Retrospectiva Antiga e Conexões 2022

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

Olá, pessoal! Esperamos que este post os encontre bem!

É por ele que vamos, hoje, nos despedir do ano de 2022 e anunciar nossa ausência até o próximo ano. Para isso, gostaríamos de fazer uma breve retrospectiva de alguns momentos que marcaram esse período para o grupo e compartilhá-la com vocês. Afinal, vocês são fundamentais para que continuemos com esse ânimo em divulgar os estudos sobre Recepção e História Antiga!

Primeiro, gostaríamos de agradecer a todas e todos que se envolveram em nossa pesquisa temática, que esse ano se dedicou aos estudos sobre Recepção e Moda. Dando origem aos textos publicados aqui em nosso blog, pudemos também contar com a incrível parceria com o grupo de estudos sobre História da Moda da UFJF (@historiadamoda.ufjf), orientado pela Professora Doutora Maria Claudia Bonadio. Por fim, reunimos nossas produções escritas em um material final, uma coletânea que reuniu também imagens para podermos continuar refletindo sobre os impactos das imagens do passado na moda da atualidade!

Além disso, tivemos a alegria de receber professoras e professores em falas incríveis ao longo dos últimos semestres, as quais foram transmitidas por meio de nosso canal no Youtube! Entre nossos eventos, conseguimos a oportunidade de realizar a primeira edição do Percurso Antiga e Conexões, com o qual percorremos as ruas da cidade de Curitiba em busca dos sinais de recepção de gregos e romanos na modernidade paranaense por novas reflexões e discussões.

Por fim (e não menos importante), ficamos honrados em poder concretizar a parceria com a Professora Doutora Jane Kelly de Oliveira (UEPG), compartilhando as análises de seus estudantes acerca da “Recepção da Literatura Greco-Romana no Cinema“! Nessa mesma página de parcerias, reunimos também os materiais elaborados por alunas e alunos na disciplina de Laboratório de Ensino e Pesquisa em História Antiga II (DEHIS/UFPR), voltados para a presença de questões pompeianas e neopompeianas na atualidade.

Agradecemos a todas e todos os colegas, às professoras parceiras e a nossas e nossos leitores por este incrível ano juntos! Esperamos que possamos seguir com essa relação maravilhosa nos meses que se seguem, e que possamos compartilhar mais discussões sobre o mundo antigo e suas conexões com o presente!

Boas festas, bom descanso e até 2023!

Coletânea Antiga e Conexões – Recepção e Moda

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Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

É com muita alegria que anunciamos a publicação do mais novo material Antiga e Conexões! Como encerramento das atividades desse ano, estamos divulgando a criação de nosso catálogo sobre Recepção e Moda. Ao reunir os textos publicados no blog, acrescentamos mais imagens às discussões de modo a atribuir maior visualidade à discussão proposta pelo grupo.

Esperamos que essa coletânea seja usufruída por vocês, aplicando em sala de aula, estudos ou na lista de leituras! Agradecemos imensamente o apoio de nossas e nossos leitores, bem como da professora Maria Claudia Bonadio (UFJF) – que coordena o grupo de estudos de história da moda dessa mesma instituição. Vocês foram fundamentais para a realização dos debates que deram a base dessa publicação.

Desejamos uma boa leitura, e até o próximo post!

Link para download do material: https://drive.google.com/file/d/1ugoZ49W8cntEnVr62zFVKcPTV36eX7K9/view?usp=sharing

Antiga e Conexões pelo Brasil: Apresentações Nacionais

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexões.

Olá pessoal! Esperamos que estejam bem!

Na publicação de hoje damos continuidade aos relatos sobre nossas participações em eventos. Agora com apresentações e publicações de nossos integrantes em escala nacional, compartilhamos com vocês alguns dos nossos temas de pesquisa e reforçamos nosso convite para que nos acompanhem em próximos eventos. Trazemos, aqui, breves resumos desses trabalhos, de autoria de Heloisa Motelewski e de Guilherme Bohn dos Santos.

Esperamos que apreciem as temáticas, e agradecemos por nos acompanhar!

Orientalismo à romanidade? A criação da vilania antigo-oriental na modernidade em ‘Os Últimos Dias de Pompeia’, de Ambrosio (1913) – Heloisa Motelewski

XIX ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: usos do passado, ética e negacionismos (ANPUH/SC) – agosto 2022.

Inspirada em um dos temas levantados por minha pesquisa de Iniciação Científica, essa apresentação versou sobre a formação de imagens orientais junto ao passado romano. Mobilizando um discurso moderno cinematográfico, pensei em como o personagem Arbaces era exibido como exemplo de vilão oriental, criando um estereótipo sobre o Oriente desde características como a corrupção, a degeneração e a degradação. 

Apresentação:

Link para acessar a página do Simpósio Temático: Link da página do Simpósio Temático: https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/atividade/view?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNjoiYToxOntzOjEyOiJJRF9BVElWSURBREUiO3M6MzoiMTczIjt9IjtzOjE6ImgiO3M6MzI6ImRlZDVhMzllNjNkZGM1NDAxYjk3OWMzNDFiYTI4NTA5Ijt9&ID_ATIVIDADE=173

A Mística Egípcia, a Natureza e o Olhar Orientalizante: a mirada contemporânea sobre o passado romano dos cultos orientais sob a produção de Ambrosio (1913) – Heloisa Motelewski

6º SIMPÓSIO ELETRÔNICO DE HISTÓRIA ORIENTAL: mesa novas mídias e oriente – outubro 2022.

