Entrevista com Fábio de Souza Lessa

Oi gente! A entrevista de hoje é com Fábio de Souza Lessa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fábio de Souza Lessa. Imagem: acervo pessoal

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

A decisão por estudar o mundo antigo, em especial o mundo grego, surgiu durante o curso de graduação na UFRJ. Desde adolescente já havia escolhido o curso de História, mas tinha interesse em História Moderna. As aulas de História Antiga I ministradas pela Profa. Neyde Theml foram sedutoras e decisivas para a escolha, ainda precoce, para a especialização em História Grega.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

É sempre difícil enumerar livros prediletos, mas vamos lá: Dos textos antigos, destaco a Odisseia de Homero, Alceste de Eurípides e Ética a Nicômaco de Aristóteles, super atual para o mundo contemporâneo. Já dos contemporâneos, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica de M. Detienne e Entre Mito & Política de J-P. Vernant. Acrescento ainda a leitura do momento: História Pessoal: Os Mitos Gregosde Pauline Schimit Pantel, tradução recente da Universidade de Coimbra.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Tenho mantido, basicamente, duas linhas de investigação. Uma, mais antiga na minha trajetória acadêmica, diz respeito às reflexões sobre as relações de gênero na Grécia antiga. Tal pesquisa sempre caminhou no sentido de desconstruir o modelo mélissa (abelha), calcado na ideia de reclusão e de total submissão feminina. Desde os anos 90, com a consolidação dos trabalhos em História cultural, a operacionalização da documentação material, em especial as imagens pintadas em suporte cerâmico, foi fundamental para a argumentação de minhas hipóteses. Hoje, tenho dado maior atenção às tragédias de Eurípides e buscado associar a discussão teórica sobre gênero à discussão sobre etnicidades.
A segunda linha de investigação foi desenhada a partir da primeira. Comecei a sentir necessidade de refletir sobre o masculino e também sobre a antropologia do corpo, em um momento no qual se falava muito em crise da masculinidade, sobretudo entre os antropólogos. Observei ainda que as competições atléticas helênicas careciam de um estudo mais apurado no Brasil. Dessas constatações surgiu um novo objeto de pesquisa que é estudar as competições esportivas na Grécia antiga.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Pretendo verticalizar as minhas pesquisas sobre a antropologia do corpo e os atletas do Fat Boy Group, do conjunto de imagens reunidas por John D. Beazley que se distanciam do modelo apolíneo de representação dos corpos dos atletas.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Com certeza a chegada em Atenas num sábado de julho de 1995. Era a primeira viagem internacional que fazia e havia uma comoção por estar na capital grega, porém algo inesperado também foi marcante: desembarquei numa tarde linda de sol forte de verão e enquanto resolvia as questões que envolviam bagagem e passaporte se formou um enorme temporal – o único dia de chuva em 45 dias em Atenas – com trovoadas e céu negro. A chegada à Escola Francesa de Atenas – onde fiquei hospedado e pesquisando – foi marcada por um épico banho de chuva.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

Do mundo ficcional, Odisseu, pelas suas inúmeras nuances e astúcias. Do dito mundo real, Heródoto e Tucídides, pela forma como refletem sobre a História.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Atualmente, Eurípides. Seria uma grande oportunidade para conversarmos sobre as relações entre o masculino e o feminino na Atenas Clássica, bem como também sobre as questões de etnicidade grega.

O ensino online do mundo antigo

Oi gente!
Com aproximadamente um mês sem aulas presenciais, nós e nossos colegas de profissão nos deparamos com diversas dificuldades relacionadas a educação à distância.  Diante disso, no post de hoje sugerimos alguns vídeos que podem auxiliar o aprendizado da História antiga de maneira didática e até mesmo descontraída.

Esperamos que todos estejam bem.

Cena do vídeo “A day in the life of an ancient Athenian – Robert Garland” do canal TED ed. Imagem: divulgação.


TED ed

Como primeira indicação apresentamos aqui os vídeos criados pelo TED ed, canal criado pelo mesmo grupo produtor do TED talks, o qual possui o intuito de disseminar ideias e conhecimentos por meio de conferências de especialistas. A principal diferença do TED ed para o TED talks, é o foco educacional recebido, sendo o TED ed pensado de maneira didática para os estudantes em nível escolar e são realizados em forma de animação em curta duração (cerca de 3 a 6 minutos cada). Entretanto, não por isso são criados por qualquer pessoa. Os responsáveis pelo conteúdo apresentado nos vídeos a seguir são historiadores e literatos da área dos clássicos, por exemplo, Ray Laurence professor de História Antiga na Universidade de Macquaire na Australia e Melissa Schwartzberg professora de ciências políticas da Universidade de Nova York, e afiliada ao departamento dos clássicos da mesma.

