhD em estudos interartísticos, literários e culturais pela Universidade do Porto), o filme mostra que a revolução proposta pela Nova Esquerda estava se dando mais no campo social do que no político. Afinal, de acordo com ele, a obra de Matsumoto apresenta um retrato onde as regras que regem o universo social se passam em um microcosmo diferente da esfera maioritária, indicando então essa diferença entre o desfecho da revolução nas camadas políticas e sociais.

REFERÊNCIAS
BARROS, David Pinho. Édipos, Sísifos e Onis: Reescrita de mitos em Matsumoto, Teshigahara e Shindô. In: Teatro do mundo v.06, 2012. p. 165-174.
DE VARGAS, Ferran. Japan’s New Left and New Wave. An Ideology’s Perspective as an Alternative to That of National Cinema. In: Arts, Multidisciplinary Digital Publishing Institute, 2019.
MARIE, Michel. A Nouvelle Vague. In: Significação: Revista de Cultura Audiovisual, v. 30, n. 19, p. 165-180, 2003.

  • Renata Cristina de Oliveira

300 versus a História

Em 2007, a indústria cinematográfica deu luz (e câmeras e ação) ao filme 300, de Jack Snyder, baseado na HQ homônima de Frank Miller, de 1998. O filme foi um tremendo sucesso e garantiu uma sequência direta, 300: A Ascensão do Império, novamente baseada em uma HQ (Xerxes: The Fall of the House of Darius and the Rise of Alexander) de Miller. Apesar dos títulos, a história acaba sendo muito mais um manifesto fantasiado de filme histórico do que propriamente um filme histórico, mesmo considerando toda a liberdade que se deva dar ao roteiro para ele não se tornar um filme cult chato apenas para intelectuais historiadores e alguns entusiastas mais hardcores. Embora os negacionistas de plantão (eles sempre se negam a não aparecer) tentem salvar a imagem do filme e da HQ, o discurso Nós x Eles, Liberdade x Escravidão, Democracia x Tirania, Homogeneidade x Heterogeneidade, Ocidente x Oriente, e assim a lista segue e segue, é estocado garganta abaixo dos espectadores. Entretanto, o filme não é a primeira obra a se aproveitar da Batalha das Termópilas para vender valores Ocidentais do final do século XX e começo do XXI; Portões de Fogo, de Steven Pressfield, por exemplo, faz o mesmo não apenas com uma romantização ainda mais absurda em termos de História Antiga e de plot, mas é também extremamente mal escrito (fica a dica de não-leitura).

Cena do filme 300

O modo como Esparta é mostrada como guardiã da liberdade é um tremendo plot twist em relação ao que Esparta realmente era: escravocrata e institucionalmente pedófila. Nem Snyder nem Miller mostraram essas faces espartanas, pois seus heróis não poderiam ser maculados com a quebra de valores morais do século XXI, pelo contrário, eles eram os baluartes desses valores. Os atenienses são os amantes de garotos, os persas são os libertinos, seu exército é um amalgama excêntrico de árabes e negros, mas os espartanos são brancos, sarados e têm uma habilidade bélica imbatível, vencidos apenas por causa da traição de um Efialtes “Quasímodo versão Espartana” – obviamente o traidor tem que ter uma aparência disforme, ele não pode se parecer com os mocinhos.

Cena do filme 300

O filme, seguindo sua matriz milleriana, se centra em personagens de falas contundentes, austeros, prontos para se sacrificar em nome de seu povo, sem aliados ou de qualificação insatisfatória, militaristas e de alto valor (vide a cena em que invés de se curvar à morte, Leonidas prefere tentar um último arremesso de lança), em uma relação maniqueísta contra O Grande Mal encarnado em Xerxes e seu decadente Império. Invés do cinema ter tentado tornar o passado mais convidativo, equilibrando o lado lúdico e o educativo, ele criou uma panfletagem bélica, anacrônica e essencialmente xenofóbica, vestida com escudo, capa, elmo e lança. A sensação pós 300 é de luto, mas não pelos personagens, mas pelo passado, o presente e o futuro, pois o que ganhou voz ampliada nas caixas de som do cinema foram delírios de um autor que tinha uma visão de história deveras intrigante, não apenas do passado antigo quanto daquele recente, visto sua HQ e seus comentários que dava em entrevistas sobre o papel dos EUA no mundo.

  • André S. N. Pinto

Sugestão de leitura:

KASHANI, Tony. “300: Proto-fascism and Manufacturing of Complicity”. <http://www.tonykashani.com/?page_id=7&gt;.