Retrospectiva Antiga e Conexões 2022

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal! Esperamos que este post os encontre bem!

É por ele que vamos, hoje, nos despedir do ano de 2022 e anunciar nossa ausência até o próximo ano. Para isso, gostaríamos de fazer uma breve retrospectiva de alguns momentos que marcaram esse período para o grupo e compartilhá-la com vocês. Afinal, vocês são fundamentais para que continuemos com esse ânimo em divulgar os estudos sobre Recepção e História Antiga!

Primeiro, gostaríamos de agradecer a todas e todos que se envolveram em nossa pesquisa temática, que esse ano se dedicou aos estudos sobre Recepção e Moda. Dando origem aos textos publicados aqui em nosso blog, pudemos também contar com a incrível parceria com o grupo de estudos sobre História da Moda da UFJF (@historiadamoda.ufjf), orientado pela Professora Doutora Maria Claudia Bonadio. Por fim, reunimos nossas produções escritas em um material final, uma coletânea que reuniu também imagens para podermos continuar refletindo sobre os impactos das imagens do passado na moda da atualidade!

Além disso, tivemos a alegria de receber professoras e professores em falas incríveis ao longo dos últimos semestres, as quais foram transmitidas por meio de nosso canal no Youtube! Entre nossos eventos, conseguimos a oportunidade de realizar a primeira edição do Percurso Antiga e Conexões, com o qual percorremos as ruas da cidade de Curitiba em busca dos sinais de recepção de gregos e romanos na modernidade paranaense por novas reflexões e discussões.

Por fim (e não menos importante), ficamos honrados em poder concretizar a parceria com a Professora Doutora Jane Kelly de Oliveira (UEPG), compartilhando as análises de seus estudantes acerca da “Recepção da Literatura Greco-Romana no Cinema“! Nessa mesma página de parcerias, reunimos também os materiais elaborados por alunas e alunos na disciplina de Laboratório de Ensino e Pesquisa em História Antiga II (DEHIS/UFPR), voltados para a presença de questões pompeianas e neopompeianas na atualidade.

Agradecemos a todas e todos os colegas, às professoras parceiras e a nossas e nossos leitores por este incrível ano juntos! Esperamos que possamos seguir com essa relação maravilhosa nos meses que se seguem, e que possamos compartilhar mais discussões sobre o mundo antigo e suas conexões com o presente!

Boas festas, bom descanso e até 2023!

Parceria – Recepção da Literatura Greco-Romana no Cinema – Parte II

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Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

Hoje o post vai para a divulgação dos mais novos resultados da parceria entre o nosso grupo e a Professora Doutora Jane Kelly de Oliveira (UEPG)! Dando seguimento aos trabalhos cujo objetivo é analisar as repercussões de elementos literários greco-romanos no cinema, trazemos aqui mais alguns dos textos que resultaram da proposta. Abaixo, os quatro estudos redigidos pelas e pelos estudantes envolvidas e envolvidos poderão ser acessados e baixados em seus links específicos.

Aproveitamos a oportunidade para elogiar o trabalho empreendido por nossas e nossos colegas e agradecer pela oportunidade de continuarmos com essa cooperação. Parabéns e nosso muito obrigada!

Ensaios “Recepção da literatura clássica greco-romana no cinema” – Parte II

I – As Mil Faces do Herói em Percy Jackson: uma análise do herói moderno, de Gabriel Pedro Brigola. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1BLEngZdPVu4dgfZkZmPIgOPc_BJkme4a/view?usp=sharing

II – Criação do Trágico em Lavoura Arcaica: uma breve comparação do romance e sua adaptação cinematográfica, de Mariana de Bona Santos. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1An7pGKpk7Que399FXO4Vh5D0odYf4LN3/view?usp=sharing

III – Revisitando um Clássico Grego nos Tempos Modernos: OldBoy (2003) como releitura de Édipo Rei, de Rodrigo Paes. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/11Zv-Bx1jc2BAv3_5rKWqRa7eBfDL_jTp/view?usp=sharing

IV – Sappho – Summer Love: “devo seduzir e dar aos amores?”, de Felipe Kalinoski e Gisele F. Prado. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1TPX-2oUbJk06LMOmftxxQA0H_lShErym/view?usp=sharing

Coletânea Antiga e Conexões – Recepção e Moda

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Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

É com muita alegria que anunciamos a publicação do mais novo material Antiga e Conexões! Como encerramento das atividades desse ano, estamos divulgando a criação de nosso catálogo sobre Recepção e Moda. Ao reunir os textos publicados no blog, acrescentamos mais imagens às discussões de modo a atribuir maior visualidade à discussão proposta pelo grupo.

Esperamos que essa coletânea seja usufruída por vocês, aplicando em sala de aula, estudos ou na lista de leituras! Agradecemos imensamente o apoio de nossas e nossos leitores, bem como da professora Maria Claudia Bonadio (UFJF) – que coordena o grupo de estudos de história da moda dessa mesma instituição. Vocês foram fundamentais para a realização dos debates que deram a base dessa publicação.

