Cinema e Recepção – Coletânea de Textos Temáticos

Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Semana passada publicamos nosso primeiro material, referente aos primeiros meses de trabalho deste ano. Hoje, divulgamos seu segundo volume, no qual reunimos as produções vinculadas à temática da recepção nas produções cinematográficas. Com elas, e seguindo a proposta do primeiro volume, anexamos imagens e dicas de leitura para uma maior interatividade. Assim, procuramos poder propagar nossos trabalhos, alcançando novos espaços de discussão e de estudos. Esperamos que todas e todos apreciem essa leitura!

Para acessar o material: https://issuu.com/antigaeconexoes/docs/publica_o_antiga_e_conex_es_-_vol._ii

E como mencionamos em nossas redes, também estamos disponibilizando as duas coletâneas para download, em formato pdf. Para acessá-los, é só clicar nos links abaixo:

Volume I – Recepção na Obra de Giorgio De Chirico: https://drive.google.com/file/d/1_M4386e7SolF1nYHtiBgz0lERrA4yI2z/view?usp=sharing

Volume II – Cinema e Recepção: https://drive.google.com/file/d/1mHNBZ-dFZcjM7DaP_ecYz6Rt6j-2_9aJ/view?usp=sharing

A beleza e o mundo clássico

O primeiro lançamento da coleção “Fluir Perene”, escrito por José Ribeiro Ferreira e Rui Morais, o livro intitulado A Busca da Beleza, A arte e os artistas na Grécia Antiga narra de maneira acertada, para os entusiastas da História Antiga, como a Arte originou-se e foi incorporada dentro dos processos de edificação, do que hoje conhecemos como às primeiras civilizações da Antiguidade Clássica.

Destinado, logo no prefácio, como um complemento a gama de conhecimentos já incorporados pelos teóricos, de acordo com Ferreira (2008, p.5) “o estudo sobre […] a arte e os artistas na Grécia Antiga destina-se fundamentalmente ao ensino universitário e aos alunos que estudam a arte grega e romana, embora não desdenhe o interesse de público mais vasto.”. Apresentando-se como suporte na busca pela conquista de novos públicos, externo aos muros da Universidade, as páginas procuram despertar a curiosidade do leitor acerca de temas como a arquitetura, envolvida na elaboração dos grandes templos, através das mais conhecidas técnicas de colunas gregas, Dóricas, Jônicas e Coríntias – artifícios gravados na fachada exterior do Prédio Histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Aprofundando gradativamente as proposições, estendendo-se ao manusear das cerâmicas, das pedras, entre outros materiais, essencialmente empregues na construção dos principais símbolos da identidade, das tradições e da cultura, responsáveis pela manutenção das esferas sociais e administrativas desses povos.

Nesse sentido, para finalizar a leitura de maneira instigante, os autores apresentam uma análise descritiva da construção de Atenas, cidade chamada de “Escola da Hélade”, apresentando aos leitores como a concepção de uma Acrópole fundada em ideais de igualdade, cultura, liberdade e progresso, influenciaram e ainda influenciam na formação das estruturas democráticas atuais, compreensão que nos afasta do ideal único de beleza e ornamentação, estigma associado aos povos gregos, sem abandonar a entonação narrativa estimulante, deveras provocativa. Uma visita ao clássico, sem perder de vista o contato com o presente.

Referência bibliográfica

FERREIRA, J. R.; MORAIS, R. A Busca da Beleza A arte e os artistas na Grécia Antiga. Coimbra: Simões & Linhares, 2008.

  • Letícia Bail

O príncipe Carataco: nacionalismo e construções ideológicas do masculino a partir do século XVI

Olá pessoal, tudo bem com vocês? Nós estávamos um pouco afastados, nos organizando frente a este cenário que estamos vivendo, mas com saudades desse nosso espaço aqui. Voltamos hoje com algumas novidades. Iremos postar nos próximos dias materiais para didáticos que podem auxiliar nossos colegas professores na tarefa de organizar as aulas não presenciais. Hoje, ficamos com a dica de leitura de Mariana Fujikawa: “O príncipe Carataco: nacionalismo e construções ideológicas do masculino a partir do século XVI”, escrito por Renato Pinto.

Esperamos que estejam todos bem ! Cuidem-se!