O canal aborda diferentes áreas do saber, portanto preparamos duas playlists com os conteúdos que encontramos relacionados a Grécia e a Roma antiga, as quais podemos acessar nos seguintes links:

Playlist TED ed – Grécia Antiga

Playlist TED ed – Roma Antiga

Vale lembrar que para quem não tem familiaridade com a língua inglesa, os vídeos possuem legenda em português disponível.


Crash Course

Com intuito semelhante ao do TED ed, encontramos o canal Crash Course. Considerado um canal educacional pelo Youtube, foi criado em 2012 pelos irmãos John e Hank Green a partir da iniciativa do próprio site em trazer canais e produções originais à plataforma.
No Crash Course encontramos diversos conteúdos, bem como biologia, química, física, história e vídeos sobre o mundo antigo. Assim, como indicação especial, deixamos aqui a playlist intitulada de “World History“, onde encontramos vídeos sobre Mesopotâmia, Egito Antigo, Grécia Antiga, Alexandre, o Grande, Roma Antiga, entre diversos outros conteúdos.

Apesar dessa playlist ser apresentada por John Green, romancista criador dos best-sellers para adolescentes “A culpa é das estrelas”, “Quem é você, Alasca?” entre outros livros. Conforme observamos no fim dos vídeos, há uma equipe por trás da produção, pesquisa e escrita do conteúdo apresentado em que se encontram historiadores e outros especialistas.

Além disso, ainda que os vídeos estejam em inglês, sua tradução automática fornecida pelo o Youtube é de boa qualidade e a velocidade de reprodução do vídeo pode ser diminuída a partir da ferramenta disposta também pelo próprio Youtube.

Ainda no Crash Course há outra playlist intitulada de “Literature 2”, onde em seu primeiro vídeo encontramos a discussão da Odisseia. 

Por fim, o canal ainda dispõe de outros conteúdos acerca dos povos gregos e romanos na playlist sobre Mitologia. Essa é apresentado pelo escritor e produtor Mike Rugnetta e pode ser acessada aqui.


Steve Simons

Cena do vídeo “Clash of the Dicers HD 2014” de Steve Simons. Imagem: divulgação.

No site Ellines, encontramos uma matéria sobre o artista britânico Steve Simons criador de animações a partir de cenas reais que decoram os vasos gregos antigos. Neste link, além de um pouco sobre a história de seu trabalho e do próprio artista, observamos três vídeos: o primeiro deles é uma cena de Aquiles e Ajax jogando durante uma pausa na Guerra de Tróia; no segundo observamos um combate entre guerreiros; e na terceira animação é representado uma cena entre Eros e Afrodite. Apesar de no site encontrarmos apenas três criações de Steve Simons, em seu canal do Youtube encontramos sua obra completa.


Remesal, “Testaccio, el Monte de las ánforas”

A próxima indicação é de um vídeo elaborado pelo CEIPAC (centro para el estudio de la interdependencia provincial en la antigüedad clásica) no qual o professor e historiador da Universidade de Barcelona José Remesal apresenta um conteúdo referente ao Monte Testaccio – uma colina artificial composta por pedaços de ânforas que foram descartadas entre os séculos I e III. O vídeo mostra imagens sobre o trabalho arqueológico que é feito na região, como a tipologia de ânforas e a escavação do monte, e principalmente nos leva a reflexões acerca das questões econômicas e sociais da produção e abastecimento de alimentos, neste caso, o azeite no Império Romano.

O professor Remesal fala em espanhol e infelizmente não há legendas disponíveis para o vídeo.


Entrevistas

Além dos vídeos já apresentados, indicamos também três entrevistas sobre a História Antiga. Primeiramente começamos com duas entrevistas do Historiador e Arqueólogo Pedro Paulo Funari, professor de História Antiga da UNICAMP.

A primeira delas foi realizada pelo grupo de pesquisa Subalternos e Práticas na antiguidade, da USP, em comemoração aos trinta anos da publicação do livro Cultura popular na antiguidade. Funari relata a respeito do contexto em que escreveu o livro, no período de redemocratização após a ditadura militar e como isso foi decisivo para o conteúdo e formato da obra. Ainda discute a utilização de fontes diretas para o estudo da cultura popular na antiguidade, como por exemplo os grafites parietais. E, por fim, trata sobre a situação dos estudos subalternos na atualidade.