Um dos outros temas que apareceram junto aos problemas levantados pela minha pesquisa de Iniciação Científica, essa comunicação (apresentada de forma totalmente escrita) buscou analisar como os ideais de Natureza são acompanhados de um misticismo qualificado como oriental no filme estudado. Assim, parti do destaque conferido ao culto ilíaco a partir de uma investigação sobre a elaboração dos aspectos visuais da produção de Ambrosio. 

Link para acessar a comunicação escrita: https://simporiente2022mesas.blogspot.com/2022/09/a-mistica-egipcia-natureza-e-o-olhar.html

Link para acessar o livro publicado: https://drive.google.com/file/d/15fhwMuEBPWd2HRLzdQC-R3xcIs142kFN/view

As muitas identidades da vida pós-clássica do mundo antigo na obra de Borges pela figura de Homero – Guilherme Bohn dos Santos

XIX ENCONTRO ESTADUAL DE HISTÓRIA: usos do passado, ética e negacionismos (ANPUH/SC) – agosto 2022.

Pensando a finalização de um ano de iniciação científica, nessa apresentação busquei expor um apanhado geral das temáticas e abordagens que se desenvolveram no relativo período de trabalho.

Dessa forma, expus como o escritor argentino Jorge Luis Borges nos proporciona uma recepção do passado greco-romano que advoga por uma infinitude de interpretações ao olhar para os clássicos. Usando Homero como figura central de alguns contos, o escritor elaborou obras que importam aos próprios estudos da história antiga para pensar as transformações que a antiguidade passa até nossos dias, para isso, utilizou-se das temáticas da memória e das subjetividades. 

Link da apresentação: 

https://www.canva.com/design/DAFJsvkxZto/IZH2nnbJ3SdJFcjydO6Mlw/view?utm_content=DAFJsvkxZto&utm_campaign=designshare&utm_medium=link&utm_source=publishsharelink

Link da página do Simpósio Temático:

https://www.encontro2022.sc.anpuh.org/atividade/view?q=YToyOntzOjY6InBhcmFtcyI7czozNjoiYToxOntzOjEyOiJJRF9BVElWSURBREUiO3M6MzoiMTczIjt9IjtzOjE6ImgiO3M6MzI6ImRlZDVhMzllNjNkZGM1NDAxYjk3OWMzNDFiYTI4NTA5Ijt9&ID_ATIVIDADE=173

  • Heloisa Motelewski
  • Guilherme Bohn dos Santos

Moda, Mito e Masculinidade: Percursos sobre Medeia, de Pier Paolo Pasolini

Imagem de divulgação. Instagram: @antigaeconexoes.

No final da década de 1960 Pier Paolo Pasolini, artista italiano conhecido por seu cinema, teatro, poesia, apresenta ao mundo uma trilogia de filmes baseados nos mitos gregos: Édipo rei, Medeia e Notas para uma Oréstia Africana. No filme aqui analisado, Medeia (1970), as roupas e figurinos têm um papel importante tanto na caracterização dos personagens e ambientes quanto na narrativa: as antigas roupas de Medeia são o presente enfeitiçado que ela oferece à filha do rei como parte de seu plano de vingança contra Jasão, por exemplo.

Apesar de se basear no mito grego, os figurinos e ambientes do filme não se encaixam perfeitamente no que consideraríamos hoje como a estética “clássica”. Ao falar sobre Édipo rei, Campos (2004) diz: “o figurino não é nem um pouco de época: Pasolini quis misturar, principalmente, a cultura africana ancestral, a antiguidade sumeriana e a tradição asteca, tudo dentro de um cenário marroquino, com som de cantos romenos, árabes e japoneses.” Em Medeia é possível perceber semelhante mistura de estéticas que afastam o mito da ideia de “clássico grego”, à qual Pasolini se sobrepõe. A ideia de “clássico”, analisada por Salvatore Settis, define-se historicamente, a partir de alterações estéticas na percepção dos antigos no final do século XVIII e início do XIX. O chamado estilo Neoclássico cria imagens idealizadas, estabelecendo os gregos do século V AEC e sua cultural material como um modelo (SETTIS, 2006). É justamente esse ideal grego que tenta se sobrepor a outras manifestações culturais que Pier Pasolini combate, trazendo elementos multiculturais nas suas produções.

A motivação de Pasolini para a inclusão de tais elementos no figurino do filme é tanto estética como ligadas à sua posição política. Admirador de Marx (e, sobretudo, de Gramsci), o cineasta demonstra, por meio do uso dessas diferentes vestimentas, seu amor pelo povo “bárbaro, terceiro-mundista, favelado, proletário” (CAMPOS, 2004).

As vestimentas servem, neste sentido, para reforçar as ideias que Pasolini discute em seu filme, sua interpretação particular do cineasta do mito. Segundo Fresneda, o filme aprofunda o confronto entre culturas religiosas e seculares e trabalha com os dualismos entre o sagrado, a natureza, o arcaico, representados por Medeia, e o profano, a civilização, o moderno, encarnados em Jasão. Portanto, o figurino que Medeia usa é relevante para construir visualmente estas simbologias:  quando foge de sua terra sua roupa expressa sua relação com o sagrado, o mítico; já na cena em uma cidade estrangeira, troca suas antigas roupas e recebe vestimentas desse novo lugar indicador a ruptura da personagem com seu passado mítico, o qual ela voltará a abraçar no fim do filme.  

