Parceria – “Mas e os gregos, podem ser brasileiros?”

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal! Espero que estejam bem!

Trazendo mais uma novidade entre as parcerias que tivemos esse ano para o nosso blog, hoje venho escrever um pouco sobre o plano de aula que confeccionei com as minhas colegas para a disciplina de Metodologia do Ensino de História, ministrada pelo Professor Wilian Carlos Cipriani Barom (ofertada pelo Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná sob código EM248). Eu, Renata Cristina e Deisire nos propomos a montar uma atividade que trouxesse, na prática, a recepção da Antiguidade. Para isso, partimos da atividade avaliativa final indicada pelo docente, que nos solicitou a elaboração de um plano de atividade ou na perspectiva de ensino colonial, ou na perspectiva histórica, e nos orientou ao longo de sua realização.

Conhecendo a obra de Lorna Hardwick, decidimos nos aventurar pelos olhares pós e decoloniais sobre o passado antigo, em especial ao tomar como base o livro organizado pela autora junto de Carol Gillespie, “Classics in Post Colonial Worlds” (Oxford, 2007). Com isso, pensamos a possibilidade de incentivar a criatividade de alunas e alunos ao convidá-las e convidá-los a produzir um teatro com fundamento em um mito grego, mas que trouxesse os problemas do contexto em que vivem desde uma mirada crítica.

Como materiais de exemplo, inspiradores, citamos a adaptação “Women of Owu“, de Femi Osofisan (2006). Uma recepção de “As Troianas“, de Eurípides, o roteiro e a encenação da peça mostram alguns caminhos de se repensar a atualidade por um prisma decolonial e pós-colonial – ao passo de que tece reflexões interessantes sobre o imperialismo sobre a Nigéria, no passado e no presente.

O plano de atividade, que mobiliza, a princípio, 3 aulas, está disponível para leitura e download nesse post.

Além disso, também aproveitamos o espaço para divulgar o trabalho da Professora Doutura Renata Cazarini (UFF) em seu blog Palco Clássico. Com textos super interessantes, a professora nos traz análises excelentes sobre adaptações teatrais de textos antigos no Brasil, com enfoque maior no eixo Rio-São Paulo. Para quem tiver interesse pelo tema, vale muito a pena conhecer e ler suas postagens!

O link para acessar a página principal do blog é: http://palcoclassico.blogspot.com/

Esperamos que gostem da proposta, assim como compartilhem suas experiências e opiniões sobre ela!

  • Heloisa Motelewski

Link para download do arquivo: https://drive.google.com/file/d/1eH5QrA8AnnuJCyD2SxXmK5O_W4enAIXi/view?usp=share_link

The New Goddesses: Performances Mitológicas à Moda Drag Queen

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Olá! Esperamos que esteja bem!

No texto de hoje daremos continuidade à questão das relações criadas entre a roupa e a performatividade, já trabalhada em outras publicações. Como já apresentado, sustentamos que há um rompimento quanto à noção de que as roupas são meramente superficiais, não detendo significados mais profusos sobre as individualidades. Pelo contrário, concebemos, seguindo a leitura de Miller (2013), como a vestimenta é um potencial mecanismo de exteriorização de partes de si em movimentos performativos instantâneos. Nessa linha, tomamos como ideia de performance a traçada por Zumthor (2007), ao se reconhecer a momentaneidade de suas manifestações, variantes em seus aspectos históricos, sociais e subjetivos, e submetidas aos processos criativos e comunicacionais de seus agentes. 

Por conseguinte, apreendemos como o ator performático extrapola os limiares da indumentária para se conectar com a totalidade corporal ao associar o interior com o exterior a partir de inscrições corporais delimitadas pela atuação social, como teoriza Butler (2003). Por essa mesma autora, notamos como as ideologias criadas em sociedade acerca das atuações pessoais, especificamente orientadas segundo concepções de gênero, acabam por passar às corporeidades em significações próprias em jogos com “ausências significantes” (BUTLER, 2003, p. 194) na construção de identidades. Em decorrência, os conceitos generificados, ilusórios por sua caracterização social imanente, acabam por se contrapor a atuações consideradas transgressoras, tais como a ação Drag. Por esse modo, tomamos como o objeto de análise desse texto as formas de evocação da Antiguidade por essas performatividades subversivas e jocosas sobre os padrões comportamentais, contrapondo sexo, gênero e performance, tal qual expõe a autora. 