A segunda entrevista foi realizada pela UNIVESP, tendo como entrevistadora a jornalista Mônica Teixeira e suscita discussões acerca da fronteira entre as áreas da História e Arqueologia. Funari traz reflexões acerca das duas disciplinas e realiza apontamentos sobre as fontes históricas e as divergências entre as abordagens das fontes escritas e da cultura material. Dessa maneira apresenta reflexões sobre a constituição da História e da Arqueologia como campos disciplinares distintos e a importância da interdisciplinaridade.

Por fim, o professor Funari muda de posição e de entrevistado passa a ser o entrevistador no programa “Diálogo sem Fronteira – História Antiga e nosso cotidiano”, onde entrevista a professora Renata Senna Garrafoni pela rTV Unicamp. Nessa entrevista é discutido temas como a relevância do estudo da antiguidade no século XXI; de que maneira nós brasileiros temos acesso as informações sobre esse passado clássico; qual a relação da História Antiga com a mídia e a preocupação com a veracidade do que se é apresentado por filmes; de que forma nossa sociedade vê os antigos e ainda quais são as especificidades e contribuições dos pesquisadores e pesquisadoras brasileiras para os estudos dos clássicos.


Instagram Os Sentidos da História

Imagem de perfil do Instagram Os Sentidos da História. Divulgação.

Como última indicação, deixamos o Instagram do professor Marcos Moraes. Recém-criado, o perfil tem como intuito difundir e discutir criticamente o conhecimento histórico nas redes sociais.  O professor Marcos dá aula no ensino fundamental há mais de uma década e é formado em História pela UNICAMP.

Epidemias na Antiguidade

La peste à Rome (1869) – Jules-Elie Dalaunay. Imagem retirada do site Stair Sainty Gallery.

Segundo a OMS, epidemia é definida pela “propagação de uma nova doença em um grande número de indivíduos sem imunização para tal”, o termo, um dos mais antigos da medicina, elucida um dos maiores agentes de transformação e vulnerabilidade de toda história humana.  Nesse sentido, o foco do post dessa semana será dado pelas epidemias registradas na antiguidade Greco-romana, denominadas pelas fontes latinas como “Pestes”. Essas novas doenças assolaram Atenas entre os anos de 430 – 427 a.C e o grande Império Romano entre os anos 165 até 205 d.C.

Cabe salientar que somente no século XVIII as “epidemias” passam a ser tratadas como problemas de saúde pública e baseadas em estatísticas (Martelli. 1997, p. 2). Portanto ao analisa-las na antiguidade, recorro ao termo em seu sentido clássico, tendo como base doenças com grande número de infectados e mortos.

Tucídides nasceu em Atenas por volta de 465 a.C, e descreveu a Peste de Atenas no ano 428 a. C em seus escritos sobre a Guerra do Peloponeso. Segundo o historiador, a doença com origem na Etiópia chegou à Ática por meio de barcos de carga e de guerra, provocando dois grandes surtos entre os anos de 430 a.C e 427 a.C.

As muralhas de Atenas de grande eficácia para a proteção militar da cidade, foram inúteis ante a alta propagação da Peste em seu interior. Afinal, para Tucídides a aglomeração de pessoas na cidade, que crescia devido a busca de refúgio por causa da guerra, tornou-se uma das possíveis causas para a propagação da doença, transmitida por meio de alimentos contaminados ou pela água.

Os santuários e preces aos oráculos logo foram descartados como medidas contra a praga. Lotados por cadáveres, os templos refletiam o desespero de um povo que não sabia onde sepultar seus mortos, rompendo com todas as leis sagradas e profanas. O estado de descrença permeou ricos e pobres que diante da efemeridade da vida resolviam gozar o mais rápido possível de todos os prazeres terrenos, já não havia temor ante as leis dos homens ou dos deuses. Incapazes de enfrentar a doença desconhecida, até mesmo os médicos se renderam diante do inimigo invisível. Devido a maior exposição à doença, havia um alto número de mortalidade entre eles.

A partir da análise de restos mortais encontrados em vítimas da doença, o Infectologista grego Manolis Papagrigorakis da Universidade Atenas aponta o micro-organismo Salmonella typhi, responsável pela febre tifoide, como o causador da Praga ou Peste de Atenas.

Entre os inúmeros relatos de Tucídides, que sobreviveu a doença, somos apresentados a um cenário de pouca ou quase nem uma atenção aos enfermos, restando aos mesmos esperarem pela morte ou pela imunidade de forma aleatória. Dessa maneira, a enfermidade levou a morte um terço dos atenienses, inclusive de Péricles, um dos mais celebres lideres atenienses. E, por fim, à derrota na guerra.