Roupa de Medeia sendo trocada. Nessa cena, a personagem é despida de suas joias e amuletos para vestir as roupas locais. (MEDEIA, 1970)

Destacar a centralidade do figurino é importante para pensar que a construção estética do cinema de Pasolini não se restringiu apenas às telas. De acordo com Paola Colaiacomo, o cineasta foi um dos responsáveis por ajudar a repensar a vestimenta e a masculinidade italiana dos anos 1960-1970 (COLAICOMO, 2015). Ao tomar conceitos da antropologia, a pesquisadora reflete sobre a relação entre teorias da literatura e a moda, campo geralmente enquadrado fora da crítica literária. Dessa maneira, é possível entender que a moda reflete no cinema e vice-versa. Então, no caso de Pasolini, a pesquisadora busca por traçar essa relação destacando os diversos impactos do cinema italiano na construção da moda.                                                                                                                  

Nesse viés, destaca-se que na reconstrução do pós-Guerra, famílias de classes trabalhadoras, ao retornarem a Roma, foram rechaçadas de ocuparem as suas antigas casas, de modo que essas pessoas ocupam periferias em assentamentos miseráveis. Pasolini, confrontado com essa realidade, busca expressar em sua narrativa fílmica uma “outra Roma”, não a da “Hollywood no Tibre”, mas uma “Roma Yankee” (COLAICOMO, 2015, p.272). Nesse intento, o artista italiano trabalha com adaptação de vestimentas como as “T-shirts” vindas dos Estados Unidos, tipo de roupa a qual os únicos autorizados a portar eram adolescentes e pessoas marginalizadas. Disto, Pasolini constrói a figura dos ragazzi

Em Medeia pode-se notar essa indumentária adaptada para muitos personagens, sobretudo de extração baixa, mas também são esses estilos portados por Quiron, o centauro, em sua transformação ao longo do filme, o que pode ser entendido como a oposição traçada entre o sagrado e profano, uma vez que o estilo de ragazzi, na ótica social da Itália dos anos 1970 não havia nada de sagrada, sendo atribuída muito mais a um domínio sexual.                                                   

        

Quiron. Cena em que mostra o personagem tanto como centauro como totalmente humano. Nela destaca-se a indumentária do Quiron humano, em que as clavículas e parte do peito estão descobertos e a roupa permite distinguir os traçados do corpo. (MEDEIA, 1970)

Paola Colaicomo argumenta existir uma linha de desenvolvimento que liga os ragazzi de Pasolini a atual moda midiática (2015). E o elemento central disso é a representação dos corpos masculinos. Claramente o cineasta não tinha a percepção de que a moda seria uma força que moldasse a identidade, como hoje se pensa, no entanto não deixa de ser destacável que sua produção fílmica estivesse, como se tenta aqui apresentar, ao esboçar críticas às condições sociais de sua época e pensar questões como o mito, o sagrado, o profano e a sexualidade, de alguma forma imbrincada num processo de construção estética do corpo masculino. Como cita a autora, o próprio jogo de câmeras caía, inclusive em Medeia, num jogo “transgressivo” (COLAICOMO, 2015, p. 282). E assim ocorre, pois a mídia das décadas seguintes faz-se de modelos do tipo ragazzi, com a clara valorização da masculinidade, traços que mostram os braços e/ou as clavículas, por exemplo.                                       

Desse modo, Medeia e a produção fílmica de Pier Pasolini são excelentes casos como, nas décadas de 1960-1970 a recepção dos “clássicos” na moda (em especial dos figurinos inspirados nos gregos) perpassa críticas socias e o cinema.

Referências

CAMPOS, Vanessa Patrícia Monteiro. DECIFRA-ME QUE NÃO TE DEVORO – Mitos, ritos e símbolos no cinema de poesia de Pasolini. In: SIMPÓSIO DE PESQUISA EM COMUNICAÇÃO DA REGIÃO SUDESTE, 10, 2004, Rio de Janeiro.

COLAICOMO, Paola. Pier Paola Pasolini and the construction of masculinity in Italian fashion. Internacional Journal of Fashion Studies, v. 2, n. 2, p. 267- 285, 2015.   

FRESNEDA DELGADO, Iratxe. Medea de Pier Paolo Pasolini. Ars bilduma, n. 4, p. 149-157, 2014.

MEDEIA. Direção: Pier Paolo Pasolini. Roma: San Marco S.p.A., 1969. 1 filme (118 min), sonoro, legenda, color. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=uZYy493Hrd8&gt;. Acesso em: 19 mai. 2022.

SETTIS, Salvatore. The Future of the ‘Classical’. 1ª Ed. Polity Press, 2006.

  • Eduardo Zolet Santos
  • Camila Iwahata

Representações da Antiguidade por Mariano Fortuny através da Moda

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Olá, pessoal! No presente texto, vamos explorar a moda no século XX, através dos modelos de vestimentas criados por Mariano Fortuny, trajes que tiveram uma forte inspiração na antiguidade greco-romana. Mas não iremos pensar nessa retomada de Fortuny da antiguidade como algo deslocado, aqui iremos traçar reflexões que perpassam as vestimenta, temporalidade e corporeidade de forma que possamos articular o passado antigo com o século XX também com o presente, questionando o que entendemos por “Clássico”.

As roupas, como já exploramos nos textos anteriores, não são objetos superficiais, mas podem dizer muito sobre nós, nossos contextos, culturas e aspectos sociais relativos a gênero, classe social e entre outros. Tendo isso em mente vamos retomar como as vestimentas costumavam ser no século XIX. A pesquisadora Valéria Brandini, pode nos ajudar a entender as vestimentas nesse período. Ela aponta que com ascensão da industrialização na Inglaterra o corpo humano, (principalmente dos individúos do sexo masculino), passou a ser visto como uma extensão do trabalho; juntou-se a isso a condenação da homossexualidade, fazendo com que a extravagancia nos trajes masculinos, que antes era vista como um sinal de poder de indivíduos aristocráticos, passasse a ser vista como um elemento dos trajes femininos. Mas, mesmo nesse âmbito os trajes mais simples eram vistos como um alinhamento entre quem o utilizava com a retitude moral, o copo passa a ser escondido e despersonalizado. As roupas passam a ser vistas, na esfera pública como um aspecto de demonstração de subjetividade, do “eu”, as vestimentas tornam-se signos que revelam aspectos psicológicos dos indivíduos e não mais como um marcador de tradição.