Desejamos uma boa leitura, e até o próximo post!

Link para download do material: https://drive.google.com/file/d/1ugoZ49W8cntEnVr62zFVKcPTV36eX7K9/view?usp=sharing

Antiga e Conexões pelo Brasil: Apresentações Nacionais

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexões.

Olá pessoal! Esperamos que estejam bem!

Na publicação de hoje damos continuidade aos relatos sobre nossas participações em eventos. Agora com apresentações e publicações de nossos integrantes em escala nacional, compartilhamos com vocês alguns dos nossos temas de pesquisa e reforçamos nosso convite para que nos acompanhem em próximos eventos. Trazemos, aqui, breves resumos desses trabalhos, de autoria de Heloisa Motelewski e de Guilherme Bohn dos Santos.

Esperamos que apreciem as temáticas, e agradecemos por nos acompanhar!

Orientalismo à romanidade? A criação da vilania antigo-oriental na modernidade em ‘Os Últimos Dias de Pompeia’, de Ambrosio (1913) – Heloisa Motelewski

XIX ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: usos do passado, ética e negacionismos (ANPUH/SC) – agosto 2022.

Inspirada em um dos temas levantados por minha pesquisa de Iniciação Científica, essa apresentação versou sobre a formação de imagens orientais junto ao passado romano. Mobilizando um discurso moderno cinematográfico, pensei em como o personagem Arbaces era exibido como exemplo de vilão oriental, criando um estereótipo sobre o Oriente desde características como a corrupção, a degeneração e a degradação. 

Apresentação:

Link para acessar a página do Simpósio Temático: Link da página do Simpósio Temático: https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/atividade/view?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNjoiYToxOntzOjEyOiJJRF9BVElWSURBREUiO3M6MzoiMTczIjt9IjtzOjE6ImgiO3M6MzI6ImRlZDVhMzllNjNkZGM1NDAxYjk3OWMzNDFiYTI4NTA5Ijt9&ID_ATIVIDADE=173

A Mística Egípcia, a Natureza e o Olhar Orientalizante: a mirada contemporânea sobre o passado romano dos cultos orientais sob a produção de Ambrosio (1913) – Heloisa Motelewski

6º SIMPÓSIO ELETRÔNICO DE HISTÓRIA ORIENTAL: mesa novas mídias e oriente – outubro 2022.

Um dos outros temas que apareceram junto aos problemas levantados pela minha pesquisa de Iniciação Científica, essa comunicação (apresentada de forma totalmente escrita) buscou analisar como os ideais de Natureza são acompanhados de um misticismo qualificado como oriental no filme estudado. Assim, parti do destaque conferido ao culto ilíaco a partir de uma investigação sobre a elaboração dos aspectos visuais da produção de Ambrosio. 

Link para acessar a comunicação escrita: https://simporiente2022mesas.blogspot.com/2022/09/a-mistica-egipcia-natureza-e-o-olhar.html

Link para acessar o livro publicado: https://drive.google.com/file/d/15fhwMuEBPWd2HRLzdQC-R3xcIs142kFN/view

As muitas identidades da vida pós-clássica do mundo antigo na obra de Borges pela figura de Homero – Guilherme Bohn dos Santos

XIX ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: usos do passado, ética e negacionismos (ANPUH/SC) – agosto 2022.

Pensando a finalização de um ano de iniciação científica, nessa apresentação busquei expor um apanhado geral das temáticas e abordagens que se desenvolveram no relativo período de trabalho.

Dessa forma, expus como o escritor argentino Jorge Luis Borges nos proporciona uma recepção do passado greco-romano que advoga por uma infinitude de interpretações ao olhar para os clássicos. Usando Homero como figura central de alguns contos, o escritor elaborou obras que importam aos próprios estudos da história antiga para pensar as transformações que a antiguidade passa até nossos dias, para isso, utilizou-se das temáticas da memória e das subjetividades. 

Link da apresentação: 

https://www.canva.com/design/DAFJsvkxZto/IZH2nnbJ3SdJFcjydO6Mlw/view?utm_content=DAFJsvkxZto&utm_campaign=designshare&utm_medium=link&utm_source=publishsharelink

Link da página do Simpósio Temático:

https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/atividade/view?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNjoiYToxOntzOjEyOiJJRF9BVElWSURBREUiO3M6MzoiMTczIjt9IjtzOjE6ImgiO3M6MzI6ImRlZDVhMzllNjNkZGM1NDAxYjk3OWMzNDFiYTI4NTA5Ijt9&ID_ATIVIDADE=173

  • Heloisa Motelewski
  • Guilherme Bohn dos Santos

Antiga e Conexões pelo Mundo: Apresentações Internacionais

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Olá pessoal! Esperamos que estejam bem!