Ainda no mundo antigo, agora no Império Romano no ano de 165 d.C., Galeno, renomado médico do exército do Imperador Marco Aurélio, descreveu o que conhecemos hoje como “Peste de Antonina”. A doença acometeu o vasto Império em sua época de ouro, chegando a cerca de 50 milhões de pessoas em todo território romano, com mortalidade de 7 a 10%, a doença alcançou níveis jamais visto até então na história do Ocidente. A doença encerrou a época de ouro do império Romano e levou a morte de milhares de pessoas, entre elas o Imperador Marcos Aurélio.

Entre diversas versões quanto a origem da peste, as mais difundidas foram a profanação do templo de Apolo, no Iraque, por um soldado que deixa escapar uma nevoa pestilenta ao abrir um baú sagrado; e a origem no Egito, tida a partir dos fragmentos de Calpurniano Crepereyo – obra perdida quase em sua totalidade. Contudo se é entendido hoje que as redes de conexões terrestres e marítimas, o comércio e a volta dos soldados romanos em campanha pelo Oriente, foram, na verdade, os principais agentes de propagação por todo o território do Império.

Da mesma maneira que em Atenas, as preces aos deuses foram feitas como recursos desesperados frente a grande calamidade que caia sobre o povo, sem qualquer separação social, ricos e pobres novamente vislumbravam o mesmo destino ante a doença. Contudo diferente da cidade grega, as leias de sepultamento tornaram-se mais rígidas, sujeitando a multa aqueles que ao sepultar seus mortos não o fizessem com devido cuidado e no lugar apropriado. Os corpos, vistos como meios de contagio, deveriam ser transportados até os locais sem passar pelo meio da cidade como forma de proteção. Quanto aos mais pobres, os funerais eram organizados pelo império.

Em meio a um cenário caótico, muitas questões econômicas foram paralisadas e muitos acordos foram feitos com alguns inimigos de Roma. Entretanto, ao perceber o agravamento da epidemia, Marcos Aurélio restabeleceu os cultos aos deuses e reforçou o exército, enormemente desfalcado, com escravos, mercenários e gladiadores. Além disso, houve também o pagamento de tropas auxiliares Germanas, para lutar contra os próprios Germanos e marcomanos.

Segundo especialistas, Roma estava diante de um primeiro tipo de Varíola. Entre as consequências dessa conjuntura, há o aparecimento de charlatões, com curas milagrosas para a epidemia. Entre eles está Alexandre de Abonotico, que segundo Luciano de Samosata:       

             “Alexandre […] Enviou um certo oráculo, também este autófono, para todos os povos atingidos pela peste. Era apenas um verso: Febo de longa cabeleira a nuvem da peste aparta. Esse verso podia ser visto por todos os lados, escrito sobre os portões, como um antídoto contra a peste. Mas produzia o efeito contrário para a maioria, já que, por um certo acaso, logo as casas nas quais o verso fora inscrito se esvaziaram […] A maioria das pessoas que confiavam no verso logo se descuidou e passou a viver bem despreocupadamente, não fazendo nada do que o oráculo mandava contra a doença…”.

Para pensarmos em epidemias na antiguidade em tempo de covid-19, como amparo reflexivo, recorro aos argumentos de Martelli:

             “A explicação mítica parece ser o elo invisível entre as velhas e novas epidemias, como parte do inconsciente coletivo desde os tempos imemoriais, como nos revelam os historiadores das velhas epidemias. A história das epidemias pode nos ajudar a refletir sobre o passado e o presente, embora a predição do futuro pareça um ideal distante pela complexidade das relações ecológicas como potenciais indutoras de novas doenças infecciosas e pelo imponderável das alterações da cultura humana.”. (MARTELLI, 1997, p. 7)

Diferente dos povos da antiguidade e muitos outros assoladas por doenças desconhecidas, atualmente devido os avanços da ciência conhecemos o inimigo que nos aflige e suas formas de transmissão. Contudo, até o presente momento, segundo a OMS, não existem tratamentos específicos para a Covid-19 causada pelo Corona vírus. Assim, a nós que compartilhamos a vulnerabilidade humana frente a doenças, resta-nos fugir do exemplo Romano buscando informações em fontes confiáveis, e se possível, ficando em casa. Por fim lembramos como forma de alento, que a Varíola, responsável por milhões de mortos no Império Romano, foi considerada erradicada pela OMS em 1980.