Gravura: Caractacus before the Emperor Claudius at Rome, c. 1800. A força física de Carataco contrasta com a fragilidade e afetação do imperador Cláudio. Imagem e descrição retiradas da tese de Renato Pinto “Duas Rainhas, um Príncipe e um Eunuco: gênero, sexualidade e as ideologias do masculino e do feminino nos estudos sobre a Bretanha Romana”.

O respectivo texto compõe a obra Antiguidade como presença: Antigos, Modernos e Usos do Passado, organizada e revisada por Glaydson Jose da Silva, Pedro Paulo A. Funari e Renata Senna Garrafoni. Nesse, Pinto discute como o príncipe bretão Caracato foi ressignificado nas artes e no meio acadêmico como um símbolo de masculinidade. Aponta o autor que a representação de sua imagem serviria aos propósitos do Estado inglês que estava nascendo nesse contexto e seu modelo de masculinidade seria ressaltado como uma virtude herdada pela modernidade inglesa.

O autor ressalta que essa pesquisa é possível devido ao fato de que nas últimas décadas houve um aumento nas publicações e pesquisas que debruçam-se sobre o masculino. Afirma, ademais, que os discursos que se pretendem como hegemônicos hierarquizam o mundo.

Carataco teria sido um príncipe, que, ao ser utilizado, ajudou a construir essas noções de hegemonia sobre o que deveria ser o masculino: ele seria um bretão que resistiu a conquista do Império Romano, mas que fora – afinal – capturado. Porém, afirma Tácito que Caracato comandava com tão forte autoritária e era tão afeiçoado ao seu povo que o imperador romano Claudio teria o perdoado e deixado que vivesse.

Essa figura do bretão como um líder da resistência foi importante em um contexto em que a Inglaterra estava em constante conflito com a França, com o movimento de independência americana e de outros povos das ilhas britânicas.

Por fim, conclui Pinto que os ideais de masculinidade e de feminilidade foram construídos. A retomada de figuras do passado, como a de Caracato, serviu como um importante aparato ideológico de legitimação das normas de conduta das mulheres e também dos homens. Ademais, finaliza seu artigo ressaltando que os conceitos dos Usos do Passado são importante referencial teórico-analítico dessas questões.

PINTO, Renato – “O príncipe Carataco: nacionalismo e construções ideológicas do masculino a partir do século XVI.” In: FUNARI, Pedro Paulo; GARRAFFONI, Renata Senna; SILVA; Glaydson José. Antiguidade como presença: Antigos, Modernos e Usos do Passado. Curitiba: Editora Appris, 2019.

  • Mariana Fujikawa

Uma perspectiva original sobre os primeiros seguidores de Jesus

Paulo Nogueira, Narrativa e cultura popular no Cristianismo Primitivo. São Paulo, Paulus, 2018.

Há uma controvérsia historiográfica de longa data: seria o cristianismo dos primeiros seguidores de Jesus uma prática de excluídos e pobres? Ou seria um movimento já de início hierárquico e com seguidores abastados? Ou ambos? Paulo Nogueira procura escapar dos desafios do dilema por meio de uma metodologia original, o estudo do sistema de linguagem, como sugerido por Mikhail Bakhtin e Aaron Gurevich, tomando a cultura como um sistema semiótico. Considera o cristianismo primitivo, antes do Edito de Milão de 313 d.C., como religiosidade popular, tanto ao se originar no povo, como ao se organizar como religiosidade popular. Assim, Paulo de Tarso, embora letrado e estudado, é considerado como pertencente às classes baixas, como também a literatura extra canônica, como os Atos Apócrifos.

Detecta, ainda, a ousada afirmação de autonomia e autoridade de mulheres no cristianismo paulino. Lançavam mão de imaginação narrativa nas quais invertiam as relações sociais por meio da ficcionalidade, ou seja, do poder de estabelecer relações potenciais, mesmo quando não realistas, por meio da linguagem. Daí relatos fantasiosos, improváveis ou mesmo contrários à experiência, tão comuns nas narrativas mitológicas e populares. Os textos articulavam-se como contra narrativas, a partir de características dos personagens retratados como estrangeiros, de status social baixo, suspeitos de magia, ou de outras práticas sobrenaturais. As narrativas ficcionais afirmavam valores dos grupos subalternos e são subversivas, ao questionarem o status quo. Conclui que as categorias e as formas narrativas da cultura popular por meio das quais o cristianismo primitivo se articulou resistem à mera emulação ordenada e passiva de formas de narrar das elites. Religião de marginalizados e de pessoas desprovidas de poder em sua grande maioria, de pregadores bilíngues, multiculturais, itinerantes, urbanos, praticante de uma religião de conversão e de êxtase religioso, os cristãos formavam um movimento religioso das classes baixas do Império