Estamos alegres em compartilhar com vocês as nossas experiências em eventos de abrangência nacional e internacional ao decorrer deste ano! Para isso, a nossa integrante Heloisa Motelewski e a professora orientadora do grupo Renata Senna Garraffoni farão, neste post, um breve relato sobre suas apresentações. Na próxima postagem, trazemos também breves resumos de comunicações e publicações veiculadas em meio nacional. Fiquem de olho! 

Esperamos que se interessem pelos temas e que nos acompanhem em eventos futuros!

I FÓRUM-ESTUDANTE DE ESTUDOS CLÁSSICOS E HUMANÍSTICOS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA (junho de 2022)

Com o título “Ambiguidades femininas da antiguidade à contemporaneidade: um estudo sobre a representação da mulher greco-romana em Os Últimos Dias de Pompeia, de Arturo Ambrosio (1913)”, tive a alegria que compartilhar alguns dos resultados que obtive com as primeiras pesquisas feitas junto ao Programa de Iniciação Científica da UFPR em um evento promovido de maneira híbrida pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Escolhendo como recorte temático um dos problemas levantados ao decorrer dos meus estudos – a imagem feminina grega e romana -, decidi por me concentrar na construção da personagem Nídia para indicar algumas das minhas considerações. 

Nesse sentido, procurei demonstrar como uma narrativa romântica sobre a escravizada acaba por tecer um discurso de atuação para as mulheres da época do filme. Nele, o sacrifício final, envolto por virtudes gregas da personagem, contrasta com seus sentimentos fortes e de raiva, presentes em grande parte da narrativa por seus ciúmes de Glauco e Ione. 

Para isso, fiz uma análise acerca da construção dos elementos visuais da película, recuperando fontes arqueológicas da cidade de Pompeia e pinturas pompeianistas do século XIX. Ademais, a própria narrativa de Bulwer-Lytton (1834) me auxiliou a entender melhor as questões que se ligavam à Nídia. 

Deixo aqui os slides que usei na apresentação, bem como o link de acesso à página do evento. Espero que gostem do material e que as questões levantadas encontrem pertinência entre os estudos de recepção e suas reflexões sobre o mundo antigo!

Link para a página do evento: https://forumestudante2022.wixsite.com/i-feech2022

COLÓQUIO INTERNACIONAL – POMPEYA Y HERCULANO ENTRE DOS MUNDOS. LA RECEPCIÓN DE UN MITO EN ESPAÑA Y AMÉRICA (junho de 2022, no Museu Arqueológico Nacional de Madri).

O Colóquio marcou o encerramento das atividades de pesquisa realizadas entre os anos de 2020 e 2021 no âmbito do projeto Recepción e influjo de Pompeya y Herculano en España e Iberoamérica (PGC2018-093509-B-I00 financiado por: FEDER / MICIN– AEI), coordenado pela professora Mirella Romero Recio, da Universidade Carlos III em Madri. Entre os dias 08 e 10 de junho de 2022, os e as pesquisadores/as membros do projeto se reuniram no Museu Arqueológico Nacional de Madri para apresentar os resultados das pesquisas feitas em seus países de origem e no dia 11 fomos a Colmena de Oreja, cidade natal de Ulpiano Checa, para conhecer sua obra Os últimos dias de Pompeia. 
Como todo o projeto se desenvolveu remotamente dada a pandemia de coronavírus, o evento foi uma oportunidade de reencontro e momento de compartilhar as múltiplas experiências de recepção de Pompeia tanto na Espanha como em diferentes países da América Latina. Na ocasião, apresentei o texto “Pompeya y el Vesubio en la prensa de la Belle Époque de Rio de Janeiro”, ele será publicado na coleção da L’Erma, junto com os demais trabalhos apresentados, e todas as apresentações podem ser acessadas no canal Youtube do Museu Arqueológico de Madri. Deixo aqui o link de minha exposição, a partir dele, poderão acessar as demais falas:

O projeto RIPOMPHEI se encerrou em setembro de 2022, todos os dados podem ser acessados no site: https://humanidadesdigitales.uc3m.es/s/ripomphei/page/inicio_rimpophei;

no Instagram: @ripomphei

no Twitter:https://twitter.com/ripomphei?lang=es

A novidade é que o governo espanhol aprovou sua continuidade a partir de outubro de 2022, por mais dois anos. A diferença agora é que a equipe está maior, coordenada pela professora Mirella Romero Recio (Universidade Carlos III de Madri) e Jesús Sallas (Universidade Complutense de Madri), englobando a presença grega, passando a se chamar ANTIMO. Como é recente, de momento, já tem o Instagram – @proyectoantimo – e Twitter – proyectoantimo -. Sigam pelas redes as novidades, logo haverá, também, o site. 