BIBLIOGRAFIA

ANTIQUEIRA, Moisés. Era uma vez a crise do Império no século III: Percursos de um recente itinerário historiográfico. Unioeste: Revista Diálogos Mediterrâneos, 2015.
CAPITOLINO, Júlio. A Vida de Marco Aurélio, o filósofo. Trad: TEIXEIRA, Claúdia A. História Augusta Vol I. Coimbra: Coleção Autores Gregos e Latinos, 2011.
CRAVIOTO, Enrique Gozalbes. GARCÍA, Inmaculada García.La primera peste de los antoninos (165-170) Uma epidemia em la Roma Imperial. Asclepio: Revista de História de La Medicina y de la ciência, 2007. Enero-junio 7-22. Disponível em: <https://pesquisa.bvsalud.org/portal/resource/pt/ibc-63153&gt;. Acesso em: 17 abr. 2020.
MARTELLI, C.M.T. Dimensão histórica das epidemias. Revista de Patologia Tropical – Jornal of Tropical Pathologu. 26(1). Disponível em: <https://doi.org/10.5216/rpt.v26i1.17366&gt;. Acesso em: 17 abr. 2020.
SAEZ, Andrés. La peste Antonina: uma peste global em el siglo II d.C. Santiago: Revista Chilena Infectol, 2016. Disponível em: <https://scielo.conicyt.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0716-10182016000200011&gt;. Acesso em: 17 abr. 2020.
SAMÓSATA, Luciano de. Alexandre ou o falso profeta. Trad: BRETAS, Daniel Gomes. Belo Horizonte: Phaos. 2002, p 35-57
TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Trad: KURY, Mário da Gama. 4 edição. Brasilia: Editora Universidade de Brasilia, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001.

  • Mikaely Santos

Cenas de competições na antiguidade

Na antiga Atenas ocorriam diferentes festas religiosas e cívicas, uma delas era o Festival das Panateneias em homenagem a deusa políade. Era uma celebração que abrangia jogos competitivos, procissão, sacrifícios e banquete. Nos jogos ocorriam diversas provas como as corridas de curta e longa distância, as lutas, os lançamentos de disco e de dardo e as corridas de bigas. Em muitas dessas competições o prêmio dos vencedores era o azeite sagrado das oliveiras de Atena, entregue em ânforas de cerâmica com as cenas dos jogos de um lado e da deusa Atena Promachos do outro.

Neste post um dos objetivos é notar que nas figurações atléticas, a distinção entre algumas provas é feita pelo gesto. Por exemplo: a distinção entre corridas de curta (figura 1) e longa distância (figura 2) é feita pela posição dos braços e das mãos e a distinção entre o pancrácio (figura 3) e o boxe (figura 4) passa pelo tipo de envolvimento entre os lutadores. Sendo o pancrácio uma luta de maior contato físico, diferente do boxe.

Figura 1: Ânfora Panatenaica, cerca de 500 a.C.

Fonte: Museu do Louvre, foto de Camilla Martins.

Figura 2: Ânfora Panatenaica, 333-332 a.C. (arconte Nikrokrates).

Fonte: Museu Britânico, coleção online.

Figura 3: Ânfora Panatenaica, 365-360 a.C.

Fonte: Museu Britânico, coleção online.

Figura 4: Ânfora Panatenaica, 336 a.C. ou mais antigo.

Fonte: Museu Britânico, coleção online.

Shear, ao comentar a ocorrência de tais provas nas ânforas panatenaicas, afirma que a chave para identificar o evento é a representação dos braços e das mãos dos corredores. Os braços daqueles de curta distância ficavam afastados do corpo, enquanto as mãos estavam muitas vezes na altura da cabeça e sempre estendidas. E os de longa distância mantinham seus braços baixos e próximos de seu corpo, com as suas mãos fechadas em punhos (SHEAR, 2012, p. 81).

De maneira geral, o elemento marcante em todas essas imagens é o corpo masculino nu. Ele expressa os valores de homens livres, apontando a força, a agilidade, o vigor, o potencial guerreiro desses corpos e, também, o potencial de vitória. São todas qualidades que enaltecem a honra e mostram que podem aproximar os atletas do divino, pois durante a competição são heróis, são como deuses, sendo às vezes guiados por divindades (MARTINS, 2014, p. 68) – como é o caso de imagens nas quais a deusa Vitória aparece junto dos esportistas, podendo ser o juiz em pessoa ou a protetora de algum deles (figura 4).