Já no final do século XIX, a roupa feminina passa da simplicidade ascètica e começa a ganhar alguns traços de extravagância como forma de distinção na esfera pública, isso devido as revistas femininas e da atuação das mulheres, que passaram a participar de forma mais intensa na vida pública. Como já havíamos exposto nos textos anteriores, no século XVII e XVIII houveram muitos interesses de recuperação do passado greco-romano nos estilos, na arte e na vida social. Emma Hart, utilizou-se de elementos da antiguidade em seus trajes, tornando o passado em algo vivo em suas performances. As mulheres do século XX não fizeram diferente, principalmente aquelas que se encontravam nas esferas da arte e da dança, elas entendiam que a performance, era uma forma de comunicação que poderia expressar a alma através do corpo.

Mariano Fortuny, nascido na Espanha em 1871, foi um designer de moda que teve uma atuação intensa nos meios culturais europeus. As vestimentas criadas por ele tiveram inspirações principalmente nas formas das esculturas gregas e nas artes bizantinas, como os mosaicos, essa junção permitiu a ele criar um novo conceito de “clássico”. As inspirações de Fortuny na história, são devidas ao pai, que foi um colecionador de arte e artefatos históricos. Mariano cresceu e moldou seu imaginário da antiguidade, nesse meio, ele acreditava que as artes antigas não precisavam estar aprisionadas no passado, mas sim podiam ser repensadas e reutilizadas no presente.

A arte esteve na vida de Fortuny em muitos meios, na fotografia, na escultura, no teatro e na moda. Ele começou a criação de roupas a partir de sua atuação no teatro, ele tinha inspiração nas luzes e nos movimentos do palco, não produzia roupas por demanda de mercado, mas sim pensando no corpo como forma de expressão. A união entre as referências de estátuas gregas (como forma de representar e dar liberdade ao corpo) mais as cores e as representações dos mosaicos bizantinos (como figurativo da alma), agradou nomes do cenário artístico como a dançarina Isadora Duncan e a atriz Eleonora Duse.

Fortuny, em meio a debates teóricos sobre o “Clássico”, entre aqueles que entendiam o passado grego como detentor de uma superioridade, e aqueles mais conciliatórios que buscavam uma memória compartilhada das artes, em diversas culturas, como gregas e bizantinas. Conseguiu romper com essa definição, criando sua própria interpretação do clássico, como algo que diz muito mais a respeito do presente do que do passado.

Referências

BIBLIOGRAFIA:

BRANDINI, Valéria. Moda, cultura de consumo e modernidade no século XIX. Signos do Consumo, v. 1, n. 1, p. 74-100, 2009.

MILLER, Daniel. Trecos, troços e coisas: estudos antropológicos sobre a cultura material. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2013.

SCHWARZ, Caitlin Mackenzie. Body and Soul: How Mariano Fortuny Redefined the” Classical”. 2019. Tese de Doutorado. University of California, Davis.

  • Renata Cristina S. de Oliveira

Parceria – Recepção da Literatura Greco-Romana no Cinema

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Olá, pessoal! Esperamos que estejam bem!

A partir desse mês, retornaremos nossas atividades para o ano de 2022. E, em nossa primeira postagem, gostaríamos de anunciar a publicação dos materiais que resultaram da parceria que formamos com a Professora Doutora Jane Kelly de Oliveira!

Como parte de um projeto desenvolvido pelos cursos de Letras da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), trazemos aqui em nosso blog as análises desenvolvidas por estudantes acerca da presença de elementos literários greco-romanos em diversas produções cinematográficas. São onze textos dedicados a variadas temáticas, os quais poderão ser acessados pelos links colocados ao final deste post.

Agradecemos imensamente à colaboração oportunizada, e esperamos que ela continue sendo muito frutífera a todas e todos!

Agora, com vocês, as palavras de nossos parceiros e parceiras:

“Com alegria, agradecemos à Renata Senna Garraffoni e aos demais integrantes do projeto ‘História antiga e conexões com o presente’ pela acolhida do projeto ‘Recepção da literatura clássica greco-romana no cinema’.

O nosso projeto é um dos vinculados a disciplinas articuladoras que promovem a relação entre ensino, pesquisa e extensão. Os e as estudantes dos últimos anos dos cursos de Letras Português-Espanhol, Português-Francês e Português-Inglês da UEPG engajam-se no projeto por um período de 68 horas distribuídas entre estudo teórico, produção de material e divulgação via extensão digital de resenhas. A escolha pelo meio digital deu-se graças às restrições da pandemia de Covid-19, mas, normalmente, o projeto destina-se à aplicação em ambientes de ensino.

No projeto que propusemos, visamos uma difusão sobre a recepção dos clássicos greco-romanos no cinema de forma a despertar o interesse por identificar, no filme, a reutilização temática ou formal de recursos narrativos e imagéticos para a produção de novos sentidos. O projeto é um convite à reflexão sobre a recepção dos clássicos greco-romanos no cinema e sobre a capacidade artística de desvelar significados propiciando novas leituras da antiguidade.

Eu, Jane Kelly de Oliveira sou a coordenadora e o projeto é integrado por Alexandre Henrique de Jezus, Evandro Hurko, Kaline Guse, Karen Silvestre Luz, Karen Tuburcio Martins, Mariana de Bona Santos, Pedro Henrique Hara Matoso, Rodolpho Scremin Gorchiski, Rodrigo Paes, Rosana Divina Furtado, Tiago Rodrigues Fernandes, Yassmin Larisse Beck.