De modo a fazer esse breve estudo, tomamos como documento a promoção da quinta temporada do reality show RuPaul Drag Race, um concurso norte-americano ao qual drag queens competem pelo título de Drag Queen Superstar. Nesse vídeo, visualizamos como o mundo antigo é encarnado em uma ruptura em relação aos ideais de gênero, recuperado especialmente por imagens mitológicas e destacando-se na expressão visual pela indumentária. Desse modo, averiguamos uma dissensão nas noções tradicionais do “Clássico”, uma definição repensada e rearticulada desde a diversidade inerente ao mundo antigo e às suas recepções, conforme retrata Settis (2006). Em concordância com esse modelo de apropriação não homogeneizante do passado, a montagem audiovisual traz alguns elementos inerentes ao passado de povos egípcios, indianos e até mesmo “espaciais”. Desestrutura, zomba e ironiza os ideais de gênero e de um passado greco-romano “clássico”. 

Para além disso, mencionamos essa fonte como sendo um exemplar das construções de novos significantes linguísticos acerca do mundo antigo, em especial a partir de recepções pós-modernas sobre o passado, em consonância com o examinado por Settis (2006). Afinal, o trailer respalda-se sobre evocações fragmentárias do passado e banaliza suas noções “tradicionais” ao aliá-lo a temas cotidianos, como a discoteca e as sungas douradas. Entretanto, ao mesmo tempo, ligam-se às retomadas modernas da Antiguidade, reconhecendo de forma consciente as posições dos componentes greco-romanos, egípcios e de demais povos antigos usados em sua criação – nomeadamente no vínculo entre seus conhecimentos sobre representações visuais de deusas mitológicas manifestadas em suas formas de vestir, com os fatores tomados como disruptivos na sociedade contemporânea. 

Tendo essas considerações em perspectiva, podemos concluir, enfim, como o mundo Drag Queen tem grande espaço no trato performativo crítico do mundo antigo, especialmente em imagens que refletem a variabilidade de situações nele encontradas. Ao revestir-se de elementos pós-modernos, transpondo aspectos do passado em fragmentos e vulgarizados, constituem, afinal, movimentos conscientes em seus discursos atuais, que, críticos às postulações sociais de gênero, encontram nas vestimentas uma forma máxima de expressão. 

Trailer de promoção. RuPaul’s Drag Race. 5a temporada.

Referências:

BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de: Renato Aguire. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 

MILLER, Daniel. Por que a indumentária não é algo superficial. In: _____. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Rio de Janeiro: Zahar, 2013. p. 21-65.

SETTIS, Salvatore. The Future of the ‘Classical’. Tradução de: Allan Cameron. Cambridge: Polity Press, 2006.

ZUMTHOR, Paul. Performance e Recepção. In: ______. Performance, recepção, leitura. Tradução de: Jerusa Pires Ferreira e Suely Fenerich. São Paulo: Cosac Naify, 2007. p. 45-60.

  • Heloisa Motelewski

Entre Hades e o Inferno: Como o Metal Traduz a Antiguidade para o Presente

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Ao falar da antiguidade grega existe sempre um problema de conexões de como traduzir os temas dos mitos para uma audiência do século 21. Hades é um dos casos mais peculiares sendo o nome de ambos o deus do submundo grego e do próprio submundo, no curta-metragem de animação produzido pela Disney: A deusa da primavera (1939) o deus dos mortos aparece vestindo roupas vermelhas e chifres tendo uma aparência que remete as representações de satã, além do que o submundo aparece com vastos campos de fogo, criaturas que parecem demônios caricaturados sendo algo que remete muito ao inferno cristão. A representação mais famosa da Disney de Hades aparece porém em Hércules(1997) que apesar de usar a versão romana de seu nome uma vez que a escrita do semideus em grego era: Héracles é baseado na mitologia grega, o deus Hades é o principal vilão do filme e aparece como traiçoeiro e maquiavélico em seu papel como antagonista que visa usurpar o papel de rei dos deuses de seu irmão Zeus, a autenticidade do filme com a mitologia grega é questionável uma vez que Zeus mesmo aparece como um fiel e devoto pai de família, algo que qualquer pessoa que já leu algum mito grego acharia absurdo. Apesar de o filme não fazer explícitas associações entre o deus Hades e o diabo cristão, o filme ainda faz aproximações, em especial com Agonia e Pânico os lacaios do deus que novamente remetem a demônios cristãos caricaturados.