Pode-se pensar que esses valores marcados no corpo do atleta expressam, ainda, a vontade de serem lembrados. Afinal, na cultura grega um homem somente teria fama, no sentido de honra, caso de alguma maneira ficasse na memória das demais pessoas, o que é uma espécie de ser imortal e eterno. Enfatiza-se: na memória dos outros, por isso, a cultura física dos helenos visaria uma relação com o mundo, com as demais pessoas (MARTINS, 2014, p. 68).

Por fim, o outro objetivo deste post é perceber que nas cenas de lutas e lançamento de dardo os homens possuem músculos mais fortes e peso um pouco mais avantajado, enquanto nas provas de corrida eles possuem músculos definidos, mas são mais esbeltos e magros. Isso faz pensar na provável diferença alimentar entre eles e, também, na diferença entre os treinos. Apesar de ambos estarem inseridos em uma cultura física que valorizava o belo e o jovem, possuíam maneiras diversas de se relacionar com essa cultura, cuidados de si distintos, que mostram uma ação, pois toda a alimentação e atividade física são no sentido de individualizar o atleta agindo livremente no mundo. Segundo Duarte (2010, p. 106)

os exercícios ascéticos da Antiguidade nada mais eram do que diversas formas de ação do indivíduo sobre si mesmo, por meio das quais ele visava governar-se ao regrar e determinar sua dieta, suas relações sexuais, suas amizades e seu próprio corpo. Encontram-se aí o que Foucault denominou as ‘práticas de si’ ou ‘o cuidado de si’, comportamentos que não constituíam um sistema de prescrições ou proibições morais universais, mas apenas um conjunto de regras impostas a si mesmo, as quais determinavam certo estilo de vida.

De forma geral, Foucault mostra a possibilidade do passado como o lugar de uma experiência distinta da do presente e também autônoma, construída por práticas de liberdade. Além disso, rompe com a ideia de tradição e de progresso positivo, linear. Uma interpretação para essa cultura física, nesse sentido, são as práticas de si, as quais Rago (2009) explica serem formadas com a construção de si a partir de códigos de ética e de práticas de liberdade.

Conceitos que permitem pensar sobre as maneiras de se educar o corpo, isso em um mundo onde a estética corporal e a própria vida estão no discurso do capital e na mídia; apontando para um mundo de beleza, de perfeição e de harmonia. Nessa reflexão, o momento atual é “muito diferente da experiência do cuidado de si do paganismo, que em suas diferentes modalidades, não consiste em uma atividade solitária, não se destina a separar o indivíduo da sociedade, mas supõe as relações sociais, pois ocorre nos marcos da vida social e comunitária.” (RAGO, 2009, p. 262).

Assim, defende-se que o atleta no espaço público dos jogos mediante sua dietética, sua cultura física e seu corpo nu, estiliza, individualiza, sua ação segundo critérios que lhe permitem manter seus valores de honra e de glória vivos na memória dos demais.

Bibliografia
BRITISH MUSEUM. Collection Online. Disponível em: <http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/search.aspx&gt; Acesso em: 08/08/2018.
DUARTE, André. Vidas em Risco: crítica do presente em Heidegger, Arendt e Foucault. São Paulo: Forense Universitária, 2010.
MARTINS, Camilla. A Iconografia dos Vasos Panatenaicos de Atenas entre 566 A.C. e 320 A.C. 136p. Dissertação (Pós-graduação em História). Universidade Federal do Paraná.
SHEAR, Julia. The tyrannicides, their cult and the Panathenaia: a note. The Journal of Hellenic Studies, vol. 132, p. 107-119, 2012. RAGO, Margareth. Dizer sim à existência. In: RAGO, Margareth; LARROSA, Jorge (Org.). Para uma vida não-fascista. Belo Horizonte: Autêntica, 2009, p.253-265

  • Camilla Miranda Martins

Homossexualidade na Grécia antiga?

Nos deparamos, por vezes, com frases como “antigamente que era bom, quando gay não tinha orgulho de sair por ai”, ou “gay sempre teve, mas tinha vergonha de sair do armário”. Frases ditas por pessoas com pensamentos mais conservadores, que desejam voltar a um passado idealizado, e que consideram a homoafetividade como ahistórica, sempre existindo, mas com o diferencial de que ela ficaria reprimida porque os gays teriam então uma suposta vergonha.