Convidamos leitores e leitoras das resenhas a debaterem conosco via redes sociais.”

Ensaios “Recepção da literatura clássica greco-romana no cinema”

I – O estranho em “O sacrifício do cervo sagrado” e suas relações com a tragédia de Efigênia, de Pedro Henrique Hara Matoso e Rosana Divina Furtado. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1tXsfNqjAcwOKSr4jEW0hr1Z_YZxcQv4p/view?usp=sharing

II – Estrutura trágica em Lavoura Arcaica, de Mariana de Bona Santos. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1nKk8pYlfy-k3j26G9OY_Or14PDRLN-tm/view?usp=sharing

III – Cyberchorus, ou o coro trágico como mídia digital em Antígona – A resistência está no sangue, de Sophie Deraspe, de Evandro Hurko e Karen Tiburcio Martins. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1AValX-GIxYmFx_wFccStZWKf0dgqCaZ-/view?usp=sharing

IV – Moralização e cristianização do mito de Hércules: Disney e a defesa do modelo padrão de família, de Tiago Rodrigues Fernandes. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1KzTQVG5pZS9tqLebY4pYYwKbuqksZd-g/view?usp=sharing

V – Se o sexo não é a resposta, provavelmente a sua pergunta está errada, de Kaline Guse. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1fdiMIKX2VyGJ1M9oP9e8g112lxAPgXYx/view?usp=sharing

VI – A dicotomia entre sagrado e profano no filme “O sacrifício do cervo sagrado” e sua relação com o mito grego Ifigênia, de Rodolpho Scremin Gorchiski. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1KKXEI2FmpkSF4REhozAGzacs-TH3e-QB/view?usp=sharing

VII – Fechar a caixa de Pandora ou deixá-la aberta?, de Yassmin Larisse Beck. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/19jb2-yxVrb2Gv-Z_pXrf6WS6RePJJZcr/view?usp=sharing

VIII – A tragédia do saber-se a si mesmo em “Incêndios”, de Villeneuve (2010), de Jane Kelly de Oliveira e Pedro Henrique Hara Matoso. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1pdPdwURywsaU-zM8Ba6Z9Rrlmh6RqCJG/view?usp=sharing

IX – O mito de Orfeu e Eurídice nas Metamorfoses, de Ovídio, e Orfeu (1999), de Cacá Diegues: Paralelos históricos nas formas de representação do (des)comedimento, de Wallacie A. do Prado Pavoski. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1ioUQyIFMXRSMrJYD4xkwtRcEDrDk8OXk/view?usp=sharing

X – Demonização de Hades em Hércules, 1997, de Rodrigo Paes. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1810B9Dn150z4zlubUic-fpvPU2NfPshQ/view?usp=sharing

XI – The Matrix e a alegoria da caverna, de Alexandre Henrique de Jezus. Link para acesso: https://drive.google.com/file/d/1E3hHTiV3FMGhsJdN09hdaN-6n-aQi_V1/view?usp=sharing

Roma Antiga a partir do Heavy Metal

O Heavy Metal surgiu na década de 1970 e consolidou-se na década de 1980, tornando-se rapidamente um fenômeno mundial. O som rápido e pesado das guitarras conquistou seu espaço principalmente entre os jovens, que identificavam-se com a sonoridade, a estética ligada ao estilo e também às letras das músicas. Um dos temas recorrentes nestas letras é a Antiguidade Clássica: de Alexander, the Great, lançada em 1986 pelos britânicos do Iron Maiden até Caligula, lançada em 2016 pela banda alemã Sodom, podemos identificar várias bandas, de diferentes vertentes dentro do Metal, que escolhem a Antiguidade Clássica como algo relevante para tratar dentro de suas músicas e álbuns.

Assim sendo, o que a utilização do passado clássico nos diz sobre o Heavy Metal enquanto gênero musical e os Estudos Clássicos? Considero necessário, de início, retomar a origem histórica do Heavy Metal – aqui, menos na concepção de qual banda realmente criou o Heavy Metal, e mais em sua estética e em sua formação enquanto uma subcultura. Um dos pontos principais do Heavy Metal é sua crítica a um modelo de sociedade pautado em valores cristãos. A associação com o ocultismo gerou, inclusive, certo pânico moral sobre o estilo e suas vertentes, especialmente a partir de sua popularização na década de 1980 – os fãs de metal eram vistos de maneira negativa, considerados rebeldes que cultuavam Satã e estavam prontos a cometer qualquer tipo de crime em busca de prazeres terrenos.

Além destas questões, o Heavy Metal surge como um estilo produzido por homens brancos de classe média baixa – o Black Sabbath, considerada por muitos como uma das bandas definidoras do gênero, surge na cidade operária de Birmingham. A potência sonora e lírica pode ser entendida também como uma forma de constituição de uma masculinidade específica que é, em certa medida, subversiva, mas que também se utiliza de diferentes elementos para reforçar aspectos específicos da masculinidade, como a força, a honra e a violência. Estes dois aspectos convergem, em alguma medida, nas leituras realizadas pelas bandas sobre Roma Antiga.

Em uma análise inicial a partir da plataforma Metal Archives, 65 bandas atendem ao critério de tratar especificamente sobre a Antiguidade Clássica. Destas, cerca de 50% lançaram álbuns nos últimos anos, o que demonstra a relevância da temática e sua popularização, principalmente a partir da internet. Três eixos principais foram observados na pesquisa no que diz respeito à utilização da temática sobre Roma Antiga: a retomada da mitologia antiga e do anti-cristianismo; a ênfase nas questões políticas; o uso do latim. Estas leituras são, na maioria das vezes, mediadas principalmente pelo cinema.  Nesse sentido, o que é compreendido como relevante na Antiguidade Clássica passa primeiramente por uma seleção cinematográfica que populariza algo e apresenta para o grande público, e posteriormente é readaptado dentro do Heavy Metal.