A associação de Hades com o diabo é algo comum e não é exclusivo nem da Disney nem do cinema. O mesmo ocorre nos videogames, por exemplo, na série God of War o deus é uma figura colossal, monstruosa e deformada com um elmo que apresenta chifres e um submundo encoberto por chamas, o Jogo Hades (2020) não difere dessa conexão onde em especial o segundo mundo Asphodel apresenta rios de lava, é descrito como “fedendo a enxofre”, apesar de o inferno ter diversas interpretações a discrição: “Fogo e enxofre” encontrada em especial no livro do apocalipse é a mais comum. No videogame Hades é então possível ver que apesar das diversas figuras gregas a aproximação do submundo com o inferno é perceptível, essa fusão que não escapou aos desenvolvedores, Darren Korb o compositor das músicas do jogo e dublador de Zagreus o protagonista do jogo disse “I wanted Hades to have a metal rock component because it’s in hell. It’s just right there for the taking” o que em uma tradução de minha autoria ficaria algo como: “Eu queria que Hades(o jogo) tivesse um componente de rock metal porque se passa no inferno. Faz todo sentido” chegamos então ao tema desse segmento a música e aqui vemos uma interessantíssima conexão a do inferno com o metal.

Tal conexão é pouquíssimo surpreendente, afinal o rock metal normalmente apresenta um profundo teor anticristão e em especial anticlerical, e o que pode ser mais anticlerical do que o diabo e o inferno? A antiguidade e em especial a mitologia também são elementos do metal em especial do Black Metal, Christodoulos Apergis discorre sobre isso no terceiro capítulo de Classical antiquity in heavy metal music, capítulo esse intitulado “Screaming Ancient Greek Hymns: The Case of Kawir and the Greek Black Metal Scene” explica que a associação com a mitologia e com os rituais pagãos gregos é necessário lembrar que a música tinha papel central nas praticas religiosas da antiga Grécia, os hymms referidos eram canções feitas para exaltar a glória dos heróis e deuses da mitologia. O Black metal, que comumente faz referências satanistas, torna mais aparente que ao tomar inspiração da mitologia grega tem a intenção de o fazer a partir da rejeição do cristianismo ao exaltar os rituais pagãos, e nesse ponto a relação do metal com do paganismo começa a fazer sentido se levadas pelo teor do anticristianismo encontrado no Black Metal.            

Até onde sabemos Darren Korb não teve a intenção de inserir um conteúdo explicitamente anticristão ao produzir a trilha sonora de Hades, porém ao o fazer ele bebe de todas essas questões e nesse ponto quando se ouve uma lira sendo harmonizada com uma guitarra elétrica após passar a frustração de morrer pelas mãos do minotauro pela centésima vez, possamos pensar em como nossas visões de passado e antiguidade também são permeadas por questões presentes, como as figuras mitológicas aparecem para nós e como a música possibilita fazer sentido a todas essas relações. E, ao ver que as associações de Hades com o diabo e do submundo com o inferno muito longe de naturais estão em um âmbito da recepção e do uso dos clássicos, é também possível entender nosso papel na construção dos sentidos que damos as coisas que parecem ser tão distantes.

Referências

APERGIS, Christodoulos. Screaming Ancient Greek Hymns: The Case of Kawir and the Greek Black Metal Scene. In: FLETCHER, K. F. B.; UMURHAN, Osman (Edição). Classical Antiquity in Heavy Metal Music. Londres: Bloomsbury Publishing, 2019. p. 77 – 96.

QUILLFELDT, Thomas. How rock band influenced hades’ soundtrack. Laced, 26 de Jan de 2021. Disponível em: <https://www.lacedrecords.co/blogs/news/how-rock-band-influenced-hades-soundtrack> Acesso em 10 de Nov. de 2021.