As objeções à proposta de Paulo Nogueira podem advir de diversas direções, a começar da exegese dogmática ou tradicional, como ele reconhece. Para o estudioso da Antiguidade, haveria outras questões, em particular como lidar com as manifestações de erudição e estudo sistemático, como em Paulo de Tarso, ou a referência, desde o mesmo Paulo, a abastados cristãos, em cujas casas se encontrava a comunidade cristã? Abastados cristãos comiam com não cristãos carne de sacrifícios aos deuses, sempre como menciona Paulo. Ou, então, como acomodar a presença de mulheres atuantes e outras reprimidas, senhoras ricas e pobres excluídas, presentes nas narrativas? Parece que a solução desses dilemas esteja em algo não explicitado por Paulo Nogueira: a sua escolha ética por explorar e valorizar o lado subalterno, popular, do cristianismo antigo. Livro de fácil leitura e linguagem clara, é um convite prazeroso a refletir sobre questões teóricas e metodológicas das mais relevantes, e, também, a conhecer um pouco desse imenso e pouco conhecido manancial literário e cultural antigo. Interessante em si mesmo e, ainda, fonte de reflexão sobre nossa própria época, suas aporias e desafios. Haveria algo mais relevante do isso, ainda mais nos dias de hoje?

 Disponível para degustação e compra aqui.

  • Pedro Paulo A. Funari

Estudos Sobre Esparta

Fábio Vergara Cerqueira e Maria Aparecida de Oliveira (Organizadores) – Estudos Sobre Esparta.
(Editora UFPel, 2019)

Há poucos livros no Brasil que se dedicam a História de Esparta. Foi pensando nisso que Fábio Vergara Cerqueira e Maria Aparecida de Oliveira e Silva organizaram a obra, Estudos sobre Esparta, uma coletânea que reúne textos de estudiosos brasileiros e estrangeiros. O interessante do trabalho é que mescla textos em português, espanhol, francês e inglês, mas como tem uma linguagem clara e objetiva, atinge um público amplo desde acadêmicos e estudiosos até as pessoas que estão iniciando suas pesquisas ou que querem conhecer um pouco mais sobre o passado desse povo. Outro motivo para a leitura da obra é os autores e autoras se esforçam para trazer os aspectos cotidianos e culturais dessa sociedade: há capítulos sobre o período arcaico, o clássico, o helenístico e o romano, mudando nosso olhar sobre os espartanos e espartanas, pois para além da perspectiva guerreira, mais explorada na mídia ou livros didáticos, somos introduzidos a seus mitos, suas crenças religiosas, seu pensamento político e social.

E o melhor de tudo: é uma publicação da Editora UFPel (Universidade Federal de Pelotas), com download gratuito da obra completa. Visite o site e conheça a obra, vale à pena!

  • Renata Senna Garraffoni

A tradição clássica e o Brasil

Lançado em 2008, pela editora Fortium, o livro “A tradição clássica e o Brasil” conta com a colaboração de diferentes autores, dentre eles a Doutora Renata Senna Garraffoni e o Doutor Pedro Paulo Funari. Organizado em subtemas por André Leonardo Chevitarese (UFRJ), Gabriele Cornelli (UnB) e Maria Aparecida de Oliveira Silva (USP), tem como propósito de pormenorizar aos leitores, como a Antiguidade Clássica tem marcado as mais diversas instituições governamentais e esferas sócio-culturais da contemporaneidade, pela presença e usualidade, de forma agradável e cativante.

Dividido em dois blocos complementares, o exemplar expõe em sua primeira parte como os clássicos tangem as áreas de ensino no Brasil. No decorrer da edição, a História é apresentada não só como horizonte de pesquisa, mas também como matéria de ensino, através da concepção de livros didáticos, até a abordagem historiográfica nas universidades, convidando a uma leitura crítica, enquanto alcança questões substanciais dentro do campo da história-disciplina e da memória, contestando a repetitiva caracterização dos antigos como corpos sociais coesos e harmoniosos, credores de proeminência em relação as demais culturas.