  • Heloisa Motelewski
  • Profa. Dra. Renata Senna Garraffoni

Carnaval, Moda e Subversão

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Olá, pessoal! Para finalizarmos os textos relativos à recepção e moda, abordaremos hoje a questão da indumentária no Carnaval brasileiro…

Nessa festividade, permanece presente a recepção greco-romana e os diálogos com a Antiguidade. Afinal, as próprias origens do carnaval têm relações com os deuses – como o deus grego da sátira, Momo (Μώμος) – e celebrações antigas – como a Saturnália romana. Os costumes festivos e “desregrados” das festas a Saturno, caracterizavam-na pelo relaxamento da ordem social, mesmo clima adotado posteriormente pela folia do calendário cristão. Não à toa, as relações com a Antiguidade aparecem nas avenidas, revisitando, discutindo e reinterpretando o passado. Na pluralidade dos carnavais, os antigos são recuperados especialmente pelas imagens mitológicas que, ao estabelecer novas conexões, desestrutura e questiona o idealismo dos “clássicos” (SETTIS, 2006). Uma das formas que ocorre a evocação ao passado no carnaval é pela indumentária – os foliões encarnam deuses, guerreiros, reis e monstros através de suas roupas!

A Saturnália romana, gravura de John Reinhard Weguelin. Fonte: Wikimedia Commons.

Na análise do antropólogo britânico Daniel Miller (2013), o vestuário desempenha papel considerável na constituição das experiências particulares dos indivíduos. Assim, há uma vasta gama de relações possíveis entre o conceito de “eu”, a pessoa, e a indumentária – ou seja, assim como as indumentárias se transformam, os indivíduos também se modificam (MILLER, 2013, p. 61). Exemplo disso é que, durante as comemorações carnavalescas, as roupas (assim como os próprios foliões) são transformadas pelo espírito festivo, adquirindo significações diversas àquelas do cotidiano.

Durante as festas carnavalescas o vestir se torna polifônico, de modo que vários corpos de significados podem coexistir num mesmo indivíduo a partir das representações, das fantasias e do subversivo que incorporam (CUNHA JUNIOR et al, 2020, p. 391-392). O ápice dessa ludicidade insurgente do carnaval brasileiro é o desfile das escolas de samba. Seus destaques de luxo – com opulência e criatividade – emitem discursos políticos, interpretações, anseios e resistências populares. A partir do samba enredo (fio condutor do desfile) é feita a criação e a execução dos figurinos, os quais têm como foco adicionar aos demais elementos informações necessárias ao bom entendimento da história ali contada (BEIRÃO FILHO, 2015, p. 48). Não obstante, há de se cumprir uma série de quesitos predefinidos visando a avaliação dos jurados e premiação que tradicionalmente ocorrem nas maiores cidades do país.

Na avenida, a sexualidade – que cotidianamente costuma ser encobertada e velada (sobretudo aos corpos femininos) – é permitida e celebrada. A indumentária, que normalmente tem como papel pragmático “cobrir” a vergonhosa nudez e demarcar posições na sociedade, durante o carnaval se transforma em uma ferramenta de teatralidade. Os corpos são transpostos para uma outra dimensão: sensorial, cênica e utópica, como explanado por Foucault. “Quando a alegoria vira para exibição, ele deixa de ser indivíduo para ser elemento alegórico, personagem, ator, intérprete” (CUNHA JUNIOR et al, 2020, p. 398).

Ao longo do espaço coletivo da avenida transitam representações heterogêneas, permitindo (a partir das expressões artísticas) a subversão das ordens delimitadas em questões históricas, políticas, sociais, religiosas, sexuais, de gênero, etc. A indumentária das fantasias carnavalescas ratifica essa insubordinação dos enredos, permite a construção e desconstrução de identidades e, extrapolando a mera função estética, chega ao papel simbólico de comunicação (BEIRÃO FILHO, 2015, p. 48).

Questionamentos sociais tais como a relação entre gênero e moda ou os debates acerca dos direitos da comunidade LGBTQIA+ já eram levantados nos carnavais do século XX, sobretudo por figuras como Clóvis Bornay (1916-2005). Bornay – famoso artista carioca – revisitou os padrões de normatividade vigentes, expôs e celebrou as multiplicidades transitando livremente entre as fronteiras do masculino e feminino. Essas transgressões permeadas pela indumentária são características carnavalescas e expõem as rupturas com inúmeros estereótipos. Gênero, raça, sexualidade, metadiscursos e práticas sociais são questionados no Carnaval e, a partir das vestimentas e expressões artísticas, são repensados pelos grupos ditos “marginais” ou “subalternos”.

Criaturas marinhas e Poseidon representados em desfile da escola Acadêmicos de Portela, na Marquês de Sapucaí (2011). Fonte: Rodrigo Gorosito/G1.

Referências:

CUNHA JUNIOR, M. R. et al. Trava na beleza: imaginários sobre destaque de luxo de escola de samba. Policromias: Revista de Estudos do Discurso, Imagem e Som, Rio de Janeiro, p. 389-419, dez. 2020.

BEIRÃO FILHO, J. A. Moda e Carnaval: uma abordagem criativa. Revista Moda Palavra e-Periódico, Florianópolis, v. 8, n. 15, p. 35-58, jan./jul. 2015.

MILLER, D. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

SETTIS, S. The future of the “classical”. Cambridge: Polity Press, 2006.