  • Vitor Gabriel Maidl

O Mito de Sísifo em Andrew Bird

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Olá, pessoal! Dando seguimento na temática de música e recepção, no post de hoje pretendo trazer reflexões de como a questão mitológica aparece no cenário indie e alternativo. Muitas bandas e artistas desses gêneros trazem referências aos antigos e a mitologia, como é o caso da cantora Björk, com sua música de título Venus As A Boy, ou com a banda Peach Pit na música Alright Aphrodite, ainda na canção Persephone da banda Tamino, enfim, esses são só alguns exemplos de como a mitologia pode ser encontrada no cenário das músicas indies. Porém, pretendo somente tratar de um caso, do cantor e compositor Andrew Bird, que em algumas de suas canções faz alusão à temática mitológica, como em sua composição mais famosa que leva o nome de Sisyphus, em alusão ao mito de Sísifo.

Sísifo é o personagem mitológico, descrito como um homem de esperteza notável, filho de Éolo e rei da Tessália. Ele teria desafiado os deuses e recebido então um castigo pior que a morte, sendo obrigado a empurrar uma pedra para o topo de uma montanha, ao chegar ao topo a pedra rolava para baixo da montanha e Sísifo havia de recomeçar o trabalho, assim incessantemente. O personagem mitológico ficou bastante conhecido pela retomada que o filósofo argelino Albert Camus faz de sua narrativa, a recuperação do personagem se faz para tratar a respeito de questões existenciais, se a vida valeria ou não ser vivida, onde o filósofo discorre a respeito de questões da modernidade, como a relação do homem com a rotina, do sentimento absurdo causado pela relação de estranheza do homem com o mundo, das fugas para tal sentimento, chamadas por ele de “saltos”, e de diversas questões a respeito da modernidade. Em sua narrativa ele transforma o personagem em um herói do absurdo que cumpre sua fatídica tarefa, superando o sentimento de desrealização com o mundo e positivando seu castigo, como coloca Camus “É preciso imaginar o sísifo feliz”.

Na música do cantor e compositor norte americano, que faz parte do seu álbum denominado “My finest work yet” de 2019, a questão da tarefa de Sísifo é explorada, porém diferente da narrativa de Camus. Andrew apresenta outras opções para o personagem, onde já na primeira estrofe da música, questiona: “Did he jump or did he fall as he gazed into the maw of the morning mist?”, em tradução livre seria: “Ele pulou ou caiu enquanto olhava para o abismo da manhã enevoada?”, Bird continua a música dizendo que “ele levantou os pulsos dizendo ‘para o inferno com isso’, e  só deixou a pedra rolar?”; nessa versão do mito, Sísifo não cumpre seu castigo, deixando que a pedra rolasse, esmagando tudo que se encontrava abaixo, sendo o refrão da música: “Let it roll, let it crash down low /There’s a house down there but I lost it long ago /Let it roll, let it crash down low /See my house down there but I lost it long ago/ Lost it long ago”, ou seja na versão de Bird, Sísifo não cumpre seu castigo, mas salta para o abismo, deixando a pedra rolar cidade abaixo, Andrew Bird diz “A história esquece os moderados/ aqueles que sentam recalcitrantes e taciturnos/ Você sabe eu prefiro voltar e queimar do que escalar esse edifício.” Na versão de Bird, diferente de Camus, é preferível o salto e a revolta do que aceitar o castigo imposto pelos deuses, Sísifo prefere voltar para o castigo no submundo a se entregar a tarefa absurda de empurrar a pedra para o topo novamente.

Esse é só um exemplo de como os mitos podem ser retomados na música. Aqui a questão é de cunho existencial, mas como citado muitas outras bandas e cantores apresentaram suas versões sobre os mitos em diversas de suas letras, abordando diferentes temáticas com suas reflexões, propondo então leituras diferente de narrativas antigas que podem trazer muitas considerações sobre temáticas não somente referente a antiguidade, mas também com o cenário contemporâneo.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

A Mitologia em Giorgio De Chirico

 “Édipo e a Esfinge”, pintura de Giorgio De Chirico.

Olá pessoal, esperamos que todos estejam bem!

O post de hoje traz o primeiro texto do eixo de Arte e Recepção. Semana passada apresentamos  Giorgio De Chirico, agora, será tratado um pouco sobre a presença da Mitologia em suas obras.