Já no que concerne a tradição clássica no âmbito da sociedade, a segunda seção disserta quanto a inclinação dos escritores para relatar a história ateniense, consectário de uma projeção de conceitos idealizados, pautados nas copiosas fontes materiais e de como esse cenário influenciou, de certo modo, uma historiografia escrita por brancos e destinada para brancos, ou da elite para a elite. A distinção ultrapassa as fronteiras raciais e atinge as estruturas sociais, atributo da consequente inexistência de indivíduos que sejam protagonistas de sua própria História.

Dessa maneira, a obra finda com as incontáveis vias pelas quais os temas clássicos alcançam múltiplos lugares nas civilizações existentes, começando pelo campo do conhecimento e daquilo que conhecemos através das representações, adentrando o imaginário dos estudiosos e das futuras gerações, sem deixar de lado suas complexidades, uma inesgotável fonte de indagação e de análises.

Referências
CHEVITARESE, André L., CORNELLI, Gabriele., SILVA, Maria A.O. (Orgs.). A tradição clássica e o Brasil. Brasília: Editora Fortium, 2008.

  • Letícia Bail

História Antiga e usos do Passado. Um estudo de apropriações da Antiguidade sob o regime de Vichy (1940-1944).

Glaydson José da Silva é historiador e professor da Universidade Federal de São Paulo; seu livro História Antiga e usos do Passado. Um estudo de apropriações da Antiguidade sob o regime de Vichy (1940-1944) é uma versão revisada de sua tese de doutorado na qual analisa como a modernidade pode usar o passado.

O assunto geral é o regime de Vichy e o objeto de análise o passado gaulês, romano e galo-romano usado para justificar a dominação alemã e o colaboracionismo francês com a Alemanha na Segunda Guerra Mundial. As fontes são materiais da época, como livros acadêmicos, livros de vulgarização científica, manuais de História e de Arqueologia, jornais, revistas, discursos, textos oficiais, correspondências, cartazes, moedas e outros.

Resumindo, o texto discute as noções de herança e de legado a fim de explicar como se constituem os mitos fundadores, os quais perpetuam valores e imagens da vida nacional, com o objetivo de criar identidades pelo uso da ideia de permanência. Além disso, aborda como a História e a Arqueologia assumem um papel importante nesse contexto, pois estão a serviço do Estado e permitem qual tipo de memória se pode (re)construir – uma tradição de apropriação do passado em prol do governo com dimensões gigantescas nos séculos XIX e XX, principalmente durante as duas grandes guerras.

A obra trata, em especial, do caso francês a partir do nascimento do herói Vercingetórix na escrita da História francesa, desde o fim da Revolução de 1789 até a Segunda Guerra Mundial. Em síntese, reflete sobre como na França a disciplina histórica está atrelada à memórias construídas durante a elaboração da identidade nacional e, também, constitui-se em uma História mitológica – afinal, cria mitos de origem – encontrada principalmente na escola, espaço ideal de divulgação e popularização, e tendo na política sua primeira finalidade já que são controladas por discursos desse gênero.

Já atualmente, como se pode ler no livro, esse mito gaulês continua sendo veementemente defendido pelo partido de extrema direita F.N. A sua juventude nacionalista e racista, um exemplo, orgulha-se em exaltar suas origens gaulesas na internet, em camisetas, prospectos, letras de músicas e outros. Sendo que esse uso feito pelo partido do passado ainda é pouco estudado.

Com isso, a pergunta de conclusão do texto é: qual lugar a antiguidade ocupa em nossas sociedades? Questão que permite pensar sobre o ofício do historiador, principalmente o do mundo antigo, e se encaixa nas recentes discussões sobre o presentismo da História. Enfim, a importância de indagar acerca desse lugar permite notar a utilização da História a serviço de certa lógica justificadora e legitimadora de questões identitárias, nacionais, raciais e políticas.

Referências

História Antiga e usos do Passado. Um estudo de apropriações da Antiguidade sob o regime de Vichy (1940-1944). São Paulo: Annablume; FAPESP, 2007.

