Pompeia Ressurge nas Telas: O Templo de Ísis no Cinema Mudo

Olá, pessoal! Esperamos que todos estejam bem!

Hoje iniciamos as publicações sobre Cinema e Recepção, por meio de uma produção do Cinema Mudo italiano – Os Últimos Dias de Pompeia, de Ambrosio (1913).

Cena do filme Os Últimos Dias de Pompeia, de Ambrosio (1913). Imagem: Divulgação

Integrando o início do século XX, o filme se compõe em meio ao desenvolvimento das primeiras produções cinematográficas italianas, as quais tinham uma origem centrada em três grandes cidades: Roma, Turin e Milão. Seguindo o advento do desenvolvimento tecnológico internacional, seus primeiros produtores, como Arturo Ambrosio, muito prontamente alcançaram grande sucesso. Em tais obras de êxito mundial, tornou-se notável a presença de uma associação entre o passado romano e o presente italiano, pautando, como já vimos na publicação anterior, uma consciência histórica própria sobre a Antiguidade. Entretanto, devemos considerar que esta atenção ao mundo antigo era, também, parte das estratégias de divulgação desses filmes no mercado estrangeiro, segundo informa Bertellini (2017). Desse modo, as produções históricas sobre o mundo romano aliavam “ímpetos patrióticos, um gosto antiquário, e um sensacionalismo cultivado”, fazendo dos “épicos históricos os mais ambiciosos filmes produzidos pelas companhias cinematográficas de Roma e do norte italiano” (BERTELIINI, 2017, p. 35) – e, de igual modo, se configuravam enquanto o gênero característico do cinema da Itália. 

Logo, é nesse cenário que Arturo Ambrosio dirige e produz, através da Società Anonima Ambrosio, Os Últimos Dias de Pompeia, ou Gli Ultimi giorni di Pompei, no original. A obra, de 1913, como informa o documento oferecido pela Cinemateca Brasileira (2011), foi também exibida no Brasil nessa mesma época. Delineando uma breve sinopse de seu enredo, ressaltamos o drama amoroso vivido por Nídia, escrava apaixonada por ser senhor, Glauco. Ele, por sua vez, se envolve amorosamente com Jone, alvo dos olhares apaixonados de Arbace, um sacerdote de Ísis. Não podemos esquecer, ainda, do destaque conferido à erupção do Vesúvio, especialmente detalhado em suas cenas finais. Em meio à narrativa, observamos, então, sua inspiração no romance homônimo de Lytton, escrito ainda ao século XVIII e adaptado pelo roteirista Mario Caserini. 

Em ambas as produções, podemos evidenciar, por conseguinte, uma grande ênfase conferida ao culto isíaco. Seguindo os princípios do livro, analisados por Recio (2011), o filme constrói uma vinculação entre o templo isíaco e a idolatria, a maldade e a corrupção oriental, expressa notadamente na figura do sacerdote Arbace. Podemos ver, com mais detalhes, tais representações em duas cenas específicas, nas quais a materialidade da cidade de Pompeia realça tais qualificações junto à sua face mística. A primeira delas, Nelle grinfie del falco. Il templo del destino (Nas garras do falcão. O templo do destino, em tradução livre), centra-se nas falsas revelações feitas pelo sacerdote egípcio à Jone. Nela, temos um enquadramento centrado no espaço do templo, contendo uma estátua egípcia feminina de grande dimensão e inúmeras colunas postas em perspectiva, elementos que dividem a cena com as imagens das infidelidades de Glauco. Enquanto a segunda, I segreti di Iside (Os segredos de Ísis, em tradução livre), é mais emblemática: colocando em plano central uma estátua de Ísis (similar a que se  encontra no Museu di Napoli), mostra seus adeptos durante o culto, envoltos em uma aura mística. Este misticismo é reforçado, ainda, com a presença de dançarinas, cujos figurinos recordam, de igual modo, os afrescos preservados do Templo de Ísis. 

Sendo assim, notamos, nessas caracterizações do filme de Ambrosio, a construção de um ideal sobre o passado romano e sobre o desastre de Pompeia. Em meio a esse processo, a formação de uma percepção sobre o culto isíaco e sobre o mundo oriental aparece com grande relevância. Por meio dela, averiguamos a formação de uma relação própria com a materialidade da cidade romana, assim como com a obra literária de Lytton. Desse modo, Antiguidade e atualidade se articulam por meio do cinema, elaborando uma noção própria sobre a identidade dos cultos isíacos. 

Para os que desejarem, indicamos que a produção de Ambrosio pode ser assistida na íntegra através deste link: https://pt.esc.wiki/wiki/Gli_Ultimi_giorni_di_Pompeii. Bom filme!

Bibliografia consultada:

BERTELLINI, Giorgio. Silent Italian Cinema: A new medium for old geographies. In: BURKE, F. (Ed.). A Companion to Italian Cinema. Nova Jersey: John William & Sons, 2017. p. 31-47.

BRASIL. Ministério da Cultura. Secretaria do Audiovisual. Cinemateca Brasileira. JORNADA BRASILEIRA DE CINEMA SILENCIOSO, V, 2011, São Paulo.    

RECIO, M. R. El templo de Isis en Pompeya: Los restos que han nutrido un mito.  ARYS, v. 9, p. 229-246, 2011.

  • Heloisa Motelewski