Isso fica evidente no número elevado de músicas referentes a Spartacus e Caligula – cerca de 100 entre todas as bandas da plataforma –, personagens eternizados no cinema e dotados de características relevantes para a estética do Heavy Metal: o imperador romano pela violência, por seu autoritarismo e pela suposta libertinagem durante seu governo; Spartacus, por sua vez, tem espaço garantido também por sua violência, mas pela honra de seus atos e por sua insurgência contra um grupo de privilegiados. Algumas menções são feitas a Júlio César, entendido também como um homem de poder que se volta contra os privilegiados – o Senado. O álbum da banda italiana Ade, Rise of the Empire, lançado em 2019, ressalta a constituição do Império Romano e salienta a imagem de César como aquele que arquitetou o Império, sendo considerado inclusive seu primeiro imperador na letra de uma das músicas.

A crítica ao cristianismo, ou aos valores cristãos considerados comuns na sociedade contemporânea, é observada em bandas de estilos mais extremos, como o Black Metal e o Death Metal, que colocam como ponto positivo tanto a existência de um mundo pagão pré-cristão como a própria perseguição aos cristãos. A banda canadense Ex Deo, em seu álbum Caligvla, de 2012, cita a ascensão do cristianismo como algo negativo ao Império:

Plague… the Christian plague                                          Peste… a peste cristã

Invades the empire and threatens the sun           Invade o Império e ameaça o sol

Insults to the pagan gods                                      Insultos aos deuses pagãos
Ex Deo – Burned to Serve as Nocturnal Light

A partir desta análise inicial, os dois aspectos aqui analisados são convergentes: a masculinidade buscada pelo estilo musical é baseada em ideais reforçados pelas leituras da Roma Antiga. Violência, honra, poder e força são algumas destas características, que estão ligadas a uma rejeição do cristianismo e de alguns de seus preceitos, considerados negativos diante do passado pagão romano – este sim, algo que deve ser retomado.

A utilização da Roma Antiga se dá como forma de reforçar temáticas caras ao próprio Heavy Metal, como uma concepção específica de masculinidade e a crítica ao cristianismo. Esta recepção do passado, mediada por outras mídias e complexa em sua atribuição (visual pela capa dos álbuns, textual pelas letras e musical pela sonoridade) cria também novos significados sobre esta Roma do passado, que serão apreendidos de diferentes formas pelos fãs da música. Neste complexo jogo de sentidos, leituras e significados, é possível observar a centralidade do passado romano como algo positivo que precisa ser rememorado e, até certo ponto, celebrado.  Entretanto, é certo que, para estas leituras de Roma, há pouco a se falar dos trabalhadores, das mulheres, dos escravizados e de vários outros grupos: a narrativa de grandes homens e grandes feitos é algo comum. Isto pode significar, também, um sintoma específico da própria constituição da masculinidade de grupos jovens no século XXI e da busca por semelhanças de um passado considerado ideal.

Para acompanhar todas estas discussões, compilei uma playlist com bandas de Metal que fazem algum tipo de referência ao mundo antigo. Espero que gostem!

Referências:

BAYER, Gerd (Ed.). Heavy metal music in Britain. Ashgate Publishing, Ltd., 2009.

FLETCHER, Kristopher F. B.; OSMAN, Umurhan. (Eds.). Classical Antiquity in Heavy Metal Music. London, New York: Bloomsbury Academic, 2019.

FLETCHER, Kristopher. Nationalism and the Reception of Greco-Roman-Antiquity in Heavy Metal. 2018.

– Ingrid Cristini Kroich Frandji

Prometeu Negro: A recepção do mito clássico no rap

Imagem de divulgação do Instagram @antigaeconexoes

O rap (ritmo e poesia), em linhas gerais, é a expressão musical do movimento Hip-Hop, uma cultura essencialmente negra e periférica desde sua origem, surgida nos guetos dos Estados Unidos e com influência jamaicana e africana. No Brasil, não foi diferente. Aqui, o rap ganhou notoriedade com o fenômeno dos Racionais Mc’s, verdadeiros cronistas da época que traziam em suas punchlines¹ o cotidiano da periferia, sobretudo a realidade do crime e da violência policial.  Desde então, em meio a efervescência de nomes e produções surgidos na música rap, temos Beni KTT, rapper carioca, produtor e fundador da Produtora Audiovisual Máfia da Caneta.

A recepção da Antiguidade Clássica no rap, embora pouco estudada e comentada, não é nova, nem ínfima. É bastante significativo o número de raps que encontram na Antiguidade Clássica Grega ou Romana uma simbologia que reflete questões próprias do humano, sobretudo o repertório mitológico, que é muitas vezes fonte de inspiração para inúmeros rappers, como podemos observar em Pandora (Sant, Tiago Mac, Bukola 2Tey, 2019), no Minotauro de Borges (Baco Exu do Blues, 2019), em Afrodite da Quebrada (Rart MC, 2017), em Medusa (Nectar Gang; Qualy, 2017), em Hades (Xamã, 2017), em Afrodite (Nocivo Shomon, 2016) e, ainda, em Caixa de Pandora (Caos do Suburbio, 2016), apenas para citar alguns. Entre estes tantos exemplos, temos Prometeu,rap de Beni, publicado no álbum Negros (2016), que ganhou videoclipe tempos depois e trata de um dos mitos cosmogônicos greco-romamos mais conhecidos, o mito de Prometeu, registrado pela primeira vez em Hesíodo (Theog., 517-616; Op. et dies, 42-105). Em linhas gerais, o mito de Prometeu conta a história do Titã Prometeu, que entra em conflito com Zeus ao roubar dele o fogo e entregá-lo aos mortais. Por isso, Zeus (ou Júpiter) envia aos homens um mal, podemos dizer, travestido, com o qual eles se alegrarão, a primeira mulher, Pandora. Além de condená-lo a uma tortura eterna no Monte Cáucaso, onde ficou acorrentado tendo seu fígado (ou coração) sendo regenerado e comido todos os dias por uma águia. Em algumas versões, Prometeu é o próprio criador dos homens.