Interessante, porém, seria tentarmos encontrar a genealogia da ideia da homoafetividade e nos perguntarmos se – de fato – as pessoas sempre pensaram suas sexualidades a partir dessa forma. Ao olharmos para a antiguidade grega, nos deparamos com outra forma de vermos as constituições do sujeito. Não era a escolha do sexo da pessoa com quem você dormia que te definia como pessoa. Os homens nesse período tinham prazeres tanto com mulheres como com homens. Era o descontrole com as relações que fazia com que um homem fosse visto como afeminado, e não o fato de que ele dormia com homens ou não. Assim, um homem que não tivesse controle sobre si mesmo, e se entregasse aos prazeres de forma excessiva seja com mulheres ou homens, era visto de forma negativa. O foco então era no controle dos excessos, no equilíbrio e na sua autonomia com o cuidado de si.

A ideia de homossexualidade – tal qual conhecemos em nossa atualidade – não existia na antiguidade clássica grega. Quando, então, ela começa a se constituir? Foi somente em 1892 quando acredita-se que um autor – Chaddock – incluiu no dicionário de Oxford a palavra homossexualidade. Com a construção desse conceito, veio também a criação científica da sexualidade. Apesar de que antes os atos sexuais eram categorizados e analisados, foi somente no século XIX que fez-se uma correlação direta entre a identidade da pessoa e sua orientação sexual.  A ciência possuiu, nesse debate, papel central para não só fazer do sexo uma uma categoria de análise, mas também o centro das identidades.

Ao olharmos para o passado clássico grego, e para a construção do século XIX que permanece até hoje, percebemos que nossa maneira de lidar com a sexualidade foi criada em um momento histórico, e que ela já foi diferente. Ao vermos essa categoria como histórica e construída, podemos questionar nossa atualidade, e apresentar a possibilidade de transformação para outras formas de ver a sexualidade, de ver os indivíduos.

  • Mariana Fujikawa

A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia europeia

Martin Gardiner Bernal (foto: Harvey Ferdschneider)

O texto “A imagem da Grécia Antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia europeia” foi escrito por Martin Bernal e compõe a obra Repensando o Mundo Antigo, organizada e revisada por Pedro Paulo A. Funari, com a tradução de Fábio Adriano Hering e de Glaydson José da Silva. Nesse, Bernal discute como a área dos Estudos Clássicos, apesar de muitas vezes entendida como distante do dia a dia da sociedade, na verdade “tem sido marcada por uma atitude francamente política” e, portanto, é muito atual. A Grécia Antiga foi pensada ao longo dos séculos de acordo e, muitas vezes, justificando a política do período em que é estudada, a exemplo do imperialismo e do neocolonialismo no caso em questão. Nesse sentido, Bernal identifica que existem entre os ocidentais dois modelos principais para se entender as origens da Grécia Antiga. O primeiro seria o Modelo Antigo e o segundo o Modelo Ariano.

De acordo com o Modelo Antigo, aceito até o fim do século XVIII, “a Grécia teria sido habitada por tribos primitivas – como os pelasgos, entre outros – sendo posteriormente, colonizada pelos egípcios e pelos fenícios”. Enquanto para o Modelo Ariano, pensado principalmente a partir do Romantismo, Racismo e do conceito de progresso na Europa, “os gregos que começavam então a serem vistos como particularmente virtuosos, foram, de certa forma, convocados para se tornarem setentrionais, pois não poderiam ter recebido a herança de sua civilização das luxuriantes e decadentes regiões meridionais e orientais”. Além disso, o Modelo Ariano também se baseou nos argumentos de que em algum período da história teria havido uma única linguagem proto-indo-europeia, “desta forma, se o grego era uma língua indo-europeia, em algum estágio ele deveria ter sido introduzido na Europa, a partir do Norte”.

Contudo, segundo Bernal, a negação à influência Fenícia não foi aceita devido aos interesses dos Ingleses sobre a história desse povo, considerado manufatureiro, comerciante e civilizador. Desta maneira, a origem da Grécia Antiga passou então a ser baseada no Modelo Ariano Ampliado, o qual rejeitava apenas as influências egípcias. Esse permaneceu até o início do século XX, quando o antissemitismo se espalhou na Europa. Com a Segunda Guerra Mundial e a percepção das graves consequências trazidas pelo racismo – como o holocausto – o povo judeu passou a ser entendido novamente como europeu, apesar de não terem havido muitas mudanças para a recuperação da “reputação” dos fenícios. Desse modo, a partir da década de 1960, observamos as tentativas para trazer de volta o Modelo Ariano Ampliado.