  • Felipe Daniel Ruzene

Os Clássicos na Moda do Funk e do Rap – Texto 2: A Conquista da “Nike”

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Olá pessoal! Continuando sobre a recepção dos clássicos na moda do Funk e do Rap, hoje trataremos de outro caso, a Nike.

A Nike é uma marca de artigos esportivos fundada em 1972 por Bill Bowerman e Phil Knight no estado norte-americano do Oregon. É atualmente a maior fornecedora mundial de produtos do ramo, que vão desde indumentárias e acessórios para o dia-a-dia até esportes de alto nível. Quase que ao oposto da Versace, tratada no texto anterior, é destinada sobretudo ao público popular e usa muito pouco estampas em suas peças. Por outro lado, seu logo é ainda mais conhecido que a Medusa, o chamado Swoosh, apesar de não parecer, carrega junto do nome da marca uma recepção do passado clássico.

No mundo grego antigo, Nike foi a deusa que representava a “vitória”. Dentre as diferentes representações visuais da divindade, é bastante comum aparecer com um par de asas nas costas, e também carregando uma faixa, uma coroa, ou praticando o ato da libação, símbolos de prestígio pelas conquistas. A marca Nike, além de emprestar o nome de uma referência antiga, traz no seu logotipo uma estilização da asa da deusa, representando velocidade e ascensão.

Retornando ao mundo do Funk e do Rap, a Nike é uma marca usada com notável frequência pelos artistas principalmente por estar amplamente associada às culturas de “rua” e ao streetwear. Apesar de não figurar no mercado de luxo e ter maior relação com uma identidade estética, não deixa de representar as conquistas dos indivíduos através de peças como os chamados “tênis de mil”, entre eles, Air Max Plus, Air Max 97, Vapormax e Shox TL. Andar “virgulado”, ou com “a vírgula no pano”, apelido dado ao Swoosh pela semelhança com o sinal de pontuação, é sinônimo de estar bem vestido. Nas letras e títulos de músicas as citações são inúmeras, “Nikeboyzsport” de Yung Nobre, “Nike Bolha” de Danzo, “Máfia da Nike” de MC Davi e MC IG e “Nikes on my feet” de Mac Miller são exemplos.

Ainda, um dos mais emblemáticos usos visuais da imagem da Nike está presente no clipe da música de Rap Apeshit do casal Jay Z e Beyoncé. No vídeo, a temática propõe uma subversão dos valores elitistas da arte ocidental ao colocar os cantores e bailarinos negros em frente a obras expostas no museu do Louvre. Enquanto a canção fala sobre a ascensão dos artistas através do poder aquisitivo e as mudanças sociais que isso acarreta, o videoclipe faz o excelente papel de destacar corpos negros em contraste com espaços de identificação de uma ideologia dominante. Entretanto, o que chama atenção nesse caso, é que a Nike não aparece através das roupas, mas a deusa se materializa na estátua conhecida como Vitória de Samotrácia. Produzida em mármore entre os anos do período helenístico e descoberta somente em 1863, se encontra no topo da Escadaria Darú do Louvre. O fato de sua cabeça ainda não ter sido encontrada e assim estar exposta, ajuda no processo de desconstrução do clássico como cânone ocidental. A falta de um rosto para comparação ou “modelo” permite pensar um mundo antigo e seu usos recentes de forma multi-identitária.

Sendo assim, temos mais um exemplo bastante interessante da presença do passado clássico na nossa atualidade. Representando a vitória desde as culturas greco-romanas, o mito se transporta para a moda em uma marca extensamente difundida na cultura popular. A Nike continua protagonizando como símbolo da celebração de conquistas, dessa vez, no universo do Funk e do Rap.

Referências:

SETTIS, Salvatore. The Future of the ‘Classical’. Tradição de: Allan Cameron. Cambridge: Polity Press, 2006.

MILLER, D. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Tradução: Renato Aguiar. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

  • Guilherme Bohn dos Santos

Moda, Mito e Masculinidade: Percursos sobre Medeia, de Pier Paolo Pasolini

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No final da década de 1960 Pier Paolo Pasolini, artista italiano conhecido por seu cinema, teatro, poesia, apresenta ao mundo uma trilogia de filmes baseados nos mitos gregos: Édipo rei, Medeia e Notas para uma Oréstia Africana. No filme aqui analisado, Medeia (1970), as roupas e figurinos têm um papel importante tanto na caracterização dos personagens e ambientes quanto na narrativa: as antigas roupas de Medeia são o presente enfeitiçado que ela oferece à filha do rei como parte de seu plano de vingança contra Jasão, por exemplo.

