Entrevista com Gabriele Cornelli

O entrevistado de hoje é Gabriele Cornelli, professor de filosofia antiga da UNB.

Gabriele Cornelli (Foto: acervo pessoal)

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Acho que na verdade nunca decidi realmente. Tenho tido esta impressão na vida que as melhores coisas não as escolhemos, nos acontecem. Os estudos clássicos foram algo que cresceu junto comigo, desde minha adolescência, no Liceo Classico: comecei a estudar grego, latim, literatura antiga, filosofia aos 13-14 anos e, bem… nunca senti realmente a vontade de deixar de estudar. É algo que faz parte daquilo que eu sou desde praticamente sempre.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Há muitos. Mas se devo decidir pela frequentação, por aquilo para o qual acabo voltando sempre, como em um processo de releitura que acompanhou até aqui todos os períodos de minha vida, pessoal e profissional, creio que na parte da estante ao alcance da mão nunca faltaram Homero e a Bíblia: são como duas grandes gramáticas da vida, inteiros vocabulários de nossas culturas, territórios a serem explorados a partir de entradas sempre novas. E a todo momento origens a serem superadas, mas com certa graça e sempre – ao final – olhando furtivamente para atrás para agradecer a estrada percorrida juntos.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Nos últimos 20 anos tenho me dedicado principalmente à filosofia pré-socrática e a Platão. Com uma especial atenção à definição do indivíduo entre religião e política.  Continuo fazendo isso. Mais recentemente estou procurando compreender como minha leitura da filosofia, que nasce entre os séculos VI e IV aEC, é influenciada pelo fato de estar trabalhando há duas décadas no Brasil e na América Latina. E tentando me deixar provocar por isso a fazer novas perguntas aos textos de sempre.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Falo antes de sonhos, mais do que de projetos propriamente. Sonhos que compartilho com meus alunos e alunas, para ver se alguém pega a ideia e faz dela um projeto de vida acadêmica. Alguns e algumas já foram picadas e picados por estes sonhos e – devo admitir – estão fazendo um excelente trabalho. Queria muito poder repensar radicalmente as relações raça e gênero nos textos filosóficos antigos, pois tanta dor e injustiça se construiu a partir de uma leitura misógina e heteronormativa de nossas melhores ideias clássicas (e por vezes também das piores). Tenho muita vontade de compreender o que aconteceu na Primeira Academia, nos 20-30 anos depois da morte de Platão, pois aí germinou algo que marcou por dois milênios a configuração de nosso pensamento. Queria poder traçar os caminhos dos primeiros encontros, no VIII-VII séculos aEC entre as ideias que vinham carregadas do Oriente e o que já se pensava à beira do Mediterrâneo.

Agora, na prática, o que provavelmente irei fazer é aprofundar minha leitura dos pré-socráticos e de Platão, com um interesse especial no tema da imortalidade como definidor dos limites e potencialidades do individuo. Ah, e queria mesmo continuar traduzindo os antigos para oferecer ao mais novos pesquisadores um texto compreensível e atual.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

O lugar que foi um pouco o berço de tudo isto aqui foi mesmo minha escola de ensino médio, o Liceo Classico Omero, na periferia de Milão. Com meus professores, Borsa, Tornotti, Savino (este último um renomado tradutor de Platão, como poderia fugir de minha Moira?). O legal é que era uma escola praticamente de plástico, uma construção que foi feita para ser precária e durar uns 5 anos, e que abrigou centenas de alunos por mais de 40 anos. Hoje virou um Centro Social alternativo para as pessoas do bairro. Recordo de nosso orgulho de poder estudar lá, de podermos ler os textos originais em grego e latim. Vejo ainda nossos olhos iluminando-se quando Savino, ao final de praticamente toda aula de literatura grega, se despedia nos lembrando que “O mundo gira em torno ao grego!”.  Olhando hoje para trás, para aquele lugar caindo aos pedaços no meio de uma cidade fortemente voltada para o futuro, o sucesso, o dinheiro como era Milão nos anos Oitenta, não posso que reconhecer que foi aquele o lugar que marcou minha vida mais do que tudo mais. Exatamente por sua orgulhosa extemporaneidade.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Os dois que me veem à cabeça – sem muita edição, pois acho que a brincadeira aqui é esta – são Sócrates e Jesus! Dois puta caras! Ambos são personagens românticas avant la lettre, com uma ingenuidade de fazer sorrir e chorar ao mesmo tempo, heroicamente presos como estão entre ficção e realidade, entre o passado e o futuro, e lindamente decididos que iam mudar o mundo sozinho e usando somente as palavras! Coisa de loucos, literalmente! E romanticamente, é claro, acabaram bem mal.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Aristóteles, sem dúvida. Se fosse para tomar um vinho chamaria Espeusippo e Xenócrates, os primeiros dois sucessores de Platão na Academia, para ouvir das fofocas de quando Platão dava aula lá. Com Aristóteles seria em um café no Centro, bem cheio de gente, um encontro mais profissional, tipo uma entrevista. Mas não deixaria ele falar, ficaria o tempo todo dando bronca. E faria ele admitir ao final que foi ele mesmo que sumiu com a Comédia dele: suspeitaria em um gesto sensível, vista a provável qualidade do texto.