  • Camilla Miranda Martins

A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia europeia

Martin Gardiner Bernal (foto: Harvey Ferdschneider)

O texto “A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia europeia” foi escrito por Martin Bernal e compõe a obra Repensando o Mundo Antigo, organizada e revisada por Pedro Paulo A. Funari, com a tradução de Fábio Adriano Hering e de Glaydson José da Silva. Nesse, Bernal discute como a área dos Estudos Clássicos, apesar de muitas vezes entendida como distante do dia a dia da sociedade, na verdade “tem sido marcada por uma atitude francamente política” e, portanto, é muito atual. A Grécia Antiga foi pensada ao longo dos séculos de acordo e, muitas vezes, justificando a política do período em que é estudada, a exemplo do imperialismo e do neocolonialismo no caso em questão. Nesse sentido, Bernal identifica que existem entre os ocidentais dois modelos principais para se entender as origens da Grécia Antiga. O primeiro seria o Modelo Antigo e o segundo o Modelo Ariano.

De acordo com o Modelo Antigo, aceito até o fim do século XVIII, “a Grécia teria sido habitada por tribos primitivas – como os pelasgos, entre outros – sendo posteriormente, colonizada pelos egípcios e pelos fenícios”. Enquanto para o Modelo Ariano, pensado principalmente a partir do Romantismo, Racismo e do conceito de progresso na Europa, “os gregos que começavam então a serem vistos como particularmente virtuosos, foram, de certa forma, convocados para se tornarem setentrionais, pois não poderiam ter recebido a herança de sua civilização das luxuriantes e decadentes regiões meridionais e orientais”. Além disso, o Modelo Ariano também se baseou nos argumentos de que em algum período da história teria havido uma única linguagem proto-indo-europeia, “desta forma, se o grego era uma língua indo-europeia, em algum estágio ele deveria ter sido introduzido na Europa, a partir do Norte”.

Contudo, segundo Bernal, a negação à influência Fenícia não foi aceita devido aos interesses dos Ingleses sobre a história desse povo, considerado manufatureiro, comerciante e civilizador. Desta maneira, a origem da Grécia Antiga passou então a ser baseada no Modelo Ariano Ampliado, o qual rejeitava apenas as influências egípcias. Esse permaneceu até o início do século XX, quando o antissemitismo se espalhou na Europa. Com a Segunda Guerra Mundial e a percepção das graves consequências trazidas pelo racismo – como o holocausto – o povo judeu passou a ser entendido novamente como europeu, apesar de não terem havido muitas mudanças para a recuperação da “reputação” dos fenícios. Desse modo, a partir da década de 1960, observamos as tentativas para trazer de volta o Modelo Ariano Ampliado.

Com as mudanças de visão política, novos estudiosos e novas descobertas acerca das influências egípcias no Egeu, o Modelo Ariano perdeu força e cedeu espaço para a reaceitação do Modelo Antigo. Entretanto, segundo Bernal, o “erro” do antissemitismo não foi suficiente para derrubar o Modelo Ariano, uma vez que existem evidências que sustentam a teoria da língua indo-europeia. E, desse modo, há a necessidade de novos debates para definição de um novo Modelo para o estudo da Grécia Antiga, o qual consiga relacionar as melhores características dos dois modelos, mas que para o autor, deverá se aproximar mais do Modelo Antigo. Na medida em que o Modelo Ariano é uma visão eurocêntrica de legitimação da hegemonia, autoritarismo e superioridade europeia e, a Grécia era possuidora de uma cultura com completamente eclética e mesclada.

Referências

BERNAL, Martin. A imagem da Grécia antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia europeia. In: FUNARI, Pedro Paulo (org.). Repensando o mundo antigo – Martin Bernal, Luciano Canfora e Laurent Olivier. Textos Didáticos. nº 49. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2005, p.11-31.

  • Barbara Fonseca

Construções do Passado, Armações do Presente

Richard Hingley – O Imperialismo Romano: Novas Perspectivas a partir da Bretanha
(Annablume, 2010)

A obra “O imperialismo romano: novas perspectivas a partir da Bretanha” é um compilado de quatro artigos, do professor Richard Hingley, publicado em 2010, no Brasil. Eles foram originalmente lançados durante as décadas de 1990 e 2000, e dialogam com o processo ocorrido nos anos que marcam a virada da República para Império: a “Romanização”, ou seja, a disseminação cultural e o aumento territorial romanos. Porém, a perspectiva de Hingley não é a mesma da historiografia tradicional, mas sim fruto do movimento pós-colonial, que despontou com Edward Said a partir da década de 1970.