Apesar de se basear no mito grego, os figurinos e ambientes do filme não se encaixam perfeitamente no que consideraríamos hoje como a estética “clássica”. Ao falar sobre Édipo rei, Campos (2004) diz: “o figurino não é nem um pouco de época: Pasolini quis misturar, principalmente, a cultura africana ancestral, a antiguidade sumeriana e a tradição asteca, tudo dentro de um cenário marroquino, com som de cantos romenos, árabes e japoneses.” Em Medeia é possível perceber semelhante mistura de estéticas que afastam o mito da ideia de “clássico grego”, à qual Pasolini se sobrepõe. A ideia de “clássico”, analisada por Salvatore Settis, define-se historicamente, a partir de alterações estéticas na percepção dos antigos no final do século XVIII e início do XIX. O chamado estilo Neoclássico cria imagens idealizadas, estabelecendo os gregos do século V AEC e sua cultural material como um modelo (SETTIS, 2006). É justamente esse ideal grego que tenta se sobrepor a outras manifestações culturais que Pier Pasolini combate, trazendo elementos multiculturais nas suas produções.

A motivação de Pasolini para a inclusão de tais elementos no figurino do filme é tanto estética como ligadas à sua posição política. Admirador de Marx (e, sobretudo, de Gramsci), o cineasta demonstra, por meio do uso dessas diferentes vestimentas, seu amor pelo povo “bárbaro, terceiro-mundista, favelado, proletário” (CAMPOS, 2004).

As vestimentas servem, neste sentido, para reforçar as ideias que Pasolini discute em seu filme, sua interpretação particular do cineasta do mito. Segundo Fresneda, o filme aprofunda o confronto entre culturas religiosas e seculares e trabalha com os dualismos entre o sagrado, a natureza, o arcaico, representados por Medeia, e o profano, a civilização, o moderno, encarnados em Jasão. Portanto, o figurino que Medeia usa é relevante para construir visualmente estas simbologias:  quando foge de sua terra sua roupa expressa sua relação com o sagrado, o mítico; já na cena em uma cidade estrangeira, troca suas antigas roupas e recebe vestimentas desse novo lugar indicador a ruptura da personagem com seu passado mítico, o qual ela voltará a abraçar no fim do filme.  

Roupa de Medeia sendo trocada. Nessa cena, a personagem é despida de suas joias e amuletos para vestir as roupas locais. (MEDEIA, 1970)

Destacar a centralidade do figurino é importante para pensar que a construção estética do cinema de Pasolini não se restringiu apenas às telas. De acordo com Paola Colaiacomo, o cineasta foi um dos responsáveis por ajudar a repensar a vestimenta e a masculinidade italiana dos anos 1960-1970 (COLAICOMO, 2015). Ao tomar conceitos da antropologia, a pesquisadora reflete sobre a relação entre teorias da literatura e a moda, campo geralmente enquadrado fora da crítica literária. Dessa maneira, é possível entender que a moda reflete no cinema e vice-versa. Então, no caso de Pasolini, a pesquisadora busca por traçar essa relação destacando os diversos impactos do cinema italiano na construção da moda.                                                                                                                  

Nesse viés, destaca-se que na reconstrução do pós-Guerra, famílias de classes trabalhadoras, ao retornarem a Roma, foram rechaçadas de ocuparem as suas antigas casas, de modo que essas pessoas ocupam periferias em assentamentos miseráveis. Pasolini, confrontado com essa realidade, busca expressar em sua narrativa fílmica uma “outra Roma”, não a da “Hollywood no Tibre”, mas uma “Roma Yankee” (COLAICOMO, 2015, p.272). Nesse intento, o artista italiano trabalha com adaptação de vestimentas como as “T-shirts” vindas dos Estados Unidos, tipo de roupa a qual os únicos autorizados a portar eram adolescentes e pessoas marginalizadas. Disto, Pasolini constrói a figura dos ragazzi

Em Medeia pode-se notar essa indumentária adaptada para muitos personagens, sobretudo de extração baixa, mas também são esses estilos portados por Quiron, o centauro, em sua transformação ao longo do filme, o que pode ser entendido como a oposição traçada entre o sagrado e profano, uma vez que o estilo de ragazzi, na ótica social da Itália dos anos 1970 não havia nada de sagrada, sendo atribuída muito mais a um domínio sexual.                                                   

        

Quiron. Cena em que mostra o personagem tanto como centauro como totalmente humano. Nela destaca-se a indumentária do Quiron humano, em que as clavículas e parte do peito estão descobertos e a roupa permite distinguir os traçados do corpo. (MEDEIA, 1970)

Paola Colaicomo argumenta existir uma linha de desenvolvimento que liga os ragazzi de Pasolini a atual moda midiática (2015). E o elemento central disso é a representação dos corpos masculinos. Claramente o cineasta não tinha a percepção de que a moda seria uma força que moldasse a identidade, como hoje se pensa, no entanto não deixa de ser destacável que sua produção fílmica estivesse, como se tenta aqui apresentar, ao esboçar críticas às condições sociais de sua época e pensar questões como o mito, o sagrado, o profano e a sexualidade, de alguma forma imbrincada num processo de construção estética do corpo masculino. Como cita a autora, o próprio jogo de câmeras caía, inclusive em Medeia, num jogo “transgressivo” (COLAICOMO, 2015, p. 282). E assim ocorre, pois a mídia das décadas seguintes faz-se de modelos do tipo ragazzi, com a clara valorização da masculinidade, traços que mostram os braços e/ou as clavículas, por exemplo.                                       

Desse modo, Medeia e a produção fílmica de Pier Pasolini são excelentes casos como, nas décadas de 1960-1970 a recepção dos “clássicos” na moda (em especial dos figurinos inspirados nos gregos) perpassa críticas socias e o cinema.

