Entrevista com Fábio de Souza Lessa

Oi gente! A entrevista de hoje é com Fábio de Souza Lessa, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Fábio de Souza Lessa. Imagem: acervo pessoal

Quando você decidiu que queria estudar o mundo antigo? Como foi esse processo?

A decisão por estudar o mundo antigo, em especial o mundo grego, surgiu durante o curso de graduação na UFRJ. Desde adolescente já havia escolhido o curso de História, mas tinha interesse em História Moderna. As aulas de História Antiga I ministradas pela Profa. Neyde Theml foram sedutoras e decisivas para a escolha, ainda precoce, para a especialização em História Grega.

Quais são os seus livros favoritos? (antigos ou contemporâneos sobre os antigos)

É sempre difícil enumerar livros prediletos, mas vamos lá: Dos textos antigos, destaco a Odisseia de Homero, Alceste de Eurípides e Ética a Nicômaco de Aristóteles, super atual para o mundo contemporâneo. Já dos contemporâneos, Os Mestres da Verdade na Grécia Arcaica de M. Detienne e Entre Mito & Política de J-P. Vernant. Acrescento ainda a leitura do momento: História Pessoal: Os Mitos Gregosde Pauline Schimit Pantel, tradução recente da Universidade de Coimbra.

Quais são os seus temas atuais de pesquisa? 

Tenho mantido, basicamente, duas linhas de investigação. Uma, mais antiga na minha trajetória acadêmica, diz respeito às reflexões sobre as relações de gênero na Grécia antiga. Tal pesquisa sempre caminhou no sentido de desconstruir o modelo mélissa (abelha), calcado na ideia de reclusão e de total submissão feminina. Desde os anos 90, com a consolidação dos trabalhos em História cultural, a operacionalização da documentação material, em especial as imagens pintadas em suporte cerâmico, foi fundamental para a argumentação de minhas hipóteses. Hoje, tenho dado maior atenção às tragédias de Eurípides e buscado associar a discussão teórica sobre gênero à discussão sobre etnicidades.
A segunda linha de investigação foi desenhada a partir da primeira. Comecei a sentir necessidade de refletir sobre o masculino e também sobre a antropologia do corpo, em um momento no qual se falava muito em crise da masculinidade, sobretudo entre os antropólogos. Observei ainda que as competições atléticas helênicas careciam de um estudo mais apurado no Brasil. Dessas constatações surgiu um novo objeto de pesquisa que é estudar as competições esportivas na Grécia antiga.

O que você deseja pesquisar no futuro? Algum tema em especial?

Pretendo verticalizar as minhas pesquisas sobre a antropologia do corpo e os atletas do Fat Boy Group, do conjunto de imagens reunidas por John D. Beazley que se distanciam do modelo apolíneo de representação dos corpos dos atletas.

Existe algum lugar que marcou a sua relação com o mundo greco-romano/antigo? Qual?

Com certeza a chegada em Atenas num sábado de julho de 1995. Era a primeira viagem internacional que fazia e havia uma comoção por estar na capital grega, porém algo inesperado também foi marcante: desembarquei numa tarde linda de sol forte de verão e enquanto resolvia as questões que envolviam bagagem e passaporte se formou um enorme temporal – o único dia de chuva em 45 dias em Atenas – com trovoadas e céu negro. A chegada à Escola Francesa de Atenas – onde fiquei hospedado e pesquisando – foi marcada por um épico banho de chuva.

Qual é o seu personagem (ficcional ou não) favorito do mundo clássico/antigo? Por quê? 

Do mundo ficcional, Odisseu, pelas suas inúmeras nuances e astúcias. Do dito mundo real, Heródoto e Tucídides, pela forma como refletem sobre a História.

E, para finalizar, qual grego ou romano você chamaria pra um café? Sobre o que conversariam? 

Atualmente, Eurípides. Seria uma grande oportunidade para conversarmos sobre as relações entre o masculino e o feminino na Atenas Clássica, bem como também sobre as questões de etnicidade grega.