Entrevista com Erica Angliker

A entrevistada de hoje é Erica Angliker, professora do Institute of Classical Studies na School of Advanced Study (University of London).

Erica Angliker. Foto: acervo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Eu decidi pelo estudo da antiguidade só nos últimos anos do meu bacharelado em filosofia na Unicamp. Durante o curso de filosofia comecei a estudar grego e latim por serem disciplinas obrigatórias, mas com o desenrolar do curso fui me interessando cada vez mais pelo mundo antigo, principalmente pela Grécia Antiga. Além dos cursos de língua, também fiz vários cursos de história antiga na Unicamp. Quando terminei o curso de filosofia mudei para área de literatura grega e fiz meu mestrado também na Unicamp com um trabalho sobre o livro II das Histórias de Heródoto, o qual traduzi integralmente. Embora meu mestrado tenha sido em literatura grega, acho que já naquela época eu tinha um pé na arqueologia, pois minhas principais questões diziam respeito a essa área. Hoje, além do trabalho teórico na área de arqueologia grega, também escavo regularmente em Despotiko (região de Paros) e também em Eleutherna (Creta).

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Meus livros prediletos são Descrição da Grécia, do geógrafo grego Pausanias, onde temos descrições descrições de localidades da Grécia Central e do Peloponeso com informações muito importantes sobre religião e costumes gregos antigos. Até onde eu sei, não existe tradução para o português dessa obra, espero que um dia alguém aí no Brasil se aventure a traduzir esta obra magnífica e tão importante. Outro livro que gosto muito é o The Making of the Middle Sea, do Cyprian Broodbank. É um livro de grande fôlego no qual o autor apresenta sistematicamente a história e arqueologia Mediterrânica. Num momento em que divisões artificiais são impostas na região mediterrânica, é sempre bom lembrar da unidade que sempre existiu nessa área cuja riqueza se deve exatamente pela grande possibilidade de trânsito de diversos povos.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

No momento, estou trabalhando com santuários Cicládicos e religiões mediterrânicas, mas também tenho uma pesquisa sobre espaços para dança e música nos santuários gregos. Além disso, também estou preparando para publicação as estatuetas de argila do santuário de Despotiko. Por fim, também desenvolvo uma pesquisa sobre cultos em cavernas na região da Cicládica.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Adoraria poder pesquisar mais sobre cultos anicônicos e cultos em lugares naturais (rios, lagos, montanhas, etc.).

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

O santuário de Despotiko, na região de Paros, marcou minha carreira e vida para sempre. Eu estudava história da arte grega e literatura quando fui escavar em Despotiko, só para ter uma escavação no meu currículo. Gostei tanto que não só voltei todos os anos como também migrei definitivamente para a área de arqueologia. Despotiko é mais do que o lugar onde escavo e estudo, lá também tenho minha segunda família. Hoje, graças a uma parceria com universidades brasileiras (e.x. UFMG e UFPR), estou levando alunos brasileiros a Despotiko com regularidade para que eles possam passar pela experiência ímpar de descobrir o passado com as próprias mãos.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Hipatia de Alexandria, uma filósofa neoplatonica grega do Egito Romano. Embora o trabalho dela não tenha sobrevivido, foi uma mulher extraordinária pela inteligência

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Chamaria um sacerdote ou sacerdotisa minoico para conversarmos sobre iconografia religiosa, o conteúdo dos tabletes com o Linear A e sobre a vida religiosa em geral na Creta Minoica. Apesar de tantos estudos e rios de tinta, muitas questões pairam sobre essa civilização.