Referências

CAMPOS, Vanessa Patrícia Monteiro. DECIFRA-ME QUE NÃO TE DEVORO – Mitos, ritos e símbolos no cinema de poesia de Pasolini. In: SIMPÓSIO DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO DA REGIÃO SUDESTE, 10, 2004, Rio de Janeiro.

COLAICOMO, Paola. Pier Paola Pasolini and the construction of masculinity in Italian fashion. Internacional Journal of Fashion Studies, v. 2, n. 2, p. 267- 285, 2015.   

FRESNEDA DELGADO, Iratxe. Medea de Pier Paolo Pasolini. Ars bilduma, n. 4, p. 149-157, 2014.

MEDEIA. Direção: Pier Paolo Pasolini. Roma: San Marco S.p.A., 1969. 1 filme (118 min), sonoro, legenda, color. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uZYy493Hrd8&gt;. Acesso em: 19 mai. 2022.

SETTIS, Salvatore. The Future of the ‘Classical’. 1ª Ed. Polity Press, 2006.

  • Eduardo Zolet Santos
  • Camila Iwahata

O Drapeado de Vionnet e o Corpo Feminino, as Novas Possibilidades das Formas

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal, no texto de hoje continuaremos nossa jornada através da recepção de elementos da antiguidade greco-romana na moda, seguindo ainda o contexto do século XX, como abordado no texto anterior sobre Mariano Fortuny, porém, abordando o drapeado nas roupas da estilista Madeleine Vionnet.

 Performance, corpo e expressão são elementos que perpassam essas discussões, então pretendemos no seguinte texto tratar do movimento e das formas, partindo dos designs de Madeleine Vionnet. Nascida em 1876, na frança, Vionnet, foi um dos mais importantes nomes do cenário fashion da França no século XX, tal como Fortuny e outros designs de moda, ela buscou dar ênfase nos tecidos e formas leves, nas dobras e no caimento das roupas no corpo feminino. A estilista iniciou suas criações no mundo das vestimentas trabalhando com lingeries, o que sem dúvidas, refletiu-se em suas criações posteriores, nos elementos de sensualidade e transparência em suas criações.

No período do entre guerras, a ideia de uma antiguidade vinha sendo explorada por distintos grupos, como é o caso dos nacionalistas, (a ascensão do fascismo na Itália, é um exemplo). Mas, em contrapartida, esses elementos foram, também,  utilizados por artistas e pensadores dos nascentes movimentos de vanguarda, (já tratamos aqui da recepção dos antigos na obra de Giorgio de Chirico). Vionnet, mais se aproxima desse segundo grupo, através das dobras e dos recortes geométricos dos tecidos, ela busca exaltar o corpo feminino, contrapondo-se com a idealização do corpo masculino da antiguidade greco-romana.

Através do drapeado e do chamado “bias cut”(uma técnica de corte em 45°, que confere uma maleabilidade maior para o tecido), Madeline conseguiu criar peças que combinasse flexibilidade, fluidez e movimento. De forma que as roupas e o corpo se confundem, a roupa torna-se quase uma extensão do corpo feminino, abrindo-o para diferentes possibilidades.

Annek Smelik, traz uma reflexão interessante, entre a estética das dobras na arte e na moda. Iremos discorrer sobre tais discussões brevemente, para pensar como a antiguidade se insere nesse sistema simbólico. Pensando no drapeado utilizado principalmente nas esculturas barrocas de Bernini, e os vistos nas roupas de Vionnet e Fortuny. Smelik, aponta para um jogo entre as emoções expressas pelo drapeado, e a sensualidade que lhe é inerente. A autora, volta-se para as reflexões de Deleuze, que entende essas novas dobras nas vestimentas como uma forma de intensidade que se descola do corpo, em um jogo entre exterior e interior que estão sempre em movimento, no qual não se pode mais distinguir um do outro. 

A dobra para Deleuze, trata-se de um conceito muito mais amplo do que poderíamos descrever aqui, porém, é interessante, pois nos possibilita traçar esse jogo na própria vestimenta. Em um período de mudanças abruptas nos modos de vida na sociedade do século XX, é através das dobras e formas das vestimentas femininas, que o interior e o exterior se encontram possibilitando um movimento infinito de criações, onde o corpo torna-se mais do que só o corpo.

Referências

CLARKE, Michael. Exhibition Review Madeleine Vionnet: 15 Dresses from the Collection of Martin Kamer. Fashion Theory, v. 6, n. 3, p. 323-326, 2002.