A arte é um tema difícil de se discutir, existem muitas teorias e debates que são próprios dos estudos de história da arte, mas nem por isso está longe de ser algo excludente. Todos temos algum contato com ela, mesmo não estando a par de todos os detalhes teóricos. Portanto falo do assunto do ponto de vista de uma estudante de história, que aprecia a arte, porém, não necessariamente tem um rico repertório teórico sobre o assunto. As obras de De Chirico me pareceram bem interessantes desde o primeiro momento em que tive contato, pois além de causarem impacto naqueles que as observam, também são ricas em elementos que remontam o mundo antigo. Saber que o artista foi um precursor do Surrealismo, movimento que sempre me fascinou, fez com que tivesse ainda mais curiosidade sobre suas obras. Felizmente tive a oportunidade de estudar um pouco mais sobre elas junto ao grupo de pesquisa Antiga e Conexões, e este texto é fruto de tais estudos, pretendo então tratar de como os mitos aparecem nas pinturas de De Chirico.

Para fazer isso escolhi a pintura “Édipo e a Esfinge”, onde vemos a figura de Édipo representada por um manequim sem rosto que se encontra com as mãos sobre a face vazia, com uma postura pensativa, provavelmente ponderando em busca de uma resposta ao enigma da esfinge. Além do mais, ele veste uma armadura ornamentada com os desenhos de uma cidade moderna, com prédios, mas no canto se vê em destaque um templo grego. A esfinge, por sua vez, encontra-se em cima de um bloco de concreto cinza, ela tem seu rosto desenhado, mostrando uma expressão calma como se esperasse a resposta para sua indagação. O cenário é preenchido com elementos que parecem ser colunas antigas retorcidas.

Esses elementos são recorrentes na pintura de De Chirico, as construções arquitetônicas, as figuras sem rostos, o jogo de luz e sombra dando o aspecto vazio à imagem, e os elementos que remontam à antiguidade. O autor busca com essa mescla dos elementos antigos e modernos deixar a temporalidade suspensa, diferente das vanguardas que estavam nascendo no mesmo período, tal como o Futurismo, que buscava demonstrar justamente a passagem do tempo acelerada e o movimento. De Chirico fez o contrário, inclusive, elaborou numerosas críticas a essa característica futurista. Às influências para suas obras partem da filosofia, principalmente de autores de Nietzsche e Schopenhauer. Em sua maioria, possuem um tom melancólico e formam cenários oníricos, o que influencia os surrealistas posteriormente.

O pintor viveu um período de muitas mudanças, presenciando o desenvolvimento de diversas tecnologias, a eclosão de duas guerras mundiais e junto a isso houve também as mudanças de cidade que ele teve junto a sua família. De certa forma entender o contexto em que ele se encontrava, é importante para compreender o que ele busca mostrar em suas composições.

Em suas obras podemos pensar a presença do elemento mítico, esses tratam da gênese de algo, nas metamorfose, por exemplo, Ovídio conta a história da criação do mundo até o seu tempo, explicando as origens das coisas e dos seres. A mitologia traz respostas para a condição humana. Adriana Monfardini coloca: “O mito narra um acontecimento; mas, além disso, o mito dá respostas a questões que a razão humana não pode compreender. Dessa forma, o mito tenta explicar o inexplicável.” Os mitos ecoam pela existência humana, sempre apresentando novas facetas, a própria narrativa de Édipo é um exemplo, afinal ela foi retratada diversas vezes, no cinema, na literatura e até mesmo na psicanálise.

A mitologia, nesse caso a grega e a romana, estão no ambiente que compõe o que chamamos de clássico. Italo Calvino define o clássico como “aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.” De certa forma é isso que De Chirico busca ao retomar os antigos. Ao dar as costas ao atual ele traz um novo olhar para o seu próprio tempo, causando a estranheza nos que observam suas obras, obrigando-os a refletirem sobre os objetos, os espaços, e a própria humanidade. 

BIBLIOGRAFIA CITADA

CALVINO, Ítalo. Por que ler os Clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

MONFARDINI, Adriana. O mito e a literatura. Terra Roxa e outras terras: revista de estudos literários, v. 5, p. 50-61, 2005.

  • Renata Cristina Oliveira

Velázquez: “Las Hilanderas” e a mitologia

Las Hilanderas, de Velázquez. Fonte: Wikimedia Commons.

