Entrevista com Rodrigo Tadeu Gonçalves

Nosso entrevistado de hoje é Rodrigo Tadeu Gonçalves, poeta e professor associado de Língua e Literatura Latina na Universidade Federal do Paraná.

Rodrigo Tadeu Gonçalves (foto: Rafael Dabul)

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

Eu entrei na UFPR para fazer letras português-inglês, mas, naquela época, dois níveis de latim ainda eram obrigatórios, mais épica e tragédia gregas. Mantive meu curso mas fui fazendo as matérias de clássicas por amor às aulas e aos professores, que certamente determinaram minha escolha de também me formar em letras-latim (e quase ter terminado letras-grego). Acho que a presença do mundo antigo nos currículos é muito estimulante para os alunos que conhecem pouco a respeito dele, especialmente quando as disciplinas são ensinadas com a paixão devida.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

Pergunta difícil. Mas eu diria que a Odisseia, a Eneida, o Anfitrião de Plauto, as Bacantes, a Antígona, puxa, muitos. Dos contemporâneos, leio e releio tudo da filósofa francesa Barbara Cassin, especialista em sofística grega e com uma visão da antiguidade e do poder da linguagem que é absolutamente sedutor. 

Quais são os seus temas atuais de pesquisa?

Trabalho bastante com recepção dos clássicos, especialmente sob a perspectiva da tradução e da performance. Tenho também uma tradução em andamento do De Rerum Natura do Lucrécio, em hexâmetros brasileiros, e já estou no livro 5 dos seis do total, mas não sei ainda quando sai. Faço parte da organização do segundo e último volume do Dicionário dos Intraduzíveis, organizado pela Cassin, e acho que isso tudo se conecta de maneiras algo confusas e interessante, ao menos pra mim.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Pretendo mergulhar mais a fundo em discussões sobre performance e recepção, via tradução, em um projeto megalomaníaco que ainda não está bem definido. E quero traduzir mais livros grandes depois do Lucrécio. Mas quais serão ainda não posso contar.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Passei dez meses na França para um pós-doc e de lá tive a chance de visitar Roma, a Inglaterra, entre outros países, mas não a Grécia (infelizmente). Roma é impressionante, e me lembro especialmente com muito carinho de um passeio de horas de bicicleta e a pé pela Via Appia, algo como uma viagem no tempo. Mas a França me marcou mais, pelo tempo dedicado às bibliotecas e à cidade de Paris, com seus muitos modos de se remeter à antiguidade (por exemplo, tem um teatro antigo escondido no meio da cidade, vale a pena procurar). 

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Difícil dizer, também. Mas sou fascinado pela Medeia, pela Antígona, pelo Dioniso das Bacantes, o Sósia do Anfitrião de Plauto, pelas infelizes Dido e Camilla da Eneida e pelo Odisseu. O Odisseu é um dos personagens mais impressionantes da história da literatura. Talvez o mais impressionante, complexo e imprevisível. 

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Lucrécio. Sem dúvida nenhuma. Ia querer saber se ele morreu mesmo de amor e se é verdade que ele foi envenenado por uma poção, e se o De Rerum Natura é mesmo sincero ou só uma tentativa desesperada de manter a sanidade em pequenos episódios em que o feitiço não estava funcionando. Imagino que, tanto tempo depois, ele poderia ser bem sincero. Pensando bem, depois de ler o ensaio “The Anguish of Virgil”, em que o meu amigo e tradutor de Homero e da Eneida (entre outras coisas), Rodney Merrill, descreve uma longa e sincera conversa que ele teria tido com Virgílio, eu queria encontrar também o mantuano pra saber um pouco mais de sua angústia eterna em ser lido para sempre como um defensor de Augusto, mesmo tendo dado ordens muito claras pra queimarem a Eneida. Mas, em ambos os casos, eu trocaria o café por uma cerveja.