DI TROCCHIO, Paola. Exhibition Review: Madeleine Vionnet: Fashion Purist—The World According to Madeleine Vionnet. Fashion Theory, v. 15, n. 4, p. 517-523, 2011.

SMELIK, Anneke. Fashioning the fold: Multiple becomings. In: This Deleuzian Century. Brill, 2014. p. 37-56.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

Representações da Antiguidade por Mariano Fortuny através da Moda

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal! No presente texto, vamos explorar a moda no século XX, através dos modelos de vestimentas criados por Mariano Fortuny, trajes que tiveram uma forte inspiração na antiguidade greco-romana. Mas não iremos pensar nessa retomada de Fortuny da antiguidade como algo deslocado, aqui iremos traçar reflexões que perpassam as vestimenta, temporalidade e corporeidade de forma que possamos articular o passado antigo com o século XX também com o presente, questionando o que entendemos por “Clássico”.

As roupas, como já exploramos nos textos anteriores, não são objetos superficiais, mas podem dizer muito sobre nós, nossos contextos, culturas e aspectos sociais relativos a gênero, classe social e entre outros. Tendo isso em mente vamos retomar como as vestimentas costumavam ser no século XIX. A pesquisadora Valéria Brandini, pode nos ajudar a entender as vestimentas nesse período. Ela aponta que com ascensão da industrialização na Inglaterra o corpo humano, (principalmente dos individúos do sexo masculino), passou a ser visto como uma extensão do trabalho; juntou-se a isso a condenação da homossexualidade, fazendo com que a extravagancia nos trajes masculinos, que antes era vista como um sinal de poder de indivíduos aristocráticos, passasse a ser vista como um elemento dos trajes femininos. Mas, mesmo nesse âmbito os trajes mais simples eram vistos como um alinhamento entre quem o utilizava com a retitude moral, o copo passa a ser escondido e despersonalizado. As roupas passam a ser vistas, na esfera pública como um aspecto de demonstração de subjetividade, do “eu”, as vestimentas tornam-se signos que revelam aspectos psicológicos dos indivíduos e não mais como um marcador de tradição.

Já no final do século XIX, a roupa feminina passa da simplicidade ascètica e começa a ganhar alguns traços de extravagância como forma de distinção na esfera pública, isso devido as revistas femininas e da atuação das mulheres, que passaram a participar de forma mais intensa na vida pública. Como já havíamos exposto nos textos anteriores, no século XVII e XVIII houveram muitos interesses de recuperação do passado greco-romano nos estilos, na arte e na vida social. Emma Hart, utilizou-se de elementos da antiguidade em seus trajes, tornando o passado em algo vivo em suas performances. As mulheres do século XX não fizeram diferente, principalmente aquelas que se encontravam nas esferas da arte e da dança, elas entendiam que a performance, era uma forma de comunicação que poderia expressar a alma através do corpo.

Mariano Fortuny, nascido na Espanha em 1871, foi um designer de moda que teve uma atuação intensa nos meios culturais europeus. As vestimentas criadas por ele tiveram inspirações principalmente nas formas das esculturas gregas e nas artes bizantinas, como os mosaicos, essa junção permitiu a ele criar um novo conceito de “clássico”. As inspirações de Fortuny na história, são devidas ao pai, que foi um colecionador de arte e artefatos históricos. Mariano cresceu e moldou seu imaginário da antiguidade, nesse meio, ele acreditava que as artes antigas não precisavam estar aprisionadas no passado, mas sim podiam ser repensadas e reutilizadas no presente.

A arte esteve na vida de Fortuny em muitos meios, na fotografia, na escultura, no teatro e na moda. Ele começou a criação de roupas a partir de sua atuação no teatro, ele tinha inspiração nas luzes e nos movimentos do palco, não produzia roupas por demanda de mercado, mas sim pensando no corpo como forma de expressão. A união entre as referências de estátuas gregas (como forma de representar e dar liberdade ao corpo) mais as cores e as representações dos mosaicos bizantinos (como figurativo da alma), agradou nomes do cenário artístico como a dançarina Isadora Duncan e a atriz Eleonora Duse.

Fortuny, em meio a debates teóricos sobre o “Clássico”, entre aqueles que entendiam o passado grego como detentor de uma superioridade, e aqueles mais conciliatórios que buscavam uma memória compartilhada das artes, em diversas culturas, como gregas e bizantinas. Conseguiu romper com essa definição, criando sua própria interpretação do clássico, como algo que diz muito mais a respeito do presente do que do passado.

Referências

BIBLIOGRAFIA:

BRANDINI, Valéria. Moda, cultura de consumo e modernidade no século XIX. Signos do Consumo, v. 1, n. 1, p. 74-100, 2009.

MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2013.

SCHWARZ, Caitlin Mackenzie. Body and Soul: How Mariano Fortuny Redefined the” Classical”. 2019. Tese de Doutorado. University of California, Davis.

  • Renata Cristina S. de Oliveira