O quadro “Las Hilanderas” foi pintado pelo artista espanhol Diego Velázquez em cerca de 1657. Atualmente, compõe o acervo do Museu Nacional do Prado em Madrid e já possuiu diversas interpretações ao longo dos anos. Segundo o historiador José Manuel Pita Andrade (1992), apesar do quadro ter sido classificado no inventário Don Pedro de Arce como uma pintura sobre o mito de Aracne em 1664, essa interpretação mitológica foi esquecida nos séculos posteriores. Esse autor realiza uma retomada da trajetória interpretativa do quadro, que será resumida a seguir.

Durante os séculos XVIII e XIX, o quadro foi interpretado como um retrato realista de uma fábrica de tapetes, tendo sido inaugurado no Museu do Prado em 1819 como um momento da vida cotidiana. Foi nas quatro primeiras décadas do século XX que os historiadores da arte passaram a retomar interpretações místicas do quadro. Em 1903, Ricketts identificou que a imagem formada na tapeçaria ao fundo do quadro é a representação feita por Ticiano do rapto de Europa. A partir disso, em 1940, Enriqueta Harris sugeriu a presença de Atena e Aracne na pintura de Velázquez – já que, no mito, Aracne escolhe retratar em sua tapeçaria as aventuras amorosas de Zeus. Essa interpretação foi reafirmada por pesquisas de diversos outros historiadores da arte, como Diego Ângulo Íñiguez, e até hoje no Museu do Prado se apresenta o quadro como uma representação do mito de Aracne – apesar de ainda haver interpretações diversas sobre quais das figuras representam as duas mulheres do mito.

No mito, registrado por Ovídio, Aracne é uma humana extremamente talentosa na arte de bordar e tecer. Suas tapeçarias são tão impressionantes que seu talento passa a ser comparado com o da deusa Atena. A mortal, extremamente orgulhosa, decide desafiar a deusa para estabelecer definitivamente quem era melhor tecelã. Na competição, Atena representa em sua tapeçaria os deuses do Olimpo todo poderosos e o destino trágico dos humanos que ousaram desafiá-los. Aracne, por sua vez, escolheu representar as aventuras amorosas de Zeus, entre elas o rapto de Europa. Ofendida pela temática e pela qualidade do trabalho, Atena transforma Aracne na primeira aranha, condenando-a a tecer eternamente com fios sem cor.

Javier Portús Perez, historiador e chefe do Departamento de Pintura Espanhola do Museu Nacional do Prado, comenta essa obra de Velázquez em dois vídeos no canal que o museu possui no youtube. A obra é apresentada como um posicionamento de Velázquez em defesa da classificação da pintura como atividade intelectual. No período em que a obra foi produzida, discutia-se acerca da tradição artística e, ao representar o mito de Aracne, Velázquez traz um argumento importante a favor da arte. Segundo Javier Perez, os mitógrafos do século XVII viam nesse mito uma mortal que consegue competir e até mesmo superar uma deusa por meio da arte. Os humanos, portanto, possuem na arte uma capacidade infinita de progresso, sendo esse o único meio no qual podem se igualar aos deuses.

É interessante notar, portanto, como a memória em relação aos mitos clássicos vai sendo ressignificada durante a história. Enquanto, em sua origem, o mito de Aracne talvez fosse lido como uma lição sobre os perigos do orgulho e de desafiar os deuses; no humanismo espanhol do século XVII, ele pôde ser lido como um atestado da capacidade artística humana. O verdadeiro interesse de Velázquez ao pintar o quadro é inatingível para nós hoje, mas o estudo de como ele foi recebido e interpretado através dos séculos e os motivos pelos quais determinadas interpretações ganham força em diferentes momentos trazem grandes contribuições para a historiografia.

Referências:
ANDRADE, José Manuel Pita. “Realismo, Mitos y Símbolos em ‘Las Hilanderas’”. In: Cuadernos de Arte de la Universdad de Granada, n. 23, 1992, pp. 245-259.
OBRA comentada: Las hilanderas o la fábula de Aracne, Diego Velázquez. Museo Nacional del Prado, 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=9kAAdkbh6Nw&gt; . Acesso em: 20. out. 2019.
OTROS ojos para ver el Prado: Las Hilanderas, de Velázquez. Museo Nacional del Prado, 2012. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=cJsBWaQIpWc&gt;. Acesso em: 20. out. 2019.

  • Letícia Schevisbisky de Souza