O livro já abre com uma reflexão acerca da utilização que o Império Britânico fez, através de seus estudiosos e políticos, de Roma para sustentar suas aspirações imperialistas; assim como também sobre a variedade cultural existente, e apagada pela historiografia, no Império Romano – que ia muito além daquela das elites, contrapondo-se a ideia de aculturação total de nativos em todos os cantos do território romano. Depois, o livro encaminha para a questão da cultura material e as interpretações arqueológicas das quais é alvo, focando nos sítios romano-bretões. Adiante, vem um artigo que pode ser sumarizado com o nome deste blog: História Antiga e Conexões com o Presente. O ponto levantado por Hingley é sobre os Estudos Clássicos e como eles podem, e são, moldados para justificar discursos contemporâneos, por mais que para isso tenham que distorcer o passado. Por fim, tomando o monumento arqueológico “Muro de Adriano”, o historiador inglês aborda o abandono de temas que foram de grande importância para a construção de identidades, simbolismos e fronteiras, e a importância de suas retomadas, até mesmo para novas perspectivas de estudos.

Traduzidos para o português visando arejar os estudos de História Antiga no Brasil, esses artigos são muito interessantes para levar quem os lê a repensar os meios como são reproduzidos os discursos baseados num passado distante – seus interesses, métodos e apagamentos. Ainda por cima, a leitura é muito fluída e tranquila, não sendo necessário nenhum grande arcabouço teórico prévio para se compreender a mensagem de Hingley.

  • André S. N. Pinto

Deuses e Homens na Cidade

Maurizio Bettini – Dèi e uomini nella Città
(2014)

O livro de Maurizio Bettini, Deuses e Homens na Cidade, ou Déi e Uomini nella Città, publicado em 2014 pela consagrada Feltre da Itália consiste em ótimo exemplar de como a tradição italiana, dentro de debates filosóficos sobre a linguagem, a sociedade, a cultura e, principalmente a religião, tem dialogado e reinventado instrumentos importantes que nos foram legados pelos estruturalistas dos anos 1960. Com um método de antropologia religiosa baseado na linguagem, o intelectual, que já publicou diversas obras com temáticas literárias e que tem se mostrado relevante na discussão do que seria a literatura antiga (a exemplo do traduzido recentemente “O espaço literário na Roma Antiga”), expressa agora suas leituras sobre traços da religião romana. O leitor leu bem: traços. É essa a principal reviravolta com relação ao estruturalismo de Dumézil, Éliade e Benveniste – com os quais discute inúmeras vezes no livro. Em lugar de buscar, a partir das discussões de linguagem, estabelecer uma visão abstrata e completa da cultura Romana, Bettini trabalha selecionando temas importantes para o debate sobre o passado mas, permanecendo no específico, prioriza discussões com a tradição de pensamento classicista. Assim, já informado pelo feminismo, o livro debate temas como a presença ou não de uma cosmogonia na religião romana, o que era a o conceito de auctoritas e de que maneira ele surgiu na cultura romana, o lugar religioso do lar familiaris e o próprio conceito de deus menor no espectro religioso romano, o papel da morte na cultura e na organizzação da sociedade, bem como da máscara do morto e sua relação com o teatro, e até mesmo o clássico conceito de interpretatio, tão debatido pelos classicistas para explicar as incessantes apropriações que faziam os latinos de aspectos religiosos e de deuses de culturas como a grega, a egípcia, a síria, a cartaginesa etc. Embora o livro não apresente conclusão, fica a nós leitores, além de uma enorme carga de conhecimento e um posicionamento inteligente sobre algumas das principais discussões dos estudos de Religião Romana, uma interpretação das crenças romanas como práticas abertas e frequentemente dispostas às transformações e inclusões de culturas, além de instrumentos para continuar os ricos debates de linguagem sem a pretensão, por vezes exagerada, de reduzir a cultura romana e sua história de mais de um milênio a poucos conceitos que cremos largos o suficiente para a grande diversidade da experiência.