Imagem: Capa do álbum Negros (2016). Créditos: Beni.

Em entrevista generosamente concedida por Beni para essa pesquisa, o rapper afirmou que seu primeiro contato com o mito de Prometeu foi através do jogo eletrônico “God of War”, baseado nas mitologias grega e nórdica. O Prometeu de Beni nos apresenta um novo olhar para o célebre mito com questões que nos levam a perguntar por que Prometeu teria roubado e entregado o fogo aos mortais: por amor, ódio ou loucura? Em seu rap, Beni se apropria desse conhecido personagem mítico e apresenta Prometeu como um herói, um benfeitor. Um outro aspecto bastante relevante no rap de Beni é que o mito de Prometeu é tomado de forma primorosa pelo rapper em analogia à trajetória do povo negro no Brasil e no mundo. O fogo, como representação da inteligência e da sabedoria, que os retira das trevas e da ignorância, como afirmado por Sottomayor (2001), parece ganhar um novo sentido nas mãos de Beni, que faz desse símbolo uma tomada de consciência do povo negro, o que pressupõe que ela outrora não existia. Isto é, os mortais viviam nas trevas, pois não tinham consciência de sua condição miserável frente aos deuses, assim como os negros, até que Prometeu cometendo um ato humanitário entrega-lhes essa força divina, o fogo:

“O roubo do fogo sagrado foi certo na pontaria

Siga, siga, siga, siga

A luta é constante, então siga

Batalha de gigante, então siga

Não perca-se, avante!”

Beni constrói um Prometeu Negro brasileiro? Por quê? O que é recuperado pelo rapper brasileiro ou não do mito clássico em suas várias versões? Essas são algumas questões que pretendemos ainda responder com a pesquisa “A recepção crítica do mito de Prometeu no rap de Beni: reflexões sobre raça e identidade”.

Beni - Prometeu Prod:Beni (Video Clipe Oficial)

Imagem: Divulgação.

Agradecimentos

Ao rapper Beni pela generosa concessão da entrevista, à Professora Renata Senna Garraffoni pelo convite em publicar neste blog,  à Professora Priscila Matsunaga pelas contribuições e pela sua leitura crítica e à minha orientadora querida e sempre presente, Professora Katia Teonia.

Notas

¹ A expressão é utilizada no rap para se referir às “linhas de soco” usadas pelos rappers, ou seja, versos fortes, chamativos, apelativos, para chamar atenção na track.

Referências bibliográficas

SOTTOMAYOR. Ana Paula Q. O Fogo de Prometeu. Hvmanitas, Porto, vol. III, p. 133-140, 2001. p. 138.

PROMETEU. Compositor e intérprete: Beni. In: Negros. Produzido por Máfia da Caneta. [S.l], 2016. Disponível em: Beni – Prometeu Prod:Beni (Video Clipe Oficial) – YouTube. Acesso em: 22 março. 2021. Faixa 2. (3 min)

  • Karoline Lima – Bacharelanda em Letras Português e Latim (UFRJ) 

Orientação: Prof.ª Katia Teonia Costa de Azevedo

Zé ramalho e a adaptação do mito na música “Filhos de Ícaro”

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Dando sequência aos textos sobre música e recepção da antiguidade, hoje traremos a figura do cantor Zé Ramalho e seu uso dos mitos antigos nas canções.

Dos diversos atributos que a mídia confere ao revolucionário cantor e compositor paraibano Zé Ramalho, recebem maior destaque seus aspectos místicos e visionários, que bradam um discurso de resistência a norma e ao “verdadeiro” estabelecidos pela parte dominante da sociedade. Na elaboração de suas canções, o autor mistura sons que vêm do Rock com métricas e melodias próprias do sertão, ao mesmo tempo, cria estruturas que transmitem um sentimento de anunciação aos ouvintes. Em sua identidade poética, o cantor também utiliza de referências a antiguidade clássica em diversas de suas músicas. Se aproveitando principalmente dos mitos gregos, produziu sentidos atuais para os contos lendários a partir da elaboração de alegorias e comparações.

Acentuando sua face visionária de mensagens apocalípticas, anúncios de liberdade e visões de futuro, Zé Ramalho se engaja politicamente mais uma vez ao lançar seu terceiro álbum em 1981, “A Terceira Lâmina”. Como fala Petrônio Fernandes Beltrão, “a profecia agonizante de um devir de liberdade ante a situação social do Brasil na época da ditadura militar”. (BELTRÃO, 2012). Das faixas desse álbum, a canção “Filhos de Ícaro”, que já em seu título traz consigo o mundo antigo, é uma crítica incisiva não somente ao regime, como também à alienação e acomodação da população brasileira diante da situação do período.

No conhecido mito, Ícaro e seu pai, Dédalo, acabaram aprisionados no labirinto que eles mesmo haviam construído na ilha de Creta para recluir o Minotauro. Na tentativa de fuga, os dois elaboraram asas feitas de cera para que pudessem voar para fora das paredes do labirinto. Entretanto, Ícaro, ignorando os conselhos do pai para não voar muito perto do Sol, se aproximou do astro que, com o calor, derreteu suas asas e acabou por matar Ícaro ao derrubá-lo no mar.