Com as mudanças de visão política, novos estudiosos e novas descobertas acerca das influências egípcias no Egeu, o Modelo Ariano perdeu força e cedeu espaço para a reaceitação do Modelo Antigo. Entretanto, segundo Bernal, o “erro” do antissemitismo não foi suficiente para derrubar o Modelo Ariano, uma vez que existem evidências que sustentam a teoria da língua indo-europeia. E, desse modo, há a necessidade de novos debates para definição de um novo Modelo para o estudo da Grécia Antiga, o qual consiga relacionar as melhores características dos dois modelos, mas que para o autor, deverá se aproximar mais do Modelo Antigo. Na medida em que o Modelo Ariano é uma visão eurocêntrica de legitimação da hegemonia, autoritarismo e superioridade europeia e, a Grécia era possuidora de uma cultura com completamente eclética e mesclada.

Referências

BERNAL, Martin. A imagem da Grécia antiga como uma ferramenta para o colonialismo e para a hegemonia europeia. In: FUNARI, Pedro Paulo (org.). Repensando o mundo antigo – Martin Bernal, Luciano Canfora e Laurent Olivier. Textos Didáticos. nº 49. Campinas: IFCH/UNICAMP, 2005, p.11-31.

  • Barbara Fonseca

A Religiosidade na Antiguidade Grega

Templo de Atena Polias em Atenas na Grécia (Foto: Camilla Miranda Martins)

A religião grega antiga não conhecia nenhum tipo de revelação, não possuía dogmas ou livros sagrados, muito menos messias. Por não ter um caráter dogmático acabava inferindo em uma série de particularismos e, portanto, não podemos falar em uma religião grega, mas em cultos gregos, no plural. Contudo, existia uma cultura e uma língua gregas que delimitavam local e temporalmente a noção do que se entende por religiosidade ou politeísmo grego comuns. E isso era expresso na tradição das narrativas (mytois) feitas para conservar e transmitir os saberes convencionais.

De acordo com Pedro Paulo Funari, grande parte da religiosidade grega conhecida foi a desenvolvida na polis e nos jogos olímpicos, a partir de 776 a.C., os quais marcaram presença como base cultural dos helenos.[1] Acerca dessa religião cívica, Vernant nos explica que até o período arcaico a esfera do sagrado, no que diz respeito ao seu espaço físico na vida das pessoas, encontrava-se em ambientes privados como os altares domésticos. Contudo, com o desenvolvimento das cidades edificou-se o templo, onde o deus residia por meio de sua estátua – o templo era (diferentemente dos altares domésticos) público e comum a todos os cidadãos.[2]

Com isso cada cidade teria passado a ter sua tradição religiosa e o gênero literário teria se tornado autônomo, promovendo uma literatura épica a qual recolhia na escrita o que era transmitido pela tradição. Vale ressaltar que a literatura no período Clássico, séculos VI a IV a.C., não era feita para ser lida desacompanhada, propiciando as narrativas um caráter estético, político e social, aproximando os vínculos entre religião e polis.[3]

O culto aos heróis também era uma característica da religião cívica, pois estava associado a um lugar preciso como um túmulo com o corpo do herói (acreditava-se que o corpo estava ali; às vezes mantinha-se o lugar em sigilo porque de seu resguardo dependia a integridade da polis, e outras vezes estavam no centro da cidade para lembrar seu lendário fundador). O prestígio dessa figura era sinal de honra; os heróis representavam símbolos de glória e serviam como modelos de virtude para os cidadãos. Eles eram semideuses, muitas vezes filhos de um deus com um humano, eram homens que nasceram e morreram, tinham qualidades como força e beleza maiores que o comum e viveram em uma Era já extinta – não existiam e nem existiriam mais, mas permaneciam vivos na memória dos gregos.

Concluindo, tal aproximação do religioso com o social, entende Vernant, possuía duas consequências: a primeira é que o indivíduo não tinha posição central no culto, participava dele como representante do seu estatuto social – phrátriai da qual era membro; a segunda é que tal relação religioso-social acabava por aproximar também religioso e político, pois as atividades da ágora (assembleia) organizavam-se de acordo com as festas em honra aos deuses.

  • Camilla Miranda Martins


Referências:

[1] FUNARI, P.P.A. Gregos. In: (org.). As Religiões que o mundo esqueceu. São Paulo: Editora Contexto, 2009, p. 41-51.

[2] VERNANT, J. Mito e Religião na Grécia Antiga. Campinas SP: Papirus, 1992, p. 40.

[3] VERNANT, J. Fronteiras do Mito. In: FUNARI, Pedro. Repensando o Mundo Antigo: Jean Pierre Vernant e Richard Hingle, Campinas/SP: IFCH/UNICAMP, 2002, pp. 13-14.