Entrevista com Anderson Zalewski Vargas

Oi gente! Esperamos que todos estejam bem!
O entrevistado de hoje é Anderson Zalewski Vargas, professor do Departamento e Programa de Pós-graduação em História da UFRGS.

Anderson Zalewski Vargas. Foto: acervo pessoal.

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

De acordo com o folclore familiar, meu interesse pela Antiguidade é anterior ao meu letramento… da fase letrada, ainda tenho comigo os livros “Os últimos dias de Pompeia”, “Invasões Bárbaras”, de uma antiga coleção infanto-juvenil da Record.

Na universidade (UFRGS), meu interesse por Antiguidade data dos primeiros semestres, graças à professora Loiva Otero Félix, que montou um grupo de trabalho, incluindo monitoria e organização de eventos, o Simpósio de História Antiga, que durou até o início dos anos 2000. Apesar disso, meu mestrado foi sobre História de Porto Alegre. Logo fui chamado no concurso em que fui aprovado em 1988 e assumi as disciplinas de Antiga, dividindo o Setor com a colega Margaret Bakos. A partir daí, planejei o doutorado em Historiografia Antiga, na USP, sob orientação do prof. Francisco Murari Pires, concluído em 2001.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

“A História da Guerra dos Peloponésios e Atenienses”, de Tucídides. É um daqueles livros a serem relidos pela vida inteira, sempre apresentando possíveis novidades à medida que o tempo e as leituras passam. Heródoto, claro, em menor grau. As “Vidas Paralelas”, de Plutarco; Tito Lívio. Górgias, “Elogio de Helena” (que não canso de ler e usar em salas da graduação e pós) e o “Tratado do não-ente”. e o “Como se escreve a História”, de Luciano. Das tragédias, aprecio muito “Medeia” e “As bacantes” e particularmente a Oresteia. “Epopeia de Gilgamesh” é outra obra antiga que me fascina (assim como considerável parte da humanidade capaz de conhecê-lo).

No campo da historiografia, qualquer livro do Paul Veyne, que sempre me fascinou desde o início do mestrado, pela peculiar análise inteligente, por conciliar teoria com historiografia da Antiguidade, pelo seu espírito iconoclasta… quem mais poderia intitular um texto assim: “Conheceram os gregos a Democracia?”. Especificamente, destaco “Acreditavam os gregos em seus mitos?”, “Pão e circo” e a seção que ele escreveu na “História da Vida Privada”; e, apesar de ser um livro de teoria, não posso deixar de mencionar o “Como se escreve a História”, uma contraposição à lógica de Luciano . De Marcel Detienne, sempre apreciei “A invenção da mitologia”, por razões semelhantes às que me levaram a apreciar Paul Veyne.

Na linha dos escritos sobre os sofistas, aprecio muito o “Efeito sofístico”, de Barbara Cassin.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Retórica e História da Recepção da Antiguidade.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Os citados acima pelo que permitem de reflexão teórica e mesmo aplicação metodológica capazes de interagir com a historiografia de forma geral, já que também me interesso por teoria. Pesquisando a produção jornalística e intelectual brasileira do século XIX me defronto com uma época em que a Antiguidade era a diferentemente significativa: era usada para pensar o tempo presente e para articular o futuro de uma forma fascinante, para além do eventual lustro intelectual hoje dominante.  

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

A Turquia… contemplar o antigo Mar de Mármara e as esplêndidas ruínas das cidades antigas, incluindo o sítio de Troia, foi uma experiência extrema. A própria Istambul com seu mix de ruínas greco-latinas e islâmicas e aquele estreito a dividir as duas partes da metrópole. Mas creio que os Balcãs me reservam ainda boas experiências, pelo que pude conhecer da Bulgária recentemente. Aquela região muito me interessa.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por que? 

Górgias..especialmente pelo “Elogio de Helena”..se ele realmente esteve na ágora ateniense a defender aquela personagem vilipendiada na forma daquele pequeno grande texto..seria um dos pontos altos da história antiga.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Tucídides, certamente… conversaríamos sobre aquela visão tão admiravelmente soturna do humano que ele foi capaz de escrever.