Zé Ramalho, na música citada, canta os seguintes versos:

“As alturas merecem todas as asas
Homens de plumas
Antes do sol derreter
As unhas desse meu pássaro”

Em sua crítica ao povo por sua neutralidade em relação a ditadura, Zé Ramalho faz uma alegoria do povo como Ícaro e do regime militar como o Sol. O cantor pede para que “façam coisas pela liberdade” sem se deixarem levar pelos ideais do regime que atraíam parte da população. Caso contrário, assim como Ícaro caiu no mar ao tentar admirar o Sol de perto, os cidadãos poderiam acabar “caindo” no discurso da ditadura se decidissem por aceitá-la de forma neutra.

Se pensarmos os poetas gregos da antiguidade como transmissores de uma memória coletiva através da tradição literária cantada, podemos pensar também no sujeito-cantor Zé Ramalho como um escritor que, transcrevendo o mito antigo para seu mundo atual, performa suas mensagens em nome de causas sociais e atribui novos sentidos a essa esfera da história clássica. Dessa forma, ao adaptar o mito, Zé Ramalho acaba por criar uma releitura da antiguidade em seu cenário contemporâneo.

Link da música

Bibliografia consultada

BELTRÃO, P. F. A Insurgência, o Visionarismo e a Nordestinidade como marcas identitárias do Sujeito-Poeta-Cantor Zé Ramalho. 2012. Dissertação (Mestrado em Letras) – Universidade Federal da Paraíba.

VERNANT, Jean-Pierre, 1914. Mito e religião na Grécia antiga. Trad. Joana Angelica D’avila Melo. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

  • Guilherme Bohn dos Santos

A Recepção da Antiguidade na Música

Imagem de divulgação no Instagram @antigaeconexoes

Olá, pessoal! Estamos preparando as próximas publicações a partir de um novo eixo temático, a recepção da Antiguidade na Música. Dentro deste eixo, escolhemos alguns temas específicos: os usos de espaços da Antiguidade como palco para performances musicais contemporâneas; músicas que pensam a Antiguidade como temática principal; músicas que utilizam a Antiguidade de maneira mais pontual, ou seja, produzindo alusões contemporâneas a partir do que se entende sobre a Antiguidade.

A música era considerada uma das musas durante a Antiguidade. Seu nome, Euterpe, significa deleite, o que já demonstra a relação próxima entre a Música, os sentidos humanos e o prazer. Ao longo da História, a Música ocupou diferentes espaços nas mais diversas sociedades, e nas últimas décadas podemos observar o papel que esta arte ocupa em demonstrar problemas sociais, englobar identidades e, acima de tudo, divertir as pessoas. A relação entre as obras da Antiguidade e a Música não é algo novo, visto que óperas dos séculos XVIII e XIX vão se embasar em obras mitológicas sobre o período antigo. Este tipo de produção musical recupera a Antiguidade exatamente como uma continuidade da tradição clássica, algo comum no período de formação dos Estados Nacionais europeus e na construção de identidades. Entretanto, nosso foco será nas percepções da Antiguidade em músicas na contemporaneidade, ressaltando o caráter popular das apropriações do passado antigo. Nesse sentido, algumas questões norteiam nossas escolhas dentro deste eixo temático: como e por qual motivo a recuperação da Antiguidade na música popular contemporânea ocorre, quais elementos são recuperados, qual a relevância do tema dentro de gêneros musicais específicos, e por que os espaços da Antiguidade são utilizados?

A retomada da Antiguidade na música, seja a partir de músicas e álbuns totalmente dedicados ao tema, seja em referências mais pontuais, demonstra a atualidade destas temáticas e sua permanência na contemporaneidade. Sua utilização pode ser analisada como algo comum ao imaginário popular das últimas décadas, e a um conhecimento pelo passado que cada vez mais é mediado – muitas músicas, como analisaremos, terão como base produções cinematográficas e não as fontes diretamente da Antiguidade. As músicas que tratarão do tema de maneira mais exaustiva, como aquelas pertencentes ao Heavy Metal e suas vertentes, também produzirão uma leitura da Antiguidade que relaciona uma estética do estilo a alguns temas recorrentes nos relatos mitológicos e históricos. 

Além disso, a utilização de um espaço antigo em performances contemporâneas – aqui podemos citar como exemplo mais conhecido o Live in Pompeii, do Pink Floyd – demonstra de maneira bastante expressiva a relação entre passado e presente que comumente discutimos nos estudos da recepção: a retomada de um espaço antigo é sinal de sua permanência (aqui, seja em um sentido estético ou acústico), mas também sua apropriação para algo novo, um novo tipo de experiência com a arte.

Acreditamos que este eixo pode auxiliar nas discussões sobre estas diferentes leituras que a música faz da Antiguidade, promovendo sempre esta última enquanto uma permanência interessante na contemporaneidade e mostrando esta conexão entre antigos e modernos. Esperamos que vocês gostem dos textos tanto quanto nós gostamos – e nos divertimos e conhecemos coisas novas – enquanto estávamos preparando-os. E um último informe: ainda nesse mês teremos uma live no YouTube, então fiquem ligados nas nossas redes sociais!

Referências:

FLETCHER, Kristopher F. B.; OSMAN, Umurhan. (Eds.). Classical Antiquity in Heavy Metal Music. London, New York: Bloomsbury Academic, 2019.

MOORMANN, Eric M. Pompeii’s Ashes: The Reception of the Cities Burned by the Vesuvius in Literature, Music and Drama. Berlin: De Gruyter, 2015.

  • Ingrid Cristini